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Archive for novembro 2011

Por que ele vai subir de categoria?

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Decisão de final de ano deve ser feita com base em potencial de valor agregado e necessita análise individual completa

Há cerca de um ano, em uma de minhas primeiras publicações na Universidade do Futebol, escrevi sobre resultado nas categorias de base. Com uma série de questionamentos a dirigentes e membros da comissão técnica, o objetivo do artigo era mostrar que uma infinidade de variáveis, além das vitórias dentro das quatro linhas, deveriam ser analisadas para que, de fato, os verdadeiros resultados fossem mensurados.

Um dos questionamentos feitos segue descrito abaixo:

“Existe um relatório individual de desempenho (banco de dados), que acompanha a performance (tática, técnica, física e emocional) de cada atleta ao longo dos anos?”

Como o recesso das categorias de base do futebol brasileiro ocorrerá nos próximos dias, com exceção dos juvenis que terão oportunidade de jogar a Copa São Paulo de Futebol Jr., o momento é extremamente pertinente para a aplicação, ou então, criação do referido relatório.

É sabido que grandes equipes têm a possibilidade de conquistar campeonatos, porém, tais campeonatos não necessariamente significam retorno financeiro (principalmente nas categorias de base), que se dá predominantemente a partir da negociação de um jogador.

Logo, cada jogador, ou melhor, produto, deve ser analisado quantitativa e qualitativamente de modo a ser definido o seu potencial de valor agregado (para futura negociação) até a conclusão do processo de formação.

Definir o potencial de valor agregado é estimar quais serão as características deste jogador que o diferenciará de seus concorrentes (que são muitos), para que tenha maior atratividade comercial.

Posto isso, como analisar um atleta quantitativa e qualitativamente ao longo de um ano?

As informações acerca de determinado jogador que possibilitam a composição de um relatório não são difíceis de serem conseguidas e não precisam de ferramentas inacessíveis para a grande maioria dos clubes de futebol brasileiros, como por exemplo, softwares de gestão integrada. Com boa comunicação interna e recursos básicos do Office é possível estabelecer um banco de dados eficiente para o clube.

Para os dirigentes da base, ter o registro do desempenho obtido e do potencial que pode ser atingido por cada jogador permite um posicionamento coerente perante aos gestores e investidores do clube em relação ao investimento que está sendo feito em cada categoria.

Para os treinadores, ter em mãos um relatório completo dos seus novos atletas no início do ano poupa-lhes tempo ao proporcionar informações importantes como perfil disciplinar, versatilidade e/ou especialidade, liderança, qualidade técnica, etc.

Como informações quantitativas gerais encontram-se o ano de ingresso no clube, a frequencia anual de treinamento, a quantidade de jogos disputados, o tempo total jogado, os cartões recebidos, os gols feitos, as assistências, além das informações de crescimento e desenvolvimento como altura, peso e desempenho nas avaliações físicas.

Já como informações qualitativas, é possível estabelecer o desempenho comparativo do atleta em relação a sua própria categoria, uma análise das competências essenciais do jogo (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação), e uma análise subjetiva (feita pela comissão técnica) tática-técnica-física-emocional de acordo com o Modelo de Jogo adotado. Para tornar as informações qualitativas ainda mais completas uma produção em vídeo, de pontos fortes e pontos fracos do jogador, pode ser criada, dos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições).

Após esta análise individual completa é função dos dirigentes de base do clube, reunirem todas as comissões técnicas para, em conjunto, definirem quais são os atletas que têm condições de serem promovidos para a categoria seguinte e quais terão que ser dispensados.

Esta discussão, que envolve a participação de todos e que tem um gestor como mediador, seguramente, diminui os riscos de um erro extremamente comum nos clubes brasileiros: investir por muitos anos em jogadores que não têm potencial de negociação ou atuação no departamento profissional e dispensar os que têm.

Com informações mais precisas, todos os envolvidos (atletas, comissões, dirigentes e investidores) são beneficiados. O atleta dispensado pode ir em busca de seu objetivo em outro clube ao invés de aguardar aquela ligação para se apresentar no início do ano e, após poucos dias de treino e elenco “inchado” ser liberado, pois o seu último treinador não o fez quando deveria; o atleta que subir de categoria é o que o clube realmente vislumbra retorno futuro e que deu mais um importante passo na pirâmide que ano a ano estreita até a profissionalização; a comissão técnica assume a devida responsabilidade profissional de, por estar no dia-a-dia de treinos e, mais do que os dirigentes, ter a obrigação de conhecer profundamente cada um dos seus jogadores, opinar favorável ou contrariamente a promoção de categoria e ser cobrada futuramente por isso; os dirigentes, com o registro de todos os seus produtos e potencial de valor agregado pode se posicionar perante a concorrência e fazer as readequações estratégicas necessárias; e os investidores poderão saber como andam seus investimentos e para quando está previsto o retorno.

É certo que na vida, digo, no futebol, muitos acontecimentos nos distancia das práticas descritas acima. Interesses pessoais, influências políticas, autonomia limitada, entre outros fatores presentes no futebol, digo, na vida, ocorrem e sempre ocorrerão.

Para quem não aguarda o “mundo ideal”, já mencionado em outra ocasião, tem muito com o que contribuir para profissionalizar os procedimentos nas categorias de base. Para isso, é fundamental ampliar as discussões profissionais e não opiniões pessoais sobre cada jogador.

Caso alguém se interesse por uma planilha-modelo simples para fazer um relatório anual de um jogador, escreva-me.

Quantos atletas você irá subir de categoria?

Abraços e até a próxima semana!

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Para fazer mais gols!

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Uma ação individual que implica leitura coletiva e que pode aproximar a equipe do cumprimento da lógica do jogo

Joga-se futebol para fazer mais gols que o oponente! Na busca deste objetivo, cada treinador operacionaliza o processo de treinamento de sua equipe de modo que a mesma seja mais eficaz em sua fase ofensiva. Ser eficaz no momento ofensivo do jogo significa transformar em gol a maior quantidade de ações possíveis em que houve invasão da zona de risco do adversário.

Para invadir a zona de risco do adversário, alguns preferem as bolas paradas; muitos, as jogadas pelas laterais que resultam em cruzamentos; outros, as jogadas individuais e ainda há os que preferem as jogadas pelo meio (aquelas que muitos “especialistas” afirmam NUNCA ser uma boa opção).

Para quaisquer das opções escolhidas, uma gama de competências táticas individuais e coletivas serão necessárias para ser cumprida a ideia do treinador.

E, analisando diferentes treinadores, o que é possível observar em algumas equipes de alto nível do futebol mundial no tocante à invasão da zona de risco do oponente?

A penetração na linha de defesa.

A penetração é uma ação tática individual que tem como conceito a ocupação do espaço, feita por algum jogador que esteja à frente da linha da bola, nas costas do defensor e que pode ser realizada em qualquer região do campo.

Como a coluna aborda a aproximação da zona de risco, a penetração em questão refere-se à ocupação do espaço atrás da última linha de defensores e que ocorrerá predominantemente através dos meias e atacantes.

No plano individual, para o atleta que executa a penetração, é preciso que tenha desenvolvido o conjunto de habilidades a seguir: 

  • Antecipação da ação do passe em profundidade;
  • Leitura do posicionamento do penúltimo defensor para não se movimentar em impedimento;
  • Movimentações em diagonal nas costas dos defensores. 

No plano coletivo, o atleta em posse da bola, que fará o passe para a ação de penetração do companheiro, deverá desenvolver: 

  • Observação de espaços vazios importantes atrás da linha de defensores;
  • Percepção das características do jogador para quem faz o passe;
  • O timing da ação para não fazer passe para companheiro em impedimento;
  • Qualidade de passe para o ponto futuro. 

Ainda no plano coletivo, além do jogador anteriormente mencionado, a leitura de outros companheiros da equipe para a ocupação do espaço deixado pelo atleta que realizou a penetração pode gerar desequilíbrios na organização defensiva adversária que, neste tipo de situação, precisa de comportamentos defensivos muito bem estabelecidos para não serem superados. Nas incertezas da interceptação do passe, no adiantamento da linha para deixar o atacante em impedimento ou na recomposição para evitar o recebimento da bola após penetração, ter mais um jogador nesta ação (devidamente posicionado) será um complicador para a ação defensiva.

Abaixo, alguns lances de penetração retirados de Barcelona, Manchester United e Real Madrid, válidos pela fase de grupos da Uefa Champions League 2011/2012.

http://www.youtube.com/watch?v=BjgAcxSyurw 

Desenvolver essas habilidades nos jogadores demanda tempo, treinamento e conhecimento. É importante mencionar que esta não é a maneira exclusiva de chegar com qualidade à zona de risco do adversário.

É fato, porém, que chegar com qualidade nesta região privilegia os ávidos pelo bom futebol, pelo espetáculo e pelo alto nível competitivo.

E, após chegar com qualidade, talvez o número de finalizações perigosas da equipe aumente, ao contrário de simplesmente se treinar finalização.

Somente finalização, não!

Written by Eduardo Barros

19 de novembro de 2011 at 15:08

Entrevista Tática – Nei: Lateral direito do Internacional-RS

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“Sou blindado, isso me ajuda a não oscilar se recebo vaias ou aplausos”

Está aberta a entrevista tática! “Ouvir” os jogadores de futebol brasileiro traduzirá um pouco da visão que os mesmos têm sobre a modalidade e auxiliar a prática de todos os membros da Comissão Técnica. Para complementar as perguntas-padrão divulgadas na coluna de apresentação, a Universidade do Futebol agradece as contribuições de todos os leitores e insere as perguntas elaboradas por Douglas Soares (aluno de graduação da UNISA/ pergunta 3), Luiz Peazê (CEO da Clínica Literária / pergunta 13) e Marcelo Padilha (aluno de graduação da UFMG / pergunta 14). Além destas, algumas perguntas foram elaboradas ao atleta para complementar a compreensão das suas respostas.

Lembrem-se de que esta é apenas a primeira entrevista. Periodicamente, ela poderá ser aperfeiçoada, complementada ou até mesmo modificada para manter o objetivo que a mesma se propõe.

Acompanhe abaixo as respostas do Nei, lateral direito titular da equipe do Internacional-RS:

1-    Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? Além do clube, indique quantos anos tinha quando atuou por ele.

Palmeiras-SP – 12 anos / Bragantino-SP 15 e 16 anos / Ponte Preta-SP – 18 a 20 anos e 21 anos / Corinthians – 20 anos / Atlético-PR – 21 a 23 anos / Seleção Brasileira sub-23 / Inter-RS – 24 e 25 anos 

2-    Para você, o que é um atleta inteligente?

Atleta inteligente é aquele que consegue se diferenciar dos outros atletas não só dentro de uma partida, mas sim aquele que dentro e fora tem respeito dos seus companheiros. Um cara que coloque sua profissão como foco principal e que tenha uma personalidade que não muda nas horas boas ou ruins. 

3-    Você saberia descrever o quanto o futebol de rua, o futsal ou o futebol de areia contribuiu para a sua formação até chegar ao profissional?

Eu creio que são modalidades com muita diferença uma da outra, mas de onde você pode tirar aprendizado para o campo e para o profissional. Por exemplo, no futsal você pensa muito rápido por ser um espaço mais curto e você tem um passe melhor e aprimora seu drible. No futebol de areia, você praticamente fica com a bola no ar o tempo todo, pois não tem condução, então, aumenta o controle e no futebol de rua você aprende a malandragem do brasileiro, pois não tem regras. 

4-    Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário?

Organização tática, muita tranquilidade e treinamento. Precisa também de um líder positivo dentro de campo. 

5-    Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo?

Acho que primeiro de tudo tem que ter uma aprendizagem de leitura tática aprimorada. Depois, um fortalecimento que o mantenha sempre em alto nível e repetição de trabalhos específicos à sua posição. 

Você pode exemplificar como devem ser estes trabalhos específicos?

Os trabalhos têm que ser voltados para o que você vai usar no campo. Os meias têm que fazer uns passes com mais marcação, giros rápidos e enfiadas de bola difíceis. Os atacantes, mais finalizações, tabelas rápidas; os volantes, passes e viradas de jogo; os laterais, cruzamentos, tabelas e finalização; e os zagueiros, posicionamento e bolas aéreas. 

6-    Para ser um dos melhores jogadores de sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola?

O lateral, primeiro de tudo, tem que saber que a sua função é marcar. Não tem tanta necessidade de apoio, só tem que descer com certeza. Hoje em dia, um lateral que guarda sua posição, que não deixa tomar gols pelo seu lado e quando sobe tem um bom passe tem tudo pra ser um dos melhores. Com a bola, além do passe, ele tem que saber se projetar, pois sempre será o desafogo da equipe; e sem a bola, saber ocupar os espaços do campo sempre se posicionando pra ajudar os zagueiros. 

7-    Quais são seus pontos fortes táticos, técnicos, físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles.

Taticamente, eu tenho uma boa leitura do jogo e consigo prever várias jogadas, assim posso antecipar um lance mais facilmente. Tecnicamente, sou um cara que me projeto muito fácil ao ataque e chego muito fácil à linha de fundo para uma jogada típica dos laterais. Fisicamente, sou privilegiado, pois tenho velocidade, sempre fui muito forte e tenho uma resistência muito boa, o que me ajuda a manter em um jogo inteiro a mesma performance. Psicologicamente, sou muito concentrado e praticamente não escuto nada de fora. Sou blindado, isso me ajuda a não oscilar se recebo vaias ou aplausos. Sendo assim, uma qualidade puxa a outra, ser rápido, ter boa velocidade, gostar de jogadas de profundidade e encontrar espaços pra ultrapassagens mais rapidamente e não ligar quando erro, isso ajuda. 

8-    Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor?

(…) Um cara que taticamente posiciona o time de uma forma única e consegue ocupar todos os espaços do campo com todos os jogadores. 

9-    Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades.

Sou conhecido por minha polivalência, então, nunca tive muita dificuldade de jogar em outras posições, mas sempre que atuo na lateral esquerda tenho um pouco de dificuldade, pois inverte totalmente o corpo pra tudo, tanto pra dominar, como pra driblar e chutar. Apesar disso, sempre joguei tranquilamente. 

10- Qual a importância da preleção do treinador antes da partida?

Pra mim, o mais importante foram os treinamentos e a preleção é mais pra relembrar. 

Pra você, quanto tempo deveria durar uma preleção e o que precisa ser relembrado?

10 minutos e relembrar as jogadas ensaiadas e bolas paradas. 

11- Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo? Qual você prefere e por quê?

4-4-2 e 4-3-3, eu tenho que me posicionar e me preocupar mais com a marcação sem tanta obrigação de apoiar, já no 3-5-2 eu tenho a liberdade pra atacar e às vezes quase chegando como meia. Eu prefiro o 4-4-2, pois é uma tática mais consistente onde é muito difícil de entrar. Um time certinho com o 4-4-2 e as peças certas tem tudo pra ser campeão. 

12- Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:

  • Com a posse de bola;
  • Assim que perde a posse de bola;
  • Sem a posse de bola;
  • Assim que recupera a posse de bola;
  • Bolas paradas ofensivas e defensivas. 

Com a bola, nosso time joga no 4-5-1, onde priorizamos a posse de bola, pois temos um time muito técnico. Quando perdemos a bola, adiantamos um dos meias, vamos para o 4-4-2 e o time todo marca na linha do meio campo. Recuperando a bola, tentamos ficar o máximo de tempo com a posse de bola por não termos jogadores de muita velocidade e tentamos acertar um passe pelo meio, então, ficamos com a bola até a hora certa. Nas bolas paradas ofensivas sempre vamos com 4 jogadores para a área, sempre  preenchendo o primeiro pau e um no segundo. Na bola parada defensiva, marcamos individual nos escanteios e nas faltas laterais marcamos por zona. 

Existe alguma mudança de comportamento previamente treinada para jogos fora de casa? E com a vantagem no placar? Explique:

Não tem nenhum tipo de treinamento pra essa situação. Eu pelo menos nunca vivenciei um treinamento assim. 

13- O que você conversa dentro de campo com os demais jogadores, quando algo não está dando certo?

Tento acalmar e, o mais importante, manter o posicionamento. Continuar com posse de bola e mostrar que temos condições de recuperar. 

14- Como você avalia seu desempenho após os jogos? Faz alguma reflexão para entender melhor os erros que cometeu? Espera a comissão técnica lhe dar um retorno?

Eu assistia a todos os meus jogos, em casa, antigamente, mas com o tempo você vai ficando mais calejado, não precisa mais ver e sabe onde você errou. Estando mais experiente você não precisa que ninguém venha dizer que está errado ou que precisa melhorar. 

15- Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças?

O futebol brasileiro tem muita improvisação, já o europeu é muito tático e você nunca vê um time desorganizado por mais largo que seja o placar. Acho que essa diferença é de cultura mesmo, pois aqui é o país do futebol e achamos que nunca temos que aprender nada. Lá, o futebol evoluiu muito e enxergaram que taticamente você consegue montar um time campeão. 

16- Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma Comissão Técnica, qual seria?

Pense sempre com a cabeça do jogador, nunca tente pensar com a tua. É bem mais fácil e assim você vai entender, poder ajudar e melhorar o time todo. 

Para finalizar, dê sua opinião sobre o que achou da entrevista e como, na sua visão, a mesma pode contribuir com o futebol brasileiro:

Uma entrevista muito interessante para quem é treinador, que poderá ver o pensamento de jogadores de diferentes status, posições e divisões. Conhecendo mais os jogadores que tem, facilita o trabalho para os treinadores.

Written by Eduardo Barros

13 de novembro de 2011 at 11:19