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Archive for agosto 2011

O que deve ser aperfeiçoado para evolução do jogar da seleção brasileira sub-20?

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De acordo com comportamentos apresentados no Mundial, confira algumas reflexões táticas da equipe comandada por Ney Franco

A seleção brasileira de futebol sub-20 conquistou o pentacampeonato mundial da categoria vencendo a equipe de Portugal, na prorrogação, por 3 a 2. Mesmo com as ausências de Lucas e Neymar, que serviram a equipe principal na Copa América, os atletas comandados pelo técnico Ney Franco fizeram uma excelente campanha com 5 vitórias, 2 empates, 18 gols marcados e 5 sofridos nos sete jogos que disputaram.

Diferentemente do ocorrido na Copa América, as críticas que foram amplamente distribuídas pela mídia ao treinador Mano Menezes, foram poupadas ao Ney Franco (e, consequentemente, a sua comissão técnica), devido à conquista do primeiro lugar. Porém, se quando se perde não significa que exatamente tudo está equivocado, quando se ganha, não significa que tudo está perfeito. Após as merecidas comemorações, é momento de reflexões do que precisa ser aperfeiçoado, ajustado, mantido e, até mesmo, modificado. Reflexões necessárias para que o potencial de supremacia da seleção brasileira seja confirmado não só como foi no Mundial, mas também, no Panamericano que acontecerá em outubro, nos Jogos Olímpicos de Londres no ano que vem e afim de que em cada competição que as categorias inferiores estejam envolvidas, comecem a ser observados os jogadores que, futuramente, poderão integrar a equipe principal (como já aconteceu com Danilo).

Individualmente, a seleção brasileira contou com peças-chave em diferentes jogos, tanto em ações defensivas como em ofensivas. O goleiro Gabriel falhou (e não foi sozinho) em um único lance frente à equipe portuguesa. Nos demais jogos, mostrou-se muito eficaz na ação de proteção do alvo e praticamente imbatível no 1×1. Bruno Uvini foi muito seguro na manutenção do posicionamento zonal, nas coberturas defensivas e combates, além de ter sido a grande referência de liderança da equipe. Casemiro, de volante pelo lado direito, zagueiro da sobra ou central, poupou diversas substituições de Ney Franco para posições mais defensivas de modo que Dudu e Negueba pudessem entrar em todos os jogos.

Oscar, desta vez utilizado em setores do campo em que melhor pensa o jogo (se você ler o artigo sobre o Modelo de Jogo da seleção brasileira no sul-americano sub-20, poderá observar que algumas regras de ação de Oscar eram de atacante, o que lhe custou a titularidade), fechava muito bem linhas de passe, posicionava-se rapidamente atrás da linha da bola na ação defensiva e tinha a componente tomada de decisão-ação para o passe acima da média. Um belo organizador.

Henrique, com finalizações de média distância, linhas de passe abertas na zona de risco ou ataque à bola, mostrou recursos ofensivos suficientes para a premiação de bola de ouro do Mundial. Defensivamente, pressionou alto, retardou, recompôs e nas transições atacou a bola como poucos no Brasil geralmente fazem.

Dudu-Negueba precisam evoluir tática, defensiva e coletivamente, porém, com a bola nos pés, a imprevisibilidade da ação ofensiva aumenta exponencialmente. Desconcertam, driblam, fintam, cruzam e, o primeiro ainda faz gols.

Coletivamente, a plataforma de jogo mais utilizada foi a 1-4-3-1-2 que, no segundo tempo, variava preferencialmente para a 1-4-3-3. A 1-3-4-3 contra a Espanha e 1-3-5-2 contra o México, também foram observadas. As variações estruturais do sistema aconteciam visando um melhor aproveitamento das características de Dudu e Negueba que têm melhores desempenhos pelas faixas laterais. Para utilizar três zagueiros, a solução encontrada por Ney Franco era recuar Casemiro entre Juan e Bruno Uvini.

Resumidamente, na fase defensiva, a organização zonal era melhor executada na plataforma que a equipe utilizava no primeiro tempo. Com bom equilíbrio defensivo, boa compactação, retardamento e flutuação, a superioridade numérica e a cobertura defensiva eram constantes. Na transição ofensiva, a ação vertical era a mais procurada. Na fase ofensiva, as ultrapassagens dos laterais eram constantes; com dois atacantes, um recuava entre linhas adversárias para procurar tabelas, pivô e finalizações; Philippe Coutinho buscava diagonais para as faixas laterais e Oscar procurava a melhor linha de passe. Já com três atacantes, a amplitude gerada tendia a abrir a linha defensiva dos adversários e a bola nas faixas implicava em jogada individual para cruzamentos. Nas transições defensivas, ocorria principalmente a tentativa de recuperação imediata da posse com devida recomposição dos demais jogadores.

As breves linhas apresentadas até aqui indicam muitos comportamentos que foram eficazes ao longo do mundial, no entanto, algumas ações individuais e coletivas necessitarão aperfeiçoamentos para evolução do jogar da seleção brasileira.

Como, por exemplo, as reposições de bola do goleiro Gabriel que, por muitas vezes resultaram em perda da posse e que remetem a um comportamento coletivo que não está bem internalizado. As falhas de posicionamento da dupla William e Henrique, onde o primeiro apresentava dificuldade de movimentação entre linhas quando Henrique buscava profundidade na zona de risco. A maior circulação da posse no campo ofensivo para desorganizar as organizações defensivas adversárias e a amplitude de Danilo que diminuía o campo efetivo de jogo em setores muito distantes do alvo. Sobre as transições defensivas, executá-las em maior velocidade poderá dificultar as transições ofensivas de seleções de qualidade. Em relação à organização defensiva, um melhor equilíbrio quando em três zagueiros, um melhor posicionamento de Juan, que tende a esquecer de proteger o alvo, sai para combates desnecessários nas faixas laterais e expõe significativamente seu setor, além de maior participação de Philippe Coutinho fechando as linhas de passe e limitando o tempo de ação dos jogadores próximos ao seu setor. Uma observação sobre Casemiro: resolveu o problema da seleção sub-20 como zagueiro, mas dificilmente exercerá esta função na seleção principal. Para finalizar, nas transições ofensivas, melhorar o passe vertical, especialmente de Fernando e Juan.

Gostaria de postar vídeos, como geralmente faço, para identificar os comportamentos da seleção brasileira, acertos e erros acima descritos, porém, nesta semana, o tempo que tenho para produzir a coluna ficou ainda mais reduzido devido a uma viagem a Porto Alegre para participar do II Seminário de Futebol – Construindo os alicerces da formação nas categorias de base. Esta semana, o tempo que levo para editar os vídeos será dedicado para o meu aperfeiçoamento profissional.

Aguardem que compartilharei o conhecimento. Abraços e até a próxima semana!

Written by Eduardo Barros

28 de agosto de 2011 at 16:49

O Currículo de Formação do Atleta de Futebol – Parte IV

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Apresentação de alguns sub-temas dá sequência à discussão de material aplicado em clube formador do futebol paulista

Na parte II do Currículo de Formação do Atleta, foi possível observar os oito grandes conteúdos que compõem o material. Naquela oportunidade, foram identificados os temas que derivam de cada conteúdo e sinalizado que em outro momento seriam apresentados os sub-temas.

Nem todos os temas se dividem em sub-temas. Por exemplo, o conteúdo Lógica do Jogo, que se subdivide nos temas aplicação e abordagem da Lógica do Jogo formal, já se encerra neste desdobramento. Deste modo, alguns conteúdos e temas não serão identificados no presente texto.

O tema Relação com a Bola, derivado do conteúdo Competências Essenciais, subdivide-se em: 

  • Vivência de todos os fundamentos técnicos do futebol;
  • Utilização de membro não dominante;
  • Descentrar-se da bola ofensivamente;
  • Descentrar-se da bola defensivamente. 

Para o tema Estruturação do Espaço, que também é derivado do mesmo conteúdo, os sub-temas são os seguintes: 

  • Estruturação racional do espaço em diferentes tamanhos de campo (⅛, ¼,½, campo todo etc);
  • Estruturação do espaço ofensivo;
  • Estruturação do espaço defensivo;
  • Estruturação de acordo com Referências do Jogo (alvo, bola, adversário, companheiro e região). 

Já o tema Comunicação na Ação, último que deriva das Competências Essenciais, compreende os sub-temas: 

  • Tomada de decisão;
  • Antecipação da ação;
  • Na ação ofensiva, todos participam;
  • Na ação defensiva, todos participam;
  • Nas transições, todos participam. 

O próximo tema se refere às Plataformas de Jogo, que compõem o Conteúdo Referências do Jogo de Futebol. Os sub-temas das Plataformas são: 

  • As plataformas de jogo básicas (1-4-4-2 – quadrado; 1-3-5-2 e 1-4-3-3);
  • Variações das plataformas de jogo;
  • Utilização da plataforma de jogo em Jogos Conceituais e Conceituais em Ambiente específico. 

Do tema seguinte, denominado Referências Operacionais, desdobram-se os sub-temas: 

  • Referências Operacionais de Ataque – manutenção da posse de bola, progressão ao alvo e ataque ao alvo;
  • Referencias Operacionais de Defesa – proteção do alvo, impedir progressão ao alvo e recuperação da posse de bola;
  • Referências Operacionais de Transição Ofensiva – manutenção da posse na zona de recuperação, retirada horizontal da zona de recuperação e retirada vertical da zona de recuperação;
  • Referências Operacionais de Transição Defensiva – recuperação imediata da posse de bola e recuperação a partir de outras referências do jogo. 

O terceiro e penúltimo tema deste conteúdo são as Referências Espaciais que se subdividem em: 

  • As linhas do campo – Linhas 1,2,3,4 e 5;
  • As faixas do campo – laterais e central;
  • As zonas de risco – altíssimo, alto, médio e baixo risco. 

E, o último tema, classificado como Referências Atitudinais, apresenta os sub-temas abaixo: 

  • Referências Atitudinais a partir do adversário;
  • Referências Atitudinais a partir da própria equipe. 

Dentro de poucas semanas, será dada continuidade na apresentação dos sub-temas restantes, derivados do conteúdo Estratégico-Tático do Jogo. A separação foi feita devido à extensão de cada um deles e à reflexão que se pretende dos sub-temas já apresentados.

Em relação às reflexões, comece a perceber as inter-relações existentes entre cada grande conteúdo e as implicações que as mesmas geram em sua sessão de treinamento.

Exemplificando, pensar um jogo que estimule a Referência Operacional Ofensiva de manutenção da posse de bola significa que algumas habilidades da equipe oriundas de outros conteúdos serão necessárias para que a esperada posse aconteça. Dentre as habilidades esperadas, pode-se mencionar uma boa Relação com a Bola no fundamento passe, uma eficaz descentralização ofensiva, uma boa estruturação de espaço ofensivo no tamanho do campo em questão (posicionar bem em 40m x 20m não significa posicionar bem em 100m x 70m) e até nas regras de ação a serem executadas de acordo com a função exercida na plataforma de jogo utilizada.

Outra reflexão se refere a determinados sub-temas que nunca serão o único macro-objetivo de uma atividade. Por exemplo, não se criará um jogo em que a única preocupação será com o sub-tema tomada de decisão.

Sabemos que decisões são tomadas a todo o momento (acertadas ou não), por todos os jogadores, em cada um dos quatro Momentos do Jogo e em cada emergência que ocorre no Jogo. Melhorar a tomada de decisão só ganha significado se alinhada ao aperfeiçoamento de novos comportamentos da equipe em relação a habilidades como: setores de recuperação da posse de bola, ação técnica e operacional principal de transição ofensiva ou quaisquer outros conteúdos e suas derivações que se pretenda trabalhar.

E, para o que se pretende trabalhar, o seguinte questionamento é fundamental:

Em que nível sua equipe se encontra e qual nível se espera alcançar?

Esteja seguro que ter a resposta mais assertiva possível para este questionamento e dominar o modo mais eficaz de evoluir o jogar de uma equipe te aproximará (mas não te garantirá) das vitórias, afinal, o desempenho no futebol é multifatorial.

Já começou as reflexões? Para aperfeiçoar a Relação com a Bola da equipe no fundamento cabeceio defensivo, de quais habilidades ela precisa?

A corrente “futebolística” do bem

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Um filme, uma atitude e as implicações no futebol brasileiro

Quarta-feira, 10/08/2011, 19h00m e assunto da coluna semanal definido. Porém, antes de redigi-la, uma rápida leitura sobre os acontecimentos esportivos do dia (especialmente futebolísticos) para acompanhar o mercado faz com que o tema pensado para esta semana continue arquivado. Com a derrota da seleção brasileira por 3 a 2, fora de casa, para a Alemanha e as duras (e injustas) críticas feitas pela imprensa nacional ao treinador Mano Menezes, algum texto deveria ser publicado com o intuito de poupá-lo e propor uma discussão mais abrangente além das pressões, desconfianças e questionamentos da competência exercidos sobre o treinador.

Como somente um texto é insignificante para combater as já conhecidas análises imediatistas, que se reproduzem exponencialmente e que se baseiam somente em resultados, será proposto um desafio a você, leitor, inspirado no filme dirigido por Mimi Leder, denominado A Corrente do Bem (2000).

Neste filme, indispensável para quem quer aprender sobre a vida, quer dizer, sobre o futebol, Trevor é um menino cursando a sétima série, que tem como trabalho escolar na disciplina de Estudos Sociais a tarefa de pensar uma maneira de transformar o mundo e tentar colocá-la em prática.

A ideia do jovem, que inclusive intitula o filme, tem três premissas: fazer algo por alguém em que este não pode fazer por si mesmo, fazer isso para três pessoas e solicitar que a pessoa ajudada faça o mesmo para outras três. Como objetivo final, com a aceitação e participação das pessoas, as boas atitudes evoluirão em progressão geométrica. Idealismo, é claro!

Transferindo para o desafio em questão, a missão de cada um é, em sua próxima discussão sobre futebol em que o trabalho de Mano Menezes seja posto em cheque, argumentar a favor do projeto comandado pelo treinador visando a Copa de 2014.

Bons argumentos não faltam para contrapor àqueles que já afirmam que um ano de trabalho e 13 jogos (6 vitórias, 4 empates e 3 derrotas) é tempo suficiente para a seleção convencer: 

  • Robinho e Ganso, sozinhos, não conseguem trazer as vitórias ao Brasil, assim como Messi, o melhor jogador do mundo, não foi suficiente para levar a Argentina ao título. Não entrem em detalhes, mas sabemos que o todo é maior do que a soma das partes;
  • Se existe um período em que o Mano deve observar outros jogadores na seleção brasileira (conduta, comportamento em equipe, performance de campo), este período é agora e não quando faltar um ano para o início da Copa do Mundo, onde os ajustes nos elementos da equipe deverão ser mínimos;
  • O Modelo de Jogo apresentado no mundial 2010 agradou a pouquíssimos brasileiros. Está claro que Mano Menezes pretende aplicar um jogar com a cara do Brasil, mas, que acompanhe as evoluções do futebol moderno. Para isso, tempo, que ele ainda não teve, é fundamental.
  • Exemplos recentes, como a Espanha e o Uruguai, no profissional e na base, têm mostrado que a solidificação e sustentabilidade de um projeto somente serão estabelecidas se os resultados estiverem planejados, pelo menos, para o médio prazo;
  • Se as cobranças, desconfianças e pressões permitirem, o trabalho de base da seleção brasileira terá continuidade e poderá proporcionar à nação, o espetáculo que ela espera ver, aperfeiçoado em anos de formação com a camisa amarela.
  • E, para encerrar os argumentos, qual treinador está preparado para substituir Mano Menezes e aplicar, imediatamente, um belo futebol, recheado de vitórias e com grande probabilidade de conquista do hexa em 2014? Peça para justificar a resposta! 

Assim como no filme, não espere convencer a todos; no entanto, não deixe de fazer a sua parte, pois lembre-se que eles não podem fazer por si mesmos. Se três pessoas com as quais você conversa sobre futebol mudarem o discurso e essas três pessoas conseguirem, cada uma, mudar o discurso de outras três e assim sucessivamente, logo será observada uma progressão geométrica a favor do projeto de renovação da seleção brasileira.

Se for considerada a visibilidade do portal Universidade do Futebol e o público-alvo, a possibilidade da mencionada progressão chegar ao conhecimento dos formadores de opiniões, ou seja, da mídia, é grande.

E, se por ventura, algum dia, a opinião dos formadores de opinião se modificar, as consequências positivas ao futebol brasileiro serão significativas, porque o discurso comum do resultado imediato, da vitória a qualquer custo, dos gastos exorbitantes, da valorização individual, das matérias sensacionalistas e da troca de treinadores como solução dos problemas de gestão será substituído.

E entrará em campo o discurso do resultado planejado, com gastos condizentes às realidades de cada clube, da valorização do coletivo, das matérias com críticas construtivas e da permanência e projeção de bons treinadores como produtos de uma boa gestão.

Aproveite a corrente “futebolística” do bem e a progressão geométrica por ela proporcionada para ajudar as pessoas quanto às tendências de ensino do futebol e a metodologia de treinamento. Assim como a atitude iniciada por Trevor se espalhou por diferentes lugares dos EUA, a iniciada por você pode alcançar diferentes lugares e pessoas em todo o Brasil.

Idealismo, é claro!

Ps: Quarta-feira, 10/08/2011, 22h45m. Em nota publicada no site da entidade esportiva brasileira (às 19h38m), Ricardo Teixeira afirma: “O trabalho segue com toda a confiança da CBF.”

Ufa…

 

Written by Eduardo Barros

12 de agosto de 2011 at 23:47

Você vai montar o seu treino? Não esqueça (e cuidado com) o princípio das propensões!

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A aplicação deste princípio metodológico e as regras dos jogos nas sessões de treinamento

Pensar a semana de treinamento é tarefa das mais trabalhosas. Das situações hipotéticas para os pós-graduandos da disciplina que ministro às conversas com o treinador com o qual trabalho, as discussões, reflexões, questionamentos e definições de atividades duram, pelo menos, uma hora.

Na situação hipotética, não existe a transferência real para a prática, porém, nas discussões com meu companheiro de trabalho atual (e nas centenas de reuniões de planejamento já realizadas com outros profissionais), diversos pontos são considerados, pois interferem diretamente no jogo seguinte.

O desempenho da equipe na última partida, o nível de aplicação do Modelo de Jogo, o Modelo que se pretende, o desempenho individual, as “baixas”, problemas extra-campo e o próximo adversário, são algumas das questões que norteiam a discussão da próxima semana de treinamento.

Na definição das atividades, o aprendizado teórico-prático adquirido ao longo dos anos é o que fundamenta as opiniões emitidas durante a reunião. O aprendizado teórico, obtido em leituras sobre complexidade, teoria dos jogos, ensino dos JDC, treinamento desportivo, treinamento em futebol, periodização tática, entre outros assuntos (a partir de livros, teses, monografias, artigos, vídeos e até ouvidas em arquivos de áudio conseguidos com um companheiro de profissão), complementa a longa vivência prática como atleta e a ainda curta, mas relevante, experiência como treinador/treinador adjunto.

E, de toda corrente teórica que baliza as opiniões para a discussão de um dia da sessão de treinamento, a coluna desta semana destacará um dos princípios metodológicos da Periodização Tática e sua importância na elaboração de um determinado jogo.

O pressuposto metodológico em questão se refere ao Princípio das Propensões. De acordo com ele, numa determinada atividade de aquisição de princípios, sub-princípios ou sub-princípios dos sub-princípios de jogo, a densidade do que se pretende treinar precisa acontecer em um valor significativo de modo que determinados comportamentos esperados para aplicação do Modelo de Jogo tornem-se hábitos.

Em uma análise rápida do princípio e do seu significado, uma maneira de tornar propensa a finalização em um determinado exercício é elevar a quantidade de alvos. Outro exemplo, agora para tornar propenso o fechamento de linhas de passe, é criar um exercício de troca de passes em que uma equipe em inferioridade numérica a impede. E, para aperfeiçoar a circulação da posse com ampliação de campo efetivo de jogo, um 11×0, respeitando a distribuição espacial da plataforma de jogo, pode ser uma opção.

Posto isso, eis o embate: nem todo exercício criado de acordo com o que preconiza a Periodização Tática é jogo e nem todo jogo, criado por quem o utiliza como método, fundamenta-se no Princípio das Propensões.

O resultado: treinamentos distantes do Jogo que se quer jogar!

Para adeptos da Periodização Tática, alguns exercícios tem coerente relação com o Modelo de Jogo, mas significativa distância do próprio Jogo, ou seja, do futebol. Na elaboração da atividade, elementos básicos que deveriam caracterizá-la como jogo são ignorados. Logo, na repetição sistemática de determinado princípio, sub-princípio ou sub-princípio do sub-princípio do Modelo de Jogo Adotado, é comum a observação de atividades que, na prática, não são desafiadoras, não geram desequilíbrios, não permitem a representação e, acima de tudo, não são imprevisíveis. Este é um grande problema para quem objetiva a especificidade e que precisa proporcionar o “estado de jogo”, já abordado semanas atrás.

Porém, para quem já utiliza o jogo enquanto método de treinamento o problema é outro. É comum que na definição das regras do jogo se esqueça o Princípio das Propensões e sua relevância na evolução do jogar da equipe. Como consequência, a definição de regras que criam uma Lógica do Jogo não condizente com os comportamentos que se pretende treinar. Exemplificando, ao criar um jogo para aperfeiçoar a organização defensiva da equipe no que tange a flutuação, a simples regra “2 toques na bola no campo de ataque”, não irá favorecê-la. Dar um ponto a equipe se ela estiver “flutuando bem”, é igualmente equivocado. Onde estão as regras do jogo que definirão se, de fato, a equipe está flutuando bem?

Para otimizar o desempenho de sua equipe, é indispensável que uma sessão de treinamento seja a todo momento, para todos os jogadores, a resposta tática-técnica-física-emocional para os problemas que você criou. Os problemas criados têm que ser Jogo e o jogo tenderá ser vencido por quem melhor cumprir suas regras.

São estas regras que devem orientar a equipe para o cumprimento da Lógica do Jogo. E, além disso, devem obrigatoriamente, considerar o Princípio das Propensões para que a densidade de problemas que surjam no jogo evidencie a necessidade das respostas coletivas adequadas para vencê-lo.

Sendo assim, é possível tornar propensos: a finalização sem necessariamente aumentar o número de alvos (e assim não se distanciar da Lógica do Jogo de futebol), o fechamento de linhas de passe sem reduzir o número de defensores e a ampliação do campo efetivo num jogo de 11×11.

Pensar a semana de treino é tarefa das mais trabalhosas. Mãos à obra!