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Archive for abril 2011

O Centro do Jogo e a Organização Ofensiva

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Comportamento da equipe a partir da mudança do Centro do Jogo é um indicador de qualidade ofensiva

Na organização defensiva espera-se que uma equipe já esteja organizada para o momento em que recuperar a posse de bola. O jogador que recuperá-la, todos que participam da organização defensiva, além dos que compõem o balanço ofensivo, devem ter comportamentos de transição ofensiva pré-estabelecidos de acordo com o setor do campo em que ocorreu a recuperação. Ter a posse de bola, como todos sabem, caracteriza o início do processo ofensivo que, em contra-ataque, ataque rápido ou ataque posicional, apresenta um único objetivo: o gol. Para fazê-lo, ou melhor, construí-lo, serão necessárias diversas ações táticas (a todo o momento, de todos os jogadores) que potencializem as situações de finalização.

Com a posse de bola e após cada mudança do centro do jogo, uma equipe demonstra suas características ofensivas (e suas preocupações defensivas) enquanto ataca. Entende-se por centro do jogo um círculo imaginário, composto pela bola como centro e também pelos jogadores que estão próximos a ela, como pode ser observado na figura abaixo:

Em cada situação no centro do jogo, para aumentar a probabilidade de êxito, uma equipe deverá: 

  • Recusar inferioridade numérica;
  • Evitar igualdade numérica;
  • Criar superioridade numérica. 

O centro do jogo muda-se constantemente ao longo de uma partida. Seja por troca de passes, lançamentos, conduções, dribles ou finalizações, a bola (e seu círculo imaginário) ocupa espaços distintos, ora próximos às zonas de finalização, ora distantes.

No Futebol de alto nível, além do portador da posse da bola no centro do jogo, a equipe contém um jogador responsável pela cobertura ofensiva (possibilidade de passe de segurança caso o jogador que detém a posse de bola não tenha condições de finalização, progressão ou passe ofensivo) e outro responsável pela movimentação no centro do jogo (dentro ou para fora dele), tentando gerar imprevisibilidade na organização defensiva adversária.

Fora do centro do jogo, mas com igual importância no processo ofensivo da equipe, os demais jogadores (que em poucos instantes podem fazer parte do centro do jogo) devem agir taticamente, respeitando suas respectivas funções e regras de ação, dando amplitude ótima e profundidade, ampliando espaço efetivo de jogo, compondo o balanço defensivo, realizando penetrações, ocupando espaços vazios e/ou abrindo linhas de passe ofensivas, também com a finalidade de serem imprevisíveis ao oponente (e previsíveis a sua equipe).

Como o predomínio de ações técnicas de um jogo de futebol deve-se aos passes, a constatação de que diferentes jogadores irão compor o centro do jogo durante cada ação ofensiva é óbvia. Em poucos segundos o jogador que porta a bola deixa de compor o epicentro do centro do jogo (e ter que decidir sobre o remate, passe ofensivo ou passe de segurança) e passa a ter que tomar outras decisões táticas conforme as descritas acima.

E é em cada passe que se perceberá a qualidade da equipe que ataca, pois a cada mudança do centro do jogo, altera-se também a situação momentânea de decisão de cada jogador e, consequentemente, o comportamento adequado imposto pelo jogo. Em grandes equipes, observa-se que, aliadas às trocas de passes, rapidamente se restabelecem as estruturas (jogadores) fundamentais para a organização do centro do jogo (cobertura ofensiva e movimentação) e que, também rapidamente, alteram-se as atitudes dos jogadores que estão fora do centro do jogo com ações que buscam promover a desorganização do adversário, a criação de espaços livres e a aproximação da zona de risco oponente. 

http://www.youtube.com/watch?v=3GhPB7gxXUs

Uma parcela pequena das ações ofensivas terminará em finalização, porém, para toda situação de posse de bola uma equipe indicará como pensa (e executa) suas ações ofensivas em determinado jogo. Por observações, análises e experiências, parece que muitas dependem mais do comando do treinador ou da intuição dos atletas, do que de um comportamento construído. E a sua equipe?

Written by Eduardo Barros

24 de abril de 2011 at 14:35

O espetáculo será cobrado

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Declaração de ex-jogador contratado para função de treinador permitirá mais uma análise da aplicação de competências no exercício desta profissão

Como acontece semanalmente, mais um treinador do futebol brasileiro foi demitido. Celso Roth, com 62% de aproveitamento em 2011, “caiu” dias após a derrota por 1 a 0 para o Jaguares, válida pela 5ª rodada da fase de grupos da Copa Libertadores.

O substituto: Paulo Roberto Falcão, ídolo da torcida colorada na década de 70 e um dos grandes nomes do futebol mundial com passagem marcante pelo Roma-ITA, recebeu o convite dos dirigentes do Inter-RS para reingressar à profissão de treinador mais de 15 anos após breves experiências no comando da equipe gaúcha, da seleção brasileira e do América-MEX.

A missão: levar o Internacional à conquista do torneio continental e, consequentemente, à disputa do título mundial após fracasso em 2010 diante do Mazembe-CON.

A declaração: na coletiva de imprensa, com dirigentes, repórteres, jornalistas e alguns jogadores, Falcão afirmou que irá para o banco com a certeza de que verá um espetáculo!

Todo treinador (e sua comissão) deve ter uma ideia de jogo na cabeça. A sua ideia de jogo nada mais é do que o comportamento esperado por ele (e por sua comissão), de cada jogador, em qualquer ação (ofensiva, defensiva ou de transições), perante cada circunstância (vitória, empate, derrota, tempo de jogo, situação na competição), ao longo de 90 minutos.

Falcão, ex-comentarista, provavelmente deve ter a sua. Para construí-la na prática (afinal, a permanência dela como ideia não se traduz em vitórias) será necessária uma gama de competências profissionais oriundas do conhecimento acadêmico, das ciências humanas, biológicas, da experiência prática e, por que não, do conhecimento empírico.

Não é objetivo desta coluna discorrer detalhadamente sobre as competências do profissional de futebol (principalmente do treinador), porém, é pertinente lembrá-las para reiterar a reflexão final que este texto proporá.

O conhecimento acadêmico específico acerca do futebol, cada vez mais se estabelece como um saber significativo para os profissionais da área. Dominar os conteúdos táticos, técnicos, físicos, estratégicos, análises quantitativas e qualitativas de jogos têm sido objetos de estudo. Há ainda, o estudo da ecologia, que entende o futebol a partir de uma perspectiva sistêmica, o domínio da gestão de conflitos, da gestão de pessoas, compreensão do macro-ambiente, liderança, motivação, inspiração, inovação, auto-conhecimento, comunicação, psicologia, filosofia, planejamento estratégico, comportamento humano, coaching, fisiologia, nutrição, bioquímica, enfim, muitas (e complexas) são  as competências que devem ser desenvolvidas por um bom treinador.

É certo, porém, que parte importante das demais “competências” compreende tempo de prática, visibilidade atingida como atleta profissional, bom relacionamento com dirigentes e empresários, além de vínculos afetivos construídos com torcedores e agremiações.

Diante disto, permite-se a seguinte pergunta para os dirigentes do Internacional (que recentemente remanejaram Clemer de preparador de goleiros do profissional para técnico do sub-17): quais competências profissionais foram consideradas na contratação de Falcão?

Quase 20 anos como atleta profissional; mais da metade deles na equipe colorada; prestígio mundial que lhe conferiu o título de “Rei de Roma” e inteligência de jogo indiscutível. Com estes fatos a resposta parece fácil!

E, também diante disso, permite-se outra pergunta, agora para os leitores: um indivíduo com domínio exclusivo do conhecimento acadêmico acerca do futebol estaria preparado para assumir a função de técnico do Internacional?

O ambiente atual (torcedores, mídia, diretoria) pede um Inter mais ofensivo; uma derrota no próximo jogo da Libertadores pode custar a classificação para a próxima fase; alguns jogadores estão aquém do desempenho uma vez apresentado; o tempo de treinamento até o jogo de estreia é de somente quatro dias e o resultado precisa ser imediato. A resposta, nesta situação, também parece fácil!

No futebol profissional atual, o predomínio do comando pertence aos ex-jogadores. Nas categorias de base, além de ex-jogadores, profissionais com formação acadêmica conquistam espaço gradativamente. De quem o Futebol precisa? De todos os que estiverem dispostos à capacitação. Pois, se de um lado ex-jogadores estão desatualizados ao reproduzirem treinos que fizeram enquanto atletas, por outro, treinadores e demais membros de comissões técnicas devidamente graduados insistem em aplicar sessões de treino com exercícios distantes da realidade do jogo.

E o Falcão? Quais (e em que nível se encontram) as competências do novo treinador de um dos maiores clubes do futebol brasileiro?

A resposta poderá ser observada nos jogos da equipe colorada ao longo do ano. A função de Falcão será, partindo da análise do desempenho atual da equipe ao desempenho que é almejado (sua ideia de jogo), construir no processo de treinamento o declarado “espetáculo”.

Espetáculo, que traduzido do dicionário da língua portuguesa, refere-se a tudo aquilo que atrai o olhar e que pode ser contemplado.

Espetáculo, que demanda tempo em ser criado. Tempo que inexiste para os dirigentes brasileiros.

Espetáculo que, a cada apresentação (jogo) de seus artistas (atletas), evidenciará as competências que o diretor (treinador) possui e que foram aplicadas nos ensaios (treinos).

E, para concluir, espetáculo que, com merecimento e reconhecimento da plateia, poderá atrair olhares, receber aplausos em pé e, principalmente, ter o agradecimento do futebol brasileiro!

Você, leitor, pensa que veremos o espetáculo?

Written by Eduardo Barros

17 de abril de 2011 at 12:06

Mais jogadores à frente da linha da bola: nenhum gol em casa, três feitos no Allianz Arena e cinco sofridos no San Siro

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Regras de ação mais ofensivas, mudanças de plataforma e papel determinante de Eto’o influenciaram os três últimos resultados da equipe italiana na Champions League

Leitores,

Conforme comuniquei no artigo da semana passada, tornei-me colunista tático semanal da Universidade do Futebol®. Todas as colunas que lá forem publicadas serão replicadas neste blog. Eventualmente, farei publicações exclusivas para o blog.

A seguir, a primeira coluna:

Este é meu texto de abertura como colunista da Universidade do Futebol®. Antes de iniciar as questões táticas referentes ao tema desta semana, gostaria de agradecer a indicação do treinador Rodrigo Leitão, a quem substituo, parabenizá-lo pelas mais de quinhentas páginas (muito bem escritas) sobre assuntos direta ou indiretamente relacionados ao futebol e, também, agradecer ao convite feito pela Universidade, que foi orgulhosamente aceito por mim. Estou ciente da responsabilidade e, desde a primeira coluna, comprometo-me a manter a qualidade dos temas discutidos, obviamente com a minha identidade, além de proporcionar ambientes de discussão a partir de conteúdos teórico-práticos da modalidade.

A organização ofensiva de uma equipe pode ser construída de diferentes maneiras. Com estruturas fixas, móveis, com jogo apoiado, vertical, com predomínio de finalizações a curta ou média distância, com cruzamentos, maior ou menor amplitude, penetrações frequentes, dribles, além de quaisquer outras ações que privilegiem a aproximação à zona de risco do adversário. Com a posse, é certo também que, quanto maior a quantidade de jogadores à frente da linha da bola, maiores são as possibilidades de criar linhas de passe verticais, vantagem numérica e obter êxito nas movimentações ofensivas para se aproximar do alvo adversário. No entanto, é importante lembrar que quanto mais jogadores participarem à frente da linha da bola, menos jogadores ficarão responsáveis pelo Balanço Defensivo da equipe.

Em cada um dos seus três últimos jogos na Champions League, a Inter de Milão, do técnico brasileiro Leonardo, apresentou comportamentos ofensivos distintos, influenciados por mudanças de plataforma, características e regras de ação dos jogadores, e que serão explicitadas a seguir.

No primeiro confronto da 8ª de final, contra o Bayern de Munique, a Inter foi a campo em um 1-4-3-2-1 como pode ser observado na imagem abaixo:

Durante todo o jogo a Inter defendeu com pelo menos oito jogadores atrás da linha da bola e, ao roubá-la, a passagem por Sneijder (que busca constantes desmarcações) era a melhor opção nas transições ofensivas. As que foram realizadas com passes longos beneficiaram a equipe alemã.

Na fase ofensiva, com a bola em seus pés, Sneijder tinha quase sempre somente duas opções. Stankovic, pela direita, tentando criar linhas de passe com menor agilidade que o holandês, e Samuel Eto’o, que incomodava ao menos três defensores alemães e recuava entre linhas defensivas do adversário para a função de pivô. Veja, no pequeno trecho a seguir, duas ações ofensivas com a participação dos meias e atacante da equipe italiana:

 http://www.youtube.com/watch?v=-Irnl6Lb2r4 

Num jogo em que a equipe de Milão não se expôs ofensivamente, atacando com poucos jogadores, criou três chances de gol a partir de bola parada, outros três em transições ofensivas, sendo duas com Cambiasso e uma com Maicon, além de uma finalização de Kharja após mais uma bem sucedida função de pivô, seguida de assistência, feita pelo Eto’o.

O placar do jogo, como todos sabem, foi 1 a 0 para os alemães com uma falha (que nem todos sabem) que não foi exclusiva de Júlio César.

No confronto seguinte, em Munique, mudanças na equipe nerazurra: 1-4-2-3-1, entrou Pandev, saiu Zanetti e a necessidade da vitória para permanência na competição.

Ao longo do jogo, ao invés de dois jogadores à frente da linha da bola, o meia criativo Sneijder tinha três (Pandev, Stankovic e Eto’o). Mais ofensivos, apoiavam ao ataque em amplitude Maicon e Chivu, dando espaços para Ribery e Robben nas transições.

Como foi escrito anteriormente, com mais jogadores à frente da linha da bola “maiores são as possibilidades de criar linhas de passe verticais, vantagem numérica e obter êxito nas movimentações ofensivas”. Logo no início da partida, 1 a 0 Inter.

http://www.youtube.com/watch?v=A5K0K65pjA0 

Ainda no primeiro tempo, o Bayern empatou em um rebote que Gomez aproveitou depois de jogada individual e finalização de Robben e virou após um passe que foi mal interceptado e sobrou para Müller deslocar o goleiro. Mais duas chances claras de gol foram criadas em transições ofensivas, com Gomez e Ribery, porém, o primeiro tempo terminou em 2 a 1 para a equipe local.

No segundo tempo, a entrada de Philipe Coutinho e a maior mobilidade com a equipe em posse aumentaram o desempenho ofensivo dos italianos que, numa jogada com três jogadores à frente da linha da bola e a função de pivô de Eto’o, terminou em finalização de Sneijder e empate no placar: 

http://www.youtube.com/watch?v=8HR7E7AsQb4 

O poder ofensivo dos alemães não foi o mesmo da etapa inicial. Robben foi substituído, a mobilidade ofensiva da Inter não resultava em finalizações, com exceção de um chute de Pandev e, aos 42 minutos, Eto’o (aquele que incomodava ao menos três defensores) recebe um chutão de Sneijder e novamente na função de pivô serve Pandev que finaliza sem chances para Kraft: 3 a 2 Inter e vaga nas quartas de final. 

http://www.youtube.com/watch?v=cFQOHD56_F0 

O adversário, Schalke 04, “modesto” 10º colocado do campeonato Alemão. A mídia e alguns dos jogadores imaginavam um duelo relativamente fácil, creditando vantagem à equipe italiana, que jogaria no San Siro.  Lúcio, suspenso, deu entrevista pedindo humildade, entretanto, agradecia o sorteio e o não chaveamento com Real ou Barça pós-classificação.

Com nova alteração na plataforma e jogadores, saíram Lúcio e Pandev e entraram Zanetti e Milito, com a equipe distribuída em campo no 1-4-4-2 (losango), como mostra a figura abaixo:

Assim como na vida, as explicações do futebol são complexas e, seguramente, o resultado obtido em um jogo não advém somente da quantidade de jogadores à frente da linha da bola. No duelo da última terça, em que a todo momento as opções ofensivas de Sneijder eram pelo menos 4 (Milito, Eto’o, Stankovic/Kharja, Cambiasso, e às vezes Maicon e Thiago Motta), o excesso de exposição ofensiva e a lentidão (física, técnica, tática e emocional) nas transições defensivas facilitaram o jogo apoiado do Schalke que, nesta ordem, fez um gol de bola parada, um a partir de transição ofensiva, dois gols a partir de posse em progressão e, o último, também em transição ofensiva.

Como exemplo, veja o segundo gol dos alemães, no final do primeiro tempo, construído em uma transição ofensiva alemã, em que o volante Thiago Motta saiu do seu setor e, após a perda da bola e fragilidade no balanço defensivo, o atacante do Schalke Edu recebeu um belo passe e empatou o jogo.

 http://www.youtube.com/watch?v=fBaJAmyfsY0 

O placar final todos já sabem: 5 a 2 e uma boa vantagem (adquirida e não creditada) para o jogo de volta.

O desempenho da equipe italiana (e não somente o resultado) traz algumas reflexões: 

– Eram necessários tantos jogadores à frente da linha da bola, considerando que Lúcio estava suspenso e a performance defensiva da equipe poderia ser prejudicada?

– Milito ocupou o espaço (e fez a função) que Eto’o vinha ocupando nos jogos anteriores?

– Com o Eto’o predominantemente na faixa lateral esquerda do campo, a função de pivô foi eficaz?

– Com a expulsão de Chivu, Eto’o não poderia ocupar um espaço no meio campo, como já o fez com Mourinho?

– Kharja ou Philipe Coutinho?

– Sneijder “para de pensar” quando está perdendo? 

Estas reflexões (e muitas outras) Leonardo e sua comissão técnica terão que fazer para definirem o comportamento da equipe no que será o jogo do ano para a Internazionale. Uma das grandes características deste time (transições ofensivas com rápida aproximação ao alvo oponente) pode não ser possível com um adversário que classifica perdendo por até três gols de diferença. Pelo que apresentou nas últimas partidas, faltam características no comportamento da equipe (e jogadores) para a construção de um jogo apoiado. O Schalke, de mero coadjuvante das quartas, passou à forte candidato das semi-finais, creditado(???) por ter goleado a atual campeã do torneio.

No Futebol, assim como na vida, as explicações são complexas…

Written by Eduardo Barros

10 de abril de 2011 at 11:27

O Futebol, minhas mudanças de opinião e as novas oportunidades

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Caros leitores,

 Tenho 26 anos de idade e duas décadas de envolvimento com o futebol. Da paixão na prática durante a infância, passando pelo sonho de se tornar atleta na adolescência, pelo comprometimento no final da formação enquanto aguardava a profissionalização, pela frustração em conseqüência das lesões, até ao ingresso na faculdade e o início dos estudos aprofundados da modalidade, com posterior abandono da prática enquanto atleta e a escolha da nova profissão, uma certeza: COMO EU MUDO DE OPINIÃO!

As mudanças mais relevantes iniciaram a partir dos 18 anos, com o conhecimento acadêmico, que me permitia aliá-lo ao conhecimento prático de todos os meus ex-treinadores e também os daquele momento e, desta forma, obter minha opinião acerca do jogo de futebol.

As primeiras modificações não foram difíceis de ocorrer, afinal, não precisou estudar muito para saber que esse desporto era mais abrangente que a somatória de todas as ações técnicas que o caracterizam. Além dessas ações, era necessária uma ótima condição física, adquiridas não mais com longas corridas contínuas de 10 km, mas com treinos de corrida intervalados em tiros de 1000, 800, 600, 400 e 200 metros.

Muito próximo ao aperfeiçoamento “físico” do meu entendimento do jogo de futebol, houve o contato com a tática, ou melhor, com o 3-5-2 / 4-3-3 / 4-4-2 / 3-4-3. Cada um desses “esquemas”, de acordo com minhas buscas e nova opinião formada, possibilitava inúmeros recursos táticos para o treinador e sua equipe.

Na época do “Futebol Força”, conheci a Hipertrofia, Resistência de Força, Força Máxima, Explosiva, Resistência de Sprint, Potência Anaeróbia, aplicadas ao Futebol. Quanto maiores os índices, melhor o desempenho nos jogos. Neste período, aprendi a importância da Periodização (Física), do macrociclo, mesociclo, microciclo e da supercompensação.

Com as aulas de Psicologia, a compreensão da vertente que faltava. Os temas Motivação, Ansiedade, Stress, Expectativa de êxito, Medo do fracasso, Atenção e Concentração abordados corretamente com os atletas contribuiriam significativamente no rendimento da equipe.

Este conhecimento, das somatórias isoladas da técnica, do físico, da tática e do emocional, compreendia minha cartesiana visão da modalidade em questão, aos 19 anos.

Com essa idade, ainda como atleta, eu me julgava profundo conhecedor do Futebol, do que fazer para ser um bom jogador, além de como deveriam ser os treinamentos para aumentar o rendimento de uma equipe.

No entanto, aos 20 anos, uma conversa com um dos preparadores físicos do clube que jogava, a disciplina Jogos Desportivos Coletivos na graduação, além do resgate de discussões e leituras da disciplina de Filosofia (aquela que muitos estudantes desprezam ao ingressar na faculdade de Educação Física por compor conteúdo das Ciências Humanas e não Biológicas) me fizeram rever conceitos e, novamente, atualizar minha opinião.

Meu preparador físico mencionava que as corridas contínuas e/ou intervaladas eram desnecessárias no treinamento em futebol, pois os jogos reduzidos (em dimensão, tempo e número de jogadores) seriam suficientes para o desenvolvimento da Capacidade Aeróbia, com uma grande vantagem: a presença da bola na sessão de treino. Nesta hora decidi calcular quantos quilômetros já havia percorrido em volta de campos e praças. Resolvi parar em 2000 km.

A disciplina Jogos Desportivos Coletivos era ainda mais inquietante. Com a máxima “Aprenda a jogar, jogando”, a modalidade era analisada a partir de princípios operacionais de defesa e de ataque, da inter-relação entre os jogadores em cada jogo, que manifestam níveis de relação com a bola, estruturação de espaço e comunicação na ação que transmitirão a qualidade do Jogo praticado e, por fim, o conceito imensamente significativo: o ensino adequado da modalidade não parte do aprendizado da técnica isolada e do gesto perfeito para posterior transferência na hora da prática, e sim do conhecimento das diferentes situações-problema que acontecem durante o Jogo, que exigem tomadas de decisão acertadas, com o recurso técnico que seja possível resolver o problema. Os cálculos de quantas vezes realizei os fundamentos técnicos do futebol, com o ledo engano que era o melhor que se poderia fazer para o aumento da minha performance, resolvi nem começar.

Quanto à disciplina de Filosofia, que privilegiava o pensamento sistêmico, afirmando que a fragmentação do conhecimento com posterior somatória das partes não constituíam o “todo”, começava a fazer sentido devido ao meu amadurecimento pessoal e também pela transferência direta para o futebol. Sessões de treino somente físicas, técnicas, ou então, táticas, deixaram de ser fundamentais para mim e passaram a ser sacrifícios obrigatórios de partes do Futebol com transferência minimizada para o “todo” Jogo e equipe.

Permaneci como atleta por mais dois anos. Foi o tempo que suportei continuar com as corridas, saltos, treinos de musculação, acelerações, treinos de finalização, cruzamentos, entre outros treinos analíticos. Além disso, minha consciência sobre o atleta profissional que havia me tornado e o que poderia me tornar também foram determinantes para encerrar a carreira de atleta e, aos 22 anos, iniciar a de Técnico de Futebol.

A inserção no mercado de trabalho aconteceu nas Categorias de Base do Paulínia Futebol Clube e, na entrevista de emprego, uma grata surpresa: não existia no clube treinamentos técnicos isolados e alguns treinamentos físicos eram realizados por meio de jogos reduzidos.

Num ambiente com bons profissionais, o conhecimento visto até então na teoria, começava a ser observado na prática. Deste modo, minha visão sobre o treinamento em futebol no ano de 2008, era a do Treinamento Integrado, ou seja, numa mesma sessão de treino, pensava-se (ainda isoladamente) os objetivos técnicos, físicos e táticos a serem atingidos.

Em pouco tempo de clube, aprendi conceitos como Amplitude, Penetração, Flutuação, Marcação Zonal, Progressão ao Alvo, Pressing, Linha 3, Zona de Risco e compartilhei com as equipes em que trabalhava.

Mais uma vez me julgava um grande conhecedor da modalidade. Contudo, sabia que o “óculos no qual enxergava o jogo de futebol” não demoraria a ser trocado.

E não demorou! Em 2009, com mais quatro profissionais do clube, responsáveis pelo Depto. de Pedagogia, um aprendizado exponencial com o desenvolvimento do Currículo de Formação do Atleta. Em mais de 6 meses de muitas discussões, a conclusão do material com a elaboração de oito grandes Conteúdos de Ensino do Futebol. Lógica do Jogo, Competências Essenciais, Referências do Jogo, Tática e Estratégia, Funções no Jogo, Relação com Companheiros, Fisiologia e Saúde, além do Apoio Didático.

No Currículo, a distribuição sistematizada e organizada, do sub-11 ao sub-20, dos Conteúdos e Temas a serem treinados em cada categoria.

Em 2010, o início da aplicação prática do Currículo. Durante a elaboração do Planejamento Anual e das reuniões de Planejamento Semanal em cada categoria que estava envolvido, a perspectiva deixou de ser integrada para ser sistêmica. No novo olhar para o futebol, cada treinamento deveria ser físico, técnico, tático e emocional e, na elaboração dos mesmos, cada treino (leia-se Jogo) deveria ser pensado a partir da Lógica do jogo de futebol, dos conteúdos necessários para cada categoria, do Momento do Jogo (ofensivo, defensivo, transição ofensiva e transição defensiva) que se pretendia privilegiar, além do nível de jogo atual da equipe e situação na competição.

Ainda sobre os treinamentos, os goleiros (que para muitos devem ser os primeiros a subirem para o campo de treinamento e os últimos a descerem e que frequentemente são os culpados por gols sofridos em falhas distantes da zona de risco, originárias na organização defensiva), devem treinar TODAS as sessões junto com os demais jogadores. Camas, pontes, quedas, deslocamentos e punhos não elevam o nível de entendimento de jogo do goleiro e não contribuem para a melhoria da tomada de decisão do mesmo. Logo, por que treinar isoladamente?

Tudo que mencionei ao longo do texto se resume à intervenção prática do treinamento em Futebol. Nos últimos anos, tenho me dedicado também a estudos sobre Comunicação, Liderança, Gestão de Empresas e de Pessoas. Para cada reflexão, novos aprendizados e pequenos ajustes nos “graus do meu óculos atual”.

A atualização, a busca constante por conhecimento, aceitar (e não temer) o novo são lemas fundamentais em meu cotidiano, que me inspiram, motivam e me realizam em cada aprendizado.

Sobre o aprendizado mais recente, a ideia de divulgar o meu trabalho, que também é desenvolvido por muitos profissionais no Paulínia Futebol Clube, para o mercado do futebol.

Com a ideia, a ação. A criação do Blog, a elaboração de temas atuais relativos ao Futebol, maior comunicação com pessoas que acredito poderem contribuir com meu aprendizado profissional e, em menos de três meses, uma grande oportunidade: a indicação do treinador Rodrigo Leitão e o convite feito (e aceito!) pela Universidade do Futebol® para substituí-lo na coluna tática do portal.

Atualmente, deixei de pensar que sou um profundo conhecedor da modalidade. Prefiro dizer que sou estudioso da modalidade. E, nesta escola, já deixei muitos óculos para trás ciente de que ainda existem muitos outros à frente.

Com os óculos de hoje, mudo o título do texto para:

“Minha vida, a quebra de paradigmas e as novas responsabilidades”

Written by Eduardo Barros

3 de abril de 2011 at 18:03