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Archive for maio 2011

A evolução das peneiras: o processo seletivo do jogador de futebol

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Esboços preliminares propostos pelo Dr. Alcides Scaglia recebem contribuições sobre evolução na captação de atletas

Ainda como colunista semanal, no final de 2009, o Dr. Alcides Scaglia propôs que a detecção de potenciais jogadores inteligentes deve ser o grande objetivo num processo de avaliação de atletas. Nesta oportunidade, mencionou que atributos físicos e habilidade com bolas nos pés devem ser menos importantes que a capacidade de entendimento de jogo e de aprendizagem do padrão organizacional sistêmico dos jogos. A coluna desta semana apresentará breves informações sobre procedimentos de análise na captação de atletas, buscando contribuir com o esboço outrora proposto.

O sonho de se tornar jogador de futebol alimenta a vida de milhões de crianças e adolescentes do nosso país. Na busca do sonho, o primeiro passo de muitos é ser aprovado em uma peneira de um clube de futebol. É neste ambiente que, dia após dia, expressões costumeiras são ditas, ouvidas e propagadas (muitas vezes erroneamente) acerca das “peneiras”, dos “peneirados” e de quem as organiza. 

“De mil, vira um!”

“Em vinte minutos dá pra ver se o jogador é bom!”

“Tenho olho clínico para observar jogador”

 “Só pelo jeito de andar, dá pra ver que não leva jeito.”

“Ele é bom zagueiro, mas é muito baixo.”

 “Jogador igual a você eu já tenho no elenco, então, pra você ficar, teria que ser melhor do que os que estão aqui.” 

Com processos de captação devidamente elaborados e co-relacionados com uma boa formação, num futuro próximo, as frases poderão ser as seguintes: 

“De mil, viram cinquenta!”

 “Em cinco sessões de treino dá pra ver se o jogador é bom!”

“Tenho olho clínico para observar jogador, mas os olhares de mais alguns profissionais (outros técnicos, adjuntos, psicólogo), podem me auxiliar.”

 “Anda todo desengonçado, mas joga bem”.

“Ele é bom zagueiro mesmo sendo baixo.”

 “Jogador igual a você eu já tenho no elenco, então, te darei oportunidade para evoluir, pois você está chegando agora.” 

Os procedimentos de análise têm uma estrutura semelhante, porém, possuem algumas especificações de acordo com as faixas etárias correspondentes a cada categoria, que estão subdivididas em: (1) Transição Esportiva, (2) final da Transição e inicio da Especialização e (3) Especialização. 

Categorias de Transição Esportiva – 11 e 12 anos 

No processo de avaliação desta faixa etária, não deve haver preocupação exclusiva com a definição de função dos jogadores, principalmente em ambiente formal. A estruturação de espaço no campo de aproximadamente 100m x 68m não permite uma boa aplicação de qualquer que seja a posição.

Quanto ao tempo de avaliação, deve-se permitir a realização de pelo menos seis sessões de treino, entre duas e três semanas, para possibilitar assimilação dos conteúdos vivenciados nos diferentes tipos de jogos.

A análise das características do jogador deve compreender o potencial de execução de atitudes predominantemente defensivas, ofensivas ou ambas, pois, compreendendo as características do jogador (táticas, técnicas, físicas e emocionais), facilita posterior definição de suas regras de ação.

O predomínio de jogos deve ter dimensão e número de jogadores reduzidos. A relação com menos jogadores exige um menor nível de complexidade, o que facilita a interpretação e leitura de jogo dos praticantes.

Alguns jogos elaborados devem fugir significativamente a lógica do jogo de futebol. Para isso, retirada de alvos, aumento de alvos, utilização de perna/braço não dominantes, pontuação por número de passes, desarmes, são ferramentas que devem ser amplamente exploradas.

Alguns jogos elaborados devem assemelhar-se a lógica do jogo de futebol. É para tal prática que eles estão sendo avaliados.

A intervenção do treinador deve ser constante com o intuito de elevar a compreensão do jogo praticado. A ação centrada à bola é comportamento padrão desta faixa etária, logo, desconstruir um jogo anárquico é função do treinador.

Classificar e perceber a evolução da manifestação das Competências Essenciais (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação) do jogo, pelo jogador, em ambientes não formais. Como destaque na análise destas competências, qualifica-se a eficiência do passe em situação de jogo, por ser fundamento predominante do futebol, o posicionamento sem bola em função das referências do jogo (alvo, tamanho de campo, bola, companheiros e adversários) além do acerto e da antecipação nas tomadas de decisão.

Após aprovação no processo seletivo, realizar inserção no grupo de jogadores, disponibilizando tempo hábil para adaptação.

Uma reunião com os pais pode ser realizada para apresentação da filosofia de trabalho de clube. 

Final da Transição Esportiva e início da Especialização – 13 e 14 anos 

No processo de avaliação desta faixa etária, deve haver preocupação com o cumprimento de uma posição específica pelo jogador, sobretudo em ambiente formal. É necessário avaliar o nível de aplicação inicial de conteúdos ofensivos, defensivos e de transições.

Quanto ao tempo de avaliação, a realização de pelo menos oito sessões de treino, entre duas e três semanas, para permitir assimilação dos conteúdos.

A análise das características do jogador deve compreender o potencial de realização de mais de uma posição, identificando versatilidade. Caso não demonstre tais características, observar potencial de se tornar especialista da posição que desempenha.

Deve haver um equilíbrio de jogos com dimensão e jogadores reduzidos e em ambiente formal.

Poucos jogos elaborados devem fugir significativamente a lógica do jogo de futebol.

Alguns jogos elaborados devem assemelhar-se a lógica do jogo de futebol. Para isso, a estrutura gol a atacar e a defender deve ser mantida.

Alguns jogos elaborados devem ter relação com o Modelo de Jogo pretendido/praticado pelo treinador. A ideia de jogo do treinador deve estar presente em algumas atividades por meio de conteúdos tático-estratégicos ofensivos, defensivos e de transição relativos aos comportamentos de sua equipe.

A intervenção do treinador deve ser constante com o intuito de elevar a compreensão do jogo praticado e reduzida nas situações em ambiente formal para observar a transferência da aprendizagem.

Em relação às Competências Essenciais, a análise é equivalente à categoria anterior.

Após aprovação no processo seletivo, realizar inserção no grupo de jogadores, disponibilizando tempo hábil para adaptação.

Uma entrevista com pais deve ser realizada para apresentação da filosofia de trabalho de clube, além de uma anamnese com membros da comissão técnica para identificar histórico de treino, lesões, hábitos alimentares e comportamentais. 

Especialização – 15, 16 e 17 anos 

Nesta faixa etária, o processo de avaliação deve observar quem é competente no exercício de uma posição.

Em relação ao tempo de avaliação, cinco sessões de treino, correspondente a uma semana, são suficientes para definir a aprovação do jogador e inserção no elenco.

Inicialmente, um questionário pode ser realizado com o intuito de descobrir em quais plataformas de jogo o avaliado já jogou e quais são as regras de ação que o mesmo entende como designadas a sua posição. Ter o conhecimento teórico (intuitivo e/ou adquirido) de suas funções no jogo permitirá comparação com o desempenho circunscrito ao jogo.

No passo seguinte, caberá ao treinador formar diferentes equipes e solicitar regras de ação específicas para cada jogador.  Com esta faixa etária, espera-se uma alta capacidade de interpretação e aplicação das informações da comissão técnica.

No jogo formal, conforme mencionado na faixa etária anterior, a qualidade das ações ofensivas, defensivas e de transições também devem ser identificadas.

Jogos que forem realizados com dimensão e espaços reduzidos devem, posteriormente, ter suas regras transportadas para aplicação em ambiente formal de jogo. O ambiente formal é o predominante na realização das atividades.

Nenhum jogo elaborado deve fugir significativamente a lógica do jogo de futebol e todos os jogos aplicados devem ter relação direta com o Modelo de Jogo pretendido/praticado pelo treinador. Nesta faixa etária, ao menos quatro anos de formação já se passaram e bom desempenho de jogo prévio é imprescindível para aprovação no processo seletivo.

Cada sessão de treino pode ter como macro-objetivo os diferentes momentos de jogo, o que permitirá um mapeamento detalhado do nível de aplicação de conteúdos possuídos por cada jogador.

A abordagem e intervenção do treinador devem ser pontuais, principalmente quando as regras de ação desempenhadas forem diferentes das solicitadas pela comissão.

O tempo restante de formação para atletas aprovados nesta faixa etária é bastante reduzido, logo, ampla discussão interdisciplinar sobre um atleta que desperte interesse deve ser proposta para estimar seu potencial de formação integral, aliado ao perfil desejado pelo clube. Nesta discussão, devem participar psicóloga, nutricionista, fisiologista, treinadores e adjuntos, para comporem a decisão final e apresentarem o resultado à diretoria que, ao analisar o relatório do atleta avaliado, decide o investimento. 

As populares “peneiras” precisam evoluir. Potenciais grandes jogadores de futebol se perdem no imenso território brasileiro devido à escassez de verdadeiros “olhos clínicos” para atletas inteligentes.

Avaliar um atleta de 12 anos é diferente de avaliar um atleta com 16, já no final do período de formação. Trinta minutos de coletivo não pode ser a atividade proposta para ambos.

E, para finalizar, a obviedade e a certeza de que as melhores escolhas, lembrando que aliadas a uma boa formação, serão fundamentais para a sustentabilidade das categorias de base do clube.

Foi assim com Sneijder, no Ajax, Cristiano Ronaldo, no Sporting, Neymar, no Santos, e Puyol, no Barcelona.

Por falar em Barcelona, dos atletas aprovados em avaliações do clube catalão (por seletivas, observações e captações na Espanha e em todo o mundo) e que passam a residir no La Masía, 10% debutam na equipe principal. Equipe que decidirá o título da UEFA Champions League com um número significativo de jogadores “pratas da casa”.

É a prova que de 1000, “viram” mais que um!!!

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Written by Eduardo Barros

29 de maio de 2011 at 9:06

Será que estaremos vivos?

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A falha de Júlio César, a mais recente entre diversas falhas de goleiros, coloca em discussão a metodologia de treinamento desta posição

Após as finais dos estaduais-2011, muitas rodas de conversa sobre futebol tiveram como assunto principal a falha do goleiro corintiano Júlio César na jogada que terminou com o gol de Neymar, o segundo do Santos na vitória por 2 a 1, na Vila Belmiro.

Inconformado com a derrota, um torcedor (sem o amplo olhar das vitórias e derrotas num jogo) questionou um técnico de futebol, argumentando como pode ser possível alguém que tem como profissão a função exclusiva de fazer defesas, não conseguir segurar uma bola tão fácil.

Leia a história abaixo, ocorrida num destes lugares em que se discute futebol: 

Torcedor: Não é possível! Ele é muito bem pago pelo que faz e “engoliu um frango” num chute rasteiro, fraco e, ainda por cima, no meio do gol. As desculpas que a grama estava molhada e a bola estava lisa não servem! Ele não poderia ter defendido?

Técnico: Poderia, sim. Mas considere toda a jogada. A recomposição da defesa do Corinthians foi lenta, o posicionamento de cobertura do zagueiro central ao lateral direito não foi bem executado e a visão do Júlio César pode ter sido atrapalhada no momento da finalização do Neymar.

Torcedor: Não interessa! Ele treina todos os dias com o preparador de goleiros e eu já vi centenas de vezes como são os treinamentos. Ele tem que defender chutes, chutes e mais chutes. Vi numa reportagem que alguns preparadores chutam até 500 bolas em um único dia. Muitos são dificílimos e incluem saltos, deslocamentos, rolamentos, quedas. Uma bola daquela não pode passar!

Técnico: Você está certo! Os goleiros defendem chutes, chutes e mais chutes, porém, escute-me: os treinamentos de goleiros um dia irão mudar!

Torcedor: Eu sei. Tenho acompanhado que alguns treinadores de goleiros utilizam raquetes e lançam bolinhas de tênis para serem defendidas. Clubes modernos dispõem até de uma máquina que dispara bolas. Tudo isso para melhorar o reflexo, certo? Espero que com isso os “frangos”, ao menos do meu time, não aconteçam mais!

Técnico: Não é bem isso que eu quis dizer. Os treinamentos que contenham disparos exagerados, seja com raquete, com máquina ou com o próprio treinador de goleiros, um dia irão acabar! Só não sei se nós ainda estaremos vivos…

Torcedor: Como assim? Se os goleiros já falham com a quantidade de treinamento de defesas que realizam, imaginem se pararem de treinar? O futebol está perdido!

Técnico: Eles não vão parar de treinar. Somente irão fazê-lo de maneira diferente!

Torcedor: Como assim?

Técnico: Chegará o dia que todos os treinamentos de uma equipe serão os mais próximos possíveis da realidade do jogo. O goleiro não vai ter que ficar pulando corda, cone ou estaca, pois o jogo de futebol não tem nada disso!

Torcedor: E como ele melhora a altura do salto?

Técnico: Ele não precisa saltar mais alto, e sim, na hora certa.

Torcedor: Mas e as defesas?

Técnico: Ele continuará fazendo. Não na mesma quantidade, no entanto, sobrará tempo para o aprendizado de outras questões muito importantes para o jogo.

Torcedor: Mas o que é mais importante para o goleiro do que defender?

Técnico: Não precisar defender, oras!

Torcedor: Isso é impossível!

Técnico: Não é, não! Defesas são ações técnicas bem menos realizadas do que reposições e interceptações ao longo de uma partida. Há estatísticas de jogos que uma equipe não acertou nenhum chute no gol durante os 90 minutos.

Torcedor: Incompetência!

Técnico: Ou competência da que não permitiu o chute?

Torcedor: E se uma equipe consegue chutar muito?

Técnico: Como o Barcelona, por exemplo?

Torcedor: Isso, o Barça finaliza demais! Como o goleiro se prepara para este bombardeio?

Técnico: De acordo com os números da UEFA Champions League, sabe qual a média de chutes no gol da equipe espanhola, por partida nesta competição?

Torcedor: Vinte e cinco?

Técnico: Sete!

Torcedor: Só?

Técnico: Sim! E é a melhor. Então, pra que defender mais de 200 bolas em um único dia?

Torcedor: Não sei, não sei… Estou confuso! Quer dizer que com estes novos treinamentos os goleiros não vão mais falhar?

Técnico: Vão sim!

Torcedor: E você não se importa?

Técnico: Claro que me importo, mas todos os jogadores erram…

Torcedor: Se for do meu time, vou ficar bravo sempre!

Técnico: Tudo bem, mas lembre-se de considerar toda a jogada…

Torcedor: Você já me disse isso! Me diga uma coisa: quem que está falando tudo isso? É você quem está inventando?

Técnico: Inventando, eu? Não… Quem me disse? Os mesmos que falam e escrevem que a preparação física do jogador de futebol está mudando, que os treinamentos das equipes de futebol irão mudar e que, consequentemente, o futebol brasileiro um dia irá mudar, e pra melhor!

Torcedor: Mudar? Somos pentacampeões do mundo. Você está ficando louco!!!

Técnico: É melhor pararmos por aqui… 

O técnico em questão não considerou pertinente continuar a discussão, pois expressões como a função do goleiro no modelo de jogo da equipe, as regras de ação a serem executadas nos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições) e o entendimento do fenômeno futebol a partir de uma visão sistêmica não seriam compreendidas. Felizmente, o diálogo ocorreu com um simples torcedor. O grande desafio é quando as justificativas têm que ser feitas para profissionais do futebol, muitas vezes sem sucesso!

Quando o treinamento de goleiros mudar, será que estaremos vivos? 

Se existe dúvida sobre a veracidade da história acima, fica a critério da imaginação do sábio leitor! 

“A mudança é a lei da vida. E aqueles que confiam somente no passado ou no presente estão destinados a perder o futuro.” (John F. Kennedy)

Written by Eduardo Barros

22 de maio de 2011 at 16:57

O Currículo de Formação do Atleta de Futebol – Parte I

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Desenvolver conteúdos de aprendizagem, do sub-11 ao sub-20, é função dos profissionais das Categorias de Base do futebol brasileiro

O nosso futebol passa por um gradativo processo de profissionalização. As mudanças na Lei Pelé, que privilegiam o clube-formador, como por exemplo, o direito da verba de solidariedade inclusive para transferências nacionais, são indicativos de que a formação do atleta brasileiro está sendo redimensionada e que a devida importância lhe está sendo conferida.

É certo, também, que os futuros craques do Brasil, em 5, 7, 10, 12 anos, hoje estão nas categorias de base dos milhares de clubes existentes no país e que será insignificante a quantidade de atletas que sairão direto dos campos de várzea para o alto nível profissional.

Sob este viés, a gestão integrada da base será pré-requisito para que, após os 8 a 10 anos de processo de formação de uma determinada categoria, a quantidade de atletas de alta performance seja satisfatória. Além disso, a comunicação entre todas as comissões técnicas dos clubes deverão ser constantes no que tange a definição dos pontos fortes e fracos de cada atleta e equipe ao longo dos anos, para nortear as decisões estratégicas, técnicas e administrativas da empresa.

O grande diferencial do trabalho de campo diante desta nova perspectiva deve ser o desenvolvimento, por parte de cada clube de base, do Currículo de Formação do Atleta de Futebol. Nele, cada instituição pode definir os perfis dos atletas que pretendem formar e quais serão os conteúdos ensinados para que os diferentes perfis sejam alcançados.

Entretanto, conforme foi citado anteriormente, a profissionalização do futebol brasileiro é gradativa, logo, a gestão integrada da base, que é fundamental para modificações sensíveis nos corpos técnicos de cada clube (com profissionais competentes e capacitados continuamente), ainda é considerada utópica.

Então, se a grande parcela dos gestores não está preparada para o “novo” futebol, qual é o papel de cada profissional inserido (ou que pretende se inserir) no mercado em quaisquer clubes, nas categorias de base, dentre os milhares existentes no Brasil?

O papel de cada um desses profissionais é buscar a elaboração e aplicação de um Currículo do Atleta. Assim como todo curso profissionalizante, graduação, ensino técnico, médio, supletivo, entre outros, existem conteúdos (disciplinas) que cada atleta deve aprender (de maneira circunscrita ao jogo) para se tornar um grande jogador de futebol.

Além da falta de conhecimento técnico da gestão, outros fatores já conhecidos por quem vive o “ambiente do futebol” podem ser apontados como limitantes para a elaboração do referido material. São eles: 

  • Falta de comunicação intra comissão técnica, em que predominam preocupações com os fragmentos do jogo em relação ao “todo” equipe (e jogo);
  • Falta de comunicação inter comissões técnicas, em que o treinador do sub-15 pouco se importa com o que está acontecendo no sub-17, nunca assistiu a um jogo do sub-14 e, talvez, nem saiba o nome do técnico do sub-11;
  • Ausência de um ambiente de discussões e aprendizagem oferecido pelo Clube;
  • Futebol profissional desvinculado das categorias de base, onde os treinadores e dirigentes do Depto. Profissional optam por negociações intermediadas por agentes em detrimento dos atletas formados no Clube.
  • Lacunas nas idades do processo de formação com manutenção somente das categorias com competições oficiais;
  • A pressão por vitórias a qualquer custo como “garantia” de permanência no cargo; 

Neste cenário não muito animador, para muitos, “sobreviver” é o grande objetivo. E, seguramente, a sobrevivência não está garantida. Você pode ganhar todos os jogos e a diretoria, de uma hora para outra, ser modificada e você, demitido. Os patrocinadores que financiavam os custos da categoria de base podem abandonar o clube e você, por conseqüência, perder o emprego. Você pode ser preparador físico do sub-15 e, de repente, receber um convite para integrar a comissão sub-20 que durará somente enquanto houver vitórias. Porém, neste mesmo cenário instável, oportunidades positivas tendem a surgir.

Como, por exemplo, chegar ao clube em que você trabalha um gestor com conhecimento técnico suficiente (acredite que eles já existem!) para saber como um plano coerente de trabalho de formação a médio/longo prazo traz resultados (lucro) e sustentabilidade ao negócio. Este gestor precisará de pessoas que ponham em prática tal plano de trabalho.

Cresce o número de profissionais do futebol que acreditam que a categoria de base é a grande responsável pelo nosso futuro no cenário futebolístico mundial. Você pode trabalhar ao lado de um destes e não ter ciência justamente por fazer somente a sua função de sobrevivência. Um dirigente (quem sabe um dia algum head-hunter) pode procurá-lo para fazer-lhe uma proposta de trabalho por conhecer e acreditar no seu potencial profissional.

Nesta área de atuação, profissionais de destaque do mercado (salvo aqueles que dependem exclusivamente de indicação, amizade ou qualquer outra relação que, lembre-se, faz parte do cenário) devem saber tudo sobre a base, do sub-11 ao sub-20. Devem ter bem definidas quais são as competências necessárias para um jovem, captado do processo de iniciação esportiva e inserido nos processos de transição e especialização, se tornar atleta profissional.

Os primeiros passos são muito simples de serem executados. Uma reunião com sua comissão técnica pode se tornar uma hora de discussão semanal que tem como temática a formação do atleta. Num e-mail para os funcionários da base do clube pode constar um convite para a divulgação da ideia, pois com certeza algumas pessoas têm com o que contribuir. Uma conversa informal com um dos dirigentes do clube pode ser um ótimo momento para demonstrar sua opinião.

Se com estes passos você permanecer sozinho, mesmo assim avance em sua caminhada. Se mais pessoas aderirem à ideia, há um longo trabalho pela frente.

Como início, a definição de todos os conteúdos que um jogador (e equipe) precisa aprender (é bom lembrar que de forma circunscrita ao jogo) para se tornar atleta de alto nível. Marcação zonal, transição ofensiva, relação com a bola, pressing, ultrapassagem, zonas de risco, estratégias, tomada de decisão, lógica do jogo, plataformas, bolas paradas, regras de ação, são simples exemplos para ilustrar a infinidade de conhecimento que, indubitavelmente, precisa ser internalizado.

Após esta trabalhosa, porém, prazerosa definição, diversas reflexões surgirão, dentre elas: 

  • Qual a plataforma de jogo ideal para iniciar um processo de formação?
  • Deve-se sempre utilizá-la durante todas as categorias?
  • O zagueiro do sub-11 fará sempre a função de zagueiro ao longo da formação?
  • Como classificar os diferentes tipos de jogos elaborados?
  • Quando iniciar a aplicação da ultrapassagem?
  • Quando iniciar a aplicação do pressing?
  • Como definir qual linha de referência de marcação utilizar? 

Não bastará definir os conteúdos! Saber distribuí-los em cada categoria, para assegurar que eles se encontram na zona de desenvolvimento proximal dos jogadores de determinada equipe e faixa etária, será fundamental para evitar equívocos.

O que você está esperando? Faça sua parte para que a transformação da base, impulsionada pelas tendências do mercado (Lei Pelé, conhecimento científico, esporte como negócio), beneficie aos clubes, atletas e profissionais do futebol.

Para aqueles que acham que tudo isso é bobagem e que não há o que (re)inventar nas categorias de base no Brasil: cuidado, pois a transformação é inevitável! E, para os que utilizam a famosa expressão “o Futebol é assim”, ele (o futebol) não é! Já as pessoas… 

PS: O Currículo do Paulínia FC, criado mesmo com uma série de limitações (estruturais, administrativas, financeiras, entre outras), tem um ano e meio de existência e será tema de outra coluna.

Written by Eduardo Barros

15 de maio de 2011 at 11:15

UEFA Champions League: o Manchester United conseguirá parar o FC Barcelona?

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O que esperar da equipe inglesa, a melhor defesa da competição, contra a máquina de gols de Guardiola

Esta semana, os holofotes da UEFA Champions League estavam voltados ao clássico Barça x Real. Na outra semifinal, após uma vitória por 2 a 0 fora de casa, Alex Ferguson poupava a maioria dos titulares (para a “decisão” do campeonato inglês) e, ainda assim, assistia seus comandados confirmarem a vaga para a final com uma goleada inquestionável frente ao Schalke 04.

Em quatro temporadas, o Manchester United chega à terceira final da Champions. Na temporada 2007/2008 foi campeão diante do Chelsea, vencendo nos pênaltis por 6 a 5, após empatar em 1 a 1 no tempo normal e prorrogação; na 2008/2009, foi vice-campeão ao perder para o Barcelona por 2 a 0; e no final deste mês, será o momento da revanche em mais um confronto contra a equipe espanhola.

Dos dezoito atletas que participaram da decisão em 2009, quinze podem estar presentes na grande final em que a equipe inglesa terá a difícil missão de parar as ações ofensivas de Xavi-Iniesta-Messi e Cia.

De acordo com os últimos jogos dos Red Devils, o que esperar dos jogadores, da organização coletiva da equipe e do treinador na decisão da UEFA Champions League?

No gol, Van der Sar é presença garantida. Segundo declarações do próprio, realiza sua última temporada como atleta. Foi vencido somente três vezes ao longo de toda competição (no último jogo da fase de grupos contra o Valencia, que terminou 1 a 1, Van der Sar não jogou). Na proteção do alvo, por vezes, parece intransponível. Sempre bem colocado, faz defesas com quedas somente em finalizações muito bem executadas. Participa sempre do jogo ofensivo da equipe inglesa, realizando apoios (fora da linha do alvo), em situações de progressões impedidas e, principalmente, com o placar favorável. Em tiros de meta, sai jogando predominantemente.

Ferdinand-Vidic – provavelmente serão os centrais. A proteção zonal da área de risco, eficiência no 1×1 e também no jogo aéreo, marcam a dupla preferida do coach escocês. Vidic tem sido o capitão e Ferdinand orienta o posicionamento da equipe a todo o momento. São eles quem alternam o ritmo do jogo, acelerando com passes para os volantes ou cadenciando com passes horizontais ou para trás. As opções para substituí-los são Smalling ou Evans.

Evra-Oshea-Fábio-Rafael – Com obrigações ofensivas mais distantes das zonas de risco, destes quatro laterais, Evra, pela esquerda, e Oshea ou Rafael, pela direita, são as opções mais prováveis. Evra está mais “maduro” taticamente e terá oportunidade de se redimir do erro, em 2009, que propiciou a penetração de Eto’o e o 1 a 0 no placar. Com subidas constantes (até a linha 2 aproximadamente) tenta criar superioridade numérica com o meia aberto e o volante do seu lado. Se o meia busca diagonais (vai jogar por dentro), é ele quem dá amplitude à equipe. Na decisão entre Oshea e Rafael, a marcação zonal e a bola aérea (pouco utilizada pelo jogo apoiado do Barcelona) favorece o irlandês, porém, a qualidade do passe é maior do brasileiro.

Carrick e Scholes-Fletcher-Giggs-Anderson-Gibson. Um dos volantes será Carrick. Cabeça erguida, ótimo passe curto e longo (aquele que busca o meia aberto oposto) com as duas pernas, rápida recomposição e muito bom em fechar linhas de passe. Seu companheiro traduzirá as intenções do Manchester para a final. Scholes-Fletcher mais defensivos, Giggs (deslocado para volante por não competir fisicamente com Nani e Park) com menor poder de combate, porém, inteligência para ocupação de espaço defensivo zonal e surgimento “surpresa” como meia aberto, ou então, Anderson-Gibson, mais ofensivos, com jogo vertical e poder de finalização.

Valencia-Park-Nani – Valencia é opção como meia pela direita. Recuperado recentemente de lesão, tem sido presença constante entre os titulares. Velocidade, objetividade e disciplina tática são algumas das características do equatoriano. Tem dificuldade de pensar o jogo ao fazer diagonais a partir das subidas do lateral direito, no entanto, nas inversões dos volantes, é certeza de ação perigosa pela faixa lateral. Park, com aplicação tática semelhante e Nani, a melhor relação com a bola, são as opções para a meia esquerda. Se Valencia iniciar o jogo como suplente, Park pode atuar pelo lado direito, setor em que demonstra melhor ocupação de espaço ofensivo.

Rooney – À frente da linha de quatro do meio campo, é o primeiro atacante da equipe inglesa. Acha “buracos” entre linhas, ocupa espaços nas faixas laterais quando os meio-campistas não estão neste setor, muda o centro do jogo para faixas opostas do campo, combina passes curtos com o outro atacante, meias e volantes e possui ótima finalização. “Gosta de ter a bola” e poderá jogar sozinho no ataque se Alex Ferguson optar por uma estratégia mais defensiva.

Chicharito Hernandez-Berbatov – A função da referência e a de “prender” os centrais para Rooney é a mesma, porém, como a aplicam é bem diferente. O mexicano, com desmarcações constantes, velocidade e diagonais, imprime maior mobilidade ao jogo que Berbatov. Surge livre na pequena área para, após a construção ofensiva, dar o passe (chute) final para o gol. Berbatov é mais habilidoso (e segura mais a posse), tem ótima penetração, é exímio finalizador e bom no jogo aéreo. É, todavia, mais estático. Alex Ferguson terá uma difícil escolha!

Como destaques da organização coletiva defensiva são a compactação, o equilíbrio e a proteção do alvo dos jogadores distantes do centro do jogo.

Nas transições ofensivas, “faz o campo ficar grande” ocupando as faixas laterais. A velocidade em que a bola chega aos meias, depende do placar do jogo.

A organização ofensiva com estruturas fixas tem amplitude e diagonais dos meias, coberturas ofensivas para circulação da posse, passes curtos e inversões dos volantes, a movimentação há pouco descrita de Rooney e a presença na zona de risco de Berbatov ou Chicharito.

Na transição defensiva, em poucos segundos, dois “muros” de quatro jogadores formam-se à frente de Van der Sar. Em alguns jogos, um dos atacantes também recua atrás da linha da bola, fecha linhas de passe para o volante adversário e o combate se é portador da posse de bola.

O jogo de domingo (08/05) pela Premier League é imperdível para quem quiser acompanhar o desempenho coletivo e individual atual do Manchester United. Sir Alex Ferguson terá que se decidir sobre o onze inicial e começar a mostrar o que pretende para a finalíssima da Champions. A plataforma 1-4-4-1-1 predominante será aplicada contra o Chelsea e Barcelona? Ou a variação, esboçada contra o Schalke 04, em um 1-4-1-4-1 para defender, será utilizada?

O comportamento ofensivo com utilização constante do goleiro para manutenção da posse de bola será observado com o jogo empatado? É válido lembrar que uma vitória diante do Chelsea praticamente define o título inglês. O onze inicial terá jogadores com características mais ofensivas ou defensivas?

Certamente estas perguntas já estão sendo respondidas pelo Head Coach e por seu corpo técnico. Após as decisões e com os atletas no campo de jogo, uma certeza: Ferguson, sentado, observará o espetáculo e não abrirá a boca (a não ser para mascar seu chiclete)!

Veja, abaixo, um pouco do Manchester United: 

http://www.youtube.com/watch?v=gvoWcausJCU 

http://www.youtube.com/watch?v=skCJ7y1Q8vI 

Ps: Em referência a coluna de 16/04/2011, pena que não pudemos observar espetáculos das equipes brasileiras na Copa Libertadores da América. Avante, Santos!!!

Written by Eduardo Barros

8 de maio de 2011 at 16:17

A leitura do jogo de Futebol

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Com conhecimento específico e prática, aperfeiçoe o entendimento dos comportamentos de uma equipe em uma Análise de Jogo

Quatro meses do ano de 2011 se passaram e o futebol, como sempre, já proporcionou aos atletas, profissionais, torcedores e mídia esportiva, inúmeras emoções. Nesse período, equipes foram rebaixadas, técnicos demitidos, jogadores afastados, torcedores trocaram agressões e escândalos foram revelados.

É fato que situações positivas também ocorreram, como negociações milionárias, revelações de novos talentos (no campo e fora dele) e acessos conquistados.

Com as fases finais dos estaduais, dos principais campeonatos europeus, confrontos de Copa do Brasil, Libertadores da América e Champions League, as próximas semanas “prometem”. Jogos importantes ocorrerão na disputa do primeiro lugar, tanto no futebol brasileiro, como no mundial.

Equipes que estão em busca do título obviamente tiveram melhor desempenho comparado aos seus adversários. Desempenho que, em cada jogo, de cada equipe, em cada país, é absolutamente mensurável. Conhecê-lo, para todos profissionais envolvidos com o trabalho técnico do futebol, é importante para observação de tendências, compreensão de comportamentos de jogo que podem levar à vitória e para atualização profissional (sobre atletas, equipes e treinadores) em seu mercado de trabalho.

Posto isso, o que considerar e como analisar qualitativamente o desempenho de uma equipe utilizando poucos recursos tecnológicos?

Dos milhares de profissionais do futebol existentes no Brasil, é certo que a grande maioria não dispõe ou não tem acesso a ferramentas sofisticadas de Análise de Jogo. Infraestrutura, softwares modernos (com ótima relação custo x benefício para os Clubes) de análises quantitativas, ilhas de edição de imagens ou então departamentos de dados digitalizados, são realidades de poucos e privilegiados profissionais. No entanto, com conhecimentos específicos, um computador, uma cópia digital simples de um jogo, papel e caneta, a possibilidade de análise de comportamentos de uma equipe é significativa.

O ponto de partida (que para muitos “especialistas” já é o ponto final) compreende a plataforma de jogo utilizada. Observando-a, entende-se em quantas linhas (zagueiros, volantes, meias, atacantes) uma determinada equipe distribui seus jogadores no espaço de jogo e também se ocorrem alterações posicionais entre os momentos do jogo e, até mesmo, ao longo da partida.

O passo seguinte compreende a observação das regras de ação de cada jogador. Analisar as características táticas, técnicas, físicas e emocionais, ofensivas e defensivas, perceber a área de atuação predominante, além de tentar observar a repetição de comportamentos nos diferentes momentos do jogo, evidenciam questões importantes de uma equipe para cada função exercida.

Aliada a uma observação individual, é fundamental o entendimento da organização coletiva da equipe.

Na fase defensiva, é importante compreender como ela age em relação aos princípios operacionais defensivos, analisando setores do campo e atitudes predominantes de recuperação da posse de bola, além dos mecanismos coletivos de impedir progressão e de proteção do alvo. Também defensivamente, é possível perceber em qual linha imaginária do campo (1, 2, 3, 4 ou 5) se inicia a marcação e qual sua forma adotada: zonal, individual, mista, ou então, individual na zona.

Ainda na análise da organização defensiva, é possível identificar a quantidade de jogadores atrás da linha da bola em cada região do campo, a distância entre linhas da equipe, a velocidade da flutuação entre a bola e o alvo, a realização de pressing ou pressões zonais e até a eficiência das coberturas defensivas.

Na transição ofensiva, o comportamento coletivo predominante da equipe pode ser interpretado. Para cada setor do campo em que ocorrer a recuperação pode-se diferenciar a manutenção da bola neste setor, a retirada horizontal, ou então, a retirada vertical da zona de recuperação. Por mais que todas as imagens do jogo não identifiquem a posição exata dos responsáveis pelo balanço ofensivo, a quantidade de jogadores e uma posição aproximada são perfeitamente possíveis de serem identificadas.

Já no momento ofensivo, a tarefa é a interpretação dos comportamentos em relação à posse de bola, progressão e ataque ao alvo, que refletem as aplicações dos princípios operacionais de ataque. Analisar o tipo de ataque predominante (contra-ataque, ataque rápido ou ataque posicionado), e também se ele ocorre com utilização de estruturas fixas, móveis, ou então, sem referências posicionais, é necessário.

Finalizando a organização ofensiva, há a quantificação das linhas de passe abertas para cada jogador, a criação e ocupação de espaços entre linhas do adversário, a análise da amplitude e profundidade empregadas, a quantidade de jogadores à frente da linha da bola, os mecanismos de movimentação capazes de gerar superioridade numérica, além da criatividade no 1×1.

Na transição defensiva, observar se o comportamento da equipe está voltado para a recuperação imediata da posse de bola, ocupação de setores específicos do campo para posterior recuperação, ou então, se alguns jogadores atacam a bola e os demais realizam recomposição. Assim como no balanço ofensivo, que impossibilita análise integral pela filmagem, é permitida uma visão parcial da quantidade de jogadores e forma geométrica do balanço defensivo.

Em uma análise de jogo não pode faltar atenção para as situações de bola parada. Nestas ações (mais “fáceis” de se aproximar do cumprimento da lógica do jogo), ofensivamente podem-se observar: jogadas ensaiadas, batedores oficiais, quantidade de jogadores e distribuição do espaço na grande-área. Defensivamente, as análises permitem enxergar se a referência de marcação é zonal, mista ou individual.

Diante do que foi apresentado, fica claro que sem o conhecimento tático do jogo de futebol, quaisquer análises de jogo (principalmente aquelas que se limitam às questões técnicas e ao resumo dos gols) serão superficiais. Quanto mais jogos você assistir, mais aperfeiçoada ficará sua leitura de jogo. Quanto mais jogos de uma mesma equipe você assistir, maiores as possibilidades de compreensão de seu Modelo de Jogo.

Não se esqueça de considerar a situação na competição, o tipo de confronto, o placar do jogo, o placar do jogo anterior, a expectativa criada pela imprensa, a pressão da torcida, o estado do campo, as condições climáticas, os conflitos entre treinadores, a relação treinador-atleta, entre outros fatores que podem modificar o “jogo da cabeça de cada jogador”.

Muitas equipes do futebol brasileiro já possuem analistas de desempenho. Tal função é primordial em uma comissão técnica, pois é quem registra o cumprimento do Modelo de Jogo pela equipe, além do desempenho e comportamento dos adversários – informações imprescindíveis para o estabelecimento de uma contra-estratégia. É bom saber que cresce o número de analistas voltados às questões tática-estratégica-organizacionais do Jogo.

As próximas semanas “prometem”!

Written by Eduardo Barros

4 de maio de 2011 at 10:54

Entrevista publicada no site Olheiros.net

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Em outra oportunidade, mencionei que eventualmente faria publicações distintas das realizadas no Portal Universidade do Futebol®.

Hoje, postarei uma entrevista feita com o jornalista Lincoln Chaves, para o site olheiros.net, publicada no dia 27/04/2011. Excepcionalmente, a coluna semanal será inserida no blog na próxima quarta-feira.

“O resultado é apenas um componente da formação”

Em 2009, o Paulínia foi uma das surpresas da base paulista, especialmente entre os sub-17, vice-campeões estaduais. No mesmo ano, o sub-15 ficou em quinto no Paulista. No ano anterior, o time já conquistara o sub-17 da Associação Paulista de Futebol (APF), e em 2010, ergueu o primeiro caneco na Federação Paulista de Futebol (FPF) – o da 2ª divisão Sub-20. Além de alcançar o acesso para a Série A3, com a base sub-23 exigida na Segundona. Resultados que colocaram o clube da região de Campinas como uma das potências emergentes do futebol de base em São Paulo.

É do Paulínia que provêm Eduardo Barros, ex-treinador das categorias sub-11 e sub-13 e hoje adjunto no time sub-17. Formado em Educação Física, é pós-graduado em Administração de Empresas, além de também fazer parte do Departamento de Pedagogia do clube, no qual foi um dos responsáveis pela criação do chamado Currículo de Formação do Atleta. Material que, conforme o próprio, “é produzido internamente e baseado em diversos autores e literaturas que apontam para as tendências do ensino do desporto coletivo e nas experiências práticas dos profissionais”.

No começo do ano, Barros escreveu um artigo no site Universidade do Futebol, portal especializado em conteúdos científicos acerca do desporto bretão, intitulado Conquistando resultados nas categorias de base: muito além das vitórias entre as quatro linhas. Nele, abordava a constante discussão acerca da conquista de títulos e a formação de atletas, enumerando, ainda, pontos (“variáveis passíveis de intervenções na base”), que considera determinantes para que o clube atinja “lucro e sustentabilidade” no segmento.

Em conversa com o Olheiros, Barros, que chegou a jogar pela base da Ponte Preta, discutiu a relação base-títulos, mas abordou também o desafio para equipes que lidam quase que especificamente com a formação em “competir” por jovens promessas com os grandes, além das diferenças e necessidades nos trabalhos de treinadores “boleiros” e “acadêmicos” nas categorias de base. E não se furtou a colocar o projeto de formação do Paulínia entre clubes que julga terem os principais trabalhos no Brasil, como Santos, Grêmio, Internacional, São Paulo e Atlético-MG.

Olheiros – No seu texto publicado no Universidade do Futebol, você se coloca como um dos questionadores à uma mentalidade frequente em muitos clubes na base, sobre o ganhar acima do revelar. O que incentiva a manutenção deste pensamento, tanto por parte dos profissionais como de dirigentes?

Eduardo Barros – A origem deste pensamento, em minha opinião, deve-se ao fato dos gestores dos clubes pensarem que um bom trabalho está sendo realizado exclusivamente se as vitórias e títulos acontecerem. Compreendo essa visão no futebol profissional, onde a formação do atleta já aconteceu e a máxima performance da equipe deve ser atingida a todo instante, mas não nas categorias de base, onde o imediatismo da análise dos resultados de campo é somente uma variável das diversas possíveis de serem observadas em atletas inseridos em um processo de formação. Quanto à manutenção deste pensamento a resposta é simples: as vitórias e títulos, mesmo que a qualquer custo, são umas das poucas garantias de emprego da grande maioria dos profissionais de base do futebol brasileiro.

Olheiros – Qual o real peso do título dentro de uma avaliação do rendimento de determinada categoria de base?

Eduardo Barros – Quanto mais velha a categoria, maior o peso do título conquistado. É inegável que o título aumenta a visibilidade dos atletas e agrega valor aos mesmos. No entanto, para mensurar o real peso da conquista nas categorias menores, deve-se considerar quantos atletas da equipe campeã tem perfil de negociação ou então de promoção à categoria profissional em médio prazo. Se o número encontrado for suficiente para o clube, o peso real do título é significativo. Já nas categorias maiores, os títulos devem estar aliados a promoções imediatas ao profissional, com o intuito de divulgação do produto “prata da casa”, ou então, a negociações em curto prazo, visando o retorno financeiro do investimento realizado nessa categoria ao longo dos anos.

Olheiros – Mas mesmo o trabalho focado principalmente na formação pode, naturalmente, acabar revertendo títulos.

Eduardo Barros – Sem dúvida! Acredito que um processo de formação adequado, que leva todos os atletas de uma determinada categoria a picos de desempenho tático, técnico, físico e emocional, consequentemente é traduzido em títulos.

Olheiros – Quais as dificuldades que uma equipe como Paulínia, ou times como Olé Brasil, Primeira Camisa, etc., encontram para captar e manter os atletas de destaque, ante “rivais” como São Paulo, Santos, Grêmio ou Inter?

Eduardo Barros – A maior dificuldade que vejo, e vem diminuindo com o respeito que estamos adquirindo na categoria de base, refere-se a “luta desleal” de valor simbólico. Muitos atletas com potencial que chegam ao clube, com 10, 11, 12 ou 13 anos, já passaram por seletivas, peneiras ou até fizeram parte do elenco de grandes clubes do futebol paulista, ou então, saíram do Paulínia mediante convites de agentes ou clubes de maior expressão. Mas o que tenho observado com certa frequência, é o retorno de atletas e pais que, após o insucesso nos clubes grandes, tentam reingressar no Paulínia. E outra dificuldade são as limitações financeiras que impedem que o clube ofereça tudo o que gostaria aos seus atletas, como ajuda de custo, chuteiras, suplementação para todos atletas e jantar pós-treino.

Olheiros – Desta forma, o que hoje se mostra como crucial pra que um clube como esses possa se mostrar como uma boa opção ao garoto, e ele, ou seus pais, possam optar em ir ao Paulínia, e não ao, por exemplo, São Paulo?

Eduardo Barros – Na minha visão, a análise inicial deve ser em relação a contra qual clube será a “luta”. Alguns deles, tradicionalmente, não revelam jogadores. Esta é a primeira informação a ser passada aos pais do atleta e ao próprio garoto que despertou interesse ou foi aliciado por um clube grande. Se o clube, tradicionalmente, ou então, ultimamente, tem revelado jogadores, ainda temos algumas questões para passarmos à família. A primeira, em relação ao nosso trabalho de campo, que difere da grande maioria dos clubes brasileiros. A segunda, relacionada à concorrência que o atleta terá no clube em questão e a facilidade de ser dispensado e/ou trocado por outro.

Olheiros – E faz diferença? Mesmo mostrando que, historicamente, por exemplo, um Palmeiras não é um formador tradicional, há uma boa probabilidade, por exemplos que vocês já tenham vivenciado, da família optar pelo clube “menor” em detrimento ao “maior”?

Eduardo Barros – Recentemente, como você mesmo mencionou, obtivemos o vice-campeonato Paulista Sub-17. Dois atletas receberam convite do Wagner Ribeiro, com a promessa de negociação para o Palmeiras e outros dois para outros clubes do Brasil. A diretoria do Paulínia alertou pais e atletas dos que foram aliciados pelo Wagner Ribeiro, porém, não deu certo. A negociação (por empréstimo) ocorreu. Um dos atletas foi vice-artilheiro do Paulista Sub-17 daquele ano, se não me engano com 18 gols. No Palmeiras, em um ano, ele pouco jogou e não foi convocado nem para a Copa São Paulo deste ano. Dois atletas de destaque daquela equipe Juvenil permaneceram no clube e mesmo com alguns convites, foram peças fundamentais no acesso à série A3 e hoje estão nas equipes sub-23 de Botafogo e Fluminense, com negociações diretas com o clube e não via Wagner Ribeiro. Mas é bom lembrar que nesses casos, a maioria dos atletas está profissionalizada. Então o clube está, de certa forma, “blindado”. Para atletas abaixo de 16 anos, que temos que manter o contato com os pais, é mostrar a importância da família para a formação integral do indivíduo e, que, em médio prazo (no momento adequado) o clube irá negociar o atleta.

Olheiros – Identificado, então, contra quem se “luta” e dialogado com a família, o que mais pesa? Já há uma espécie de “consenso” no tocante à estrutura ideal, alguma que não fique atrás do que oferecem os grandes? Ou isso não pesa tanto nessa “luta”?

Eduardo Barros – A estrutura dos clubes pesa significativamente nas escolhas dos pais e atletas. O difícil é convencer os pais que treinar num campo lindo, com um uniforme impecável, fazendo todas as refeições no clube e ter uma ajuda de custo não significam boa formação. Muito mais do que estrutura física, os clubes precisam de capacitação profissional. É neste ponto que estamos à frente.

Olheiros – Observa-se cada vez que os treinadores da base contam com diferentes perfis. Há profissionais mais acadêmicos e outros que são ex-jogadores e apostam na experiência de campo e em seus olhares para o trabalho. Qual desses é o treinador “ideal”? Depende da categoria? Ou a mescla de ambos é importante?

Eduardo Barros – Eu diria que experiência acadêmica e a vivência prática são apenas duas das inúmeras competências que o treinador “ideal” deve desenvolver. Para aquele que não jogou, estágios, perguntas, networking, visitas à clubes, análise de muitos jogos e entrevista com jogadores, podem lhe capacitar em relação à falta de vivência prática. Para aquele que só jogou, entender que o futebol moderno está muito dinâmico, sistêmico e que a capacitação teórica é fundamental para sustentar a sua prática pode torná-lo um treinador mais completo. Independentemente da categoria, as competências do treinador “ideal” não se modificarão, porém, uma ressalva: quanto mais velha a categoria, maior a pressão exercida sob o treinador.

Olheiros – O interior paulista sempre foi um enorme celeiro de craques, mas o cenário hoje é diferente, com a ascensão de clubes como Paulínia, Desportivo Brasil, Olé Brasil ou Primeira Camisa, e derrocada de antigos potenciais formadores, como Rio Branco, XV de Piracicaba e Inter de Limeira, por exemplo. O que explica isso?

Eduardo Barros – Penso que clubes como Rio Branco, XV de Piracicaba e Inter de Limeira, não acompanharam a transição do futebol-empresa, em que, após o final do ano as contas devem fechar com saldo positivo, ou então, a tendência é a falência. O formato das categorias de base da grande maioria dos clubes que estão em derrocada é falho. Muitas agremiações iniciam seus trabalhos de formação somente a partir do sub-15 e na captação dos atletas para a composição da equipe ocorrem problemas. Um deles é a captação de atletas de “segunda linha”, afinal, com essa idade, atletas potenciais já foram captados por grandes clubes do futebol brasileiro. Outro é o excesso de atletas alojados, o que eleva consideravelmente o custo operacional da categoria. Há também o desconhecimento ou a inexistência de trabalho desenvolvido em escolinhas da cidade, que, em médio prazo, poderia compor equipes-base em anos posteriores. Isso, somado às trocas constantes de dirigentes e comissões técnicas, departamentos de base muitas vezes desvinculados do futebol profissional e interesses individuais diversos, sobrepondo os interesses da instituição, explicam a decadência de clubes tradicionais no cenário atual do mercado futebolístico.

Olheiros – Na sua visão, quem hoje tem o melhor trabalho de base do Brasil?

Eduardo Barros – Para responder essa pergunta eu teria que ter conhecimento de informações financeiras de todos os clubes que possuem categorias de base no país. Se, num período de 10 anos (tempo suficiente para formar e revelar atletas do sub-11 ao Profissional), o retorno financeiro obtido de atletas oriundos das categorias de base for significativamente superior ao custo operacional, o trabalho de base foi bem desenvolvido. Contudo, com as informações que tenho atualmente, adquiridas com leituras, viagens, contatos, confrontos diretos, mídias, entre outras experiências, e considerando questões técnicas, profissionais ou de infraestrutura, aponto mais de uma equipe. Dentre elas, o São Paulo, que tem Cotia, uma boa gestão da base e (Paulo César) Carpegiani disposto a lançar atletas novos. O Santos, que chegou nas finais em quase todas categorias no ano passado no Estado e há anos revela talentos. O Internacional, pelo título do Brasileiro Sub-23, o sucesso na Copa Nike 2010, entre outras conquistas que as levaram ao topo do Ranking Olheiros. O Grêmio, que tem profissionais de destaque no mercado. O Atlético-MG, que conta com uma infraestrutura invejável. Também o Pão de Açúcar, que possui uma boa gestão e um ótimo trabalho de formação. E acho que não posso deixar de incluir o Paulínia, que mesmo sem alojamento, forma equipes competitivas em todas as competições que disputa.

Written by Eduardo Barros

1 de maio de 2011 at 13:13