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Archive for março 2012

Entrevista Tática – Gilsinho: Atacante do Corinthians-SP

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“Todos devem pensar no mesmo objetivo e acreditar no esquema tático do treinador”

Com a ajuda de um preparador físico com experiência em muitos clubes do futebol brasileiro (Primavera-SP, São Bento-SP, Atlético-PR, São José-SP, Náutico-PE, Figueirense-SC, Ituano-SP, Americana-SP, Guaratinguetá-SP), Guilherme Bérgamo, publico a coluna desta semana que traz a opinião de Gilsinho, atacante do Corinthians de 27 anos, recém- contratado e que fez seu primeiro gol com a camisa corintiana na décima quarta rodada do campeonato paulista, contra o Comercial-SP.

Obrigado, Guilherme, pelo contato com o Gilsinho. Felizmente ainda é possível encontrarmos pessoas que se mantêm acessíveis mesmo com sucesso profissional.

Abaixo, a opinião do jogador:

1-    Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? Além do clube, indique quantos anos tinha quando atuou por ele.

Até aos 16 anos na escola de futebol do município de Américo Brasiliense-SP; dos 17 aos 18 anos no Marília-SP; no Ituano-SP dos 19 aos 22 anos; Paulista-SP com 23 anos; Júbilo Iwata-Jap, dos 24 aos 27 anos e atualmente estou no Corinthians-SP. 

2-    Para você, o que é um atleta inteligente?

Um atleta inteligente é aquele que tem um comportamento bom, dentro e fora de campo. 

3-    O quanto o futebol de rua, o futsal ou o futebol de areia contribuiu para a sua formação até chegar ao profissional?

O futebol de rua foi muito importante para minha formação, porque foi onde tudo começou e eu tive meus primeiros contatos com uma bola.

Quantas horas por dia você ficava na rua jogando futebol?

Jogava bola na parte da manhã, ia pra escola na parte da tarde e de noite jogava novamente. Acho que dava umas três ou quatro horas. 

4-    Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário?

Jogar como equipe e ter obediência tática.

Como é possível fazer com que uma equipe crie obediência tática? Quais podem ser os problemas caso ela não ocorra?

No grupo, todos devem pensar no mesmo objetivo e acreditar no esquema tático do treinador.  Acho que assim aumenta a chance de desenvolver.

Se algum jogador não exercer a função pedida pelo treinador fica difícil. Por exemplo: o treinador quer marcar pressão, a equipe sobe a marcação, mas tem um jogador que não. Aí já complica. 

5-    Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo?

Tem vários trabalhos que são importantes em minha opinião: trabalhos técnicos, força, velocidade e agilidade.

Quais são os tipos de treino que você mais gosta? Descreva-os:

Com bola ou sem bola?

O que você preferir.

De trabalho físico prefiro os curtos e não os longos. Tiros de 30 e 40 metros por causa da minha posição. Gosto também de trabalhos com bola, campo reduzido, joguinhos. Eu acho que condiciona. 

Pode dar um exemplo de um treino que o Tite dá que te deixa bem preparado pra jogar?

Num espaço reduzido, ele divide o campo em duas partes. Na defesa só pode dar três toques e no ataque é livre. Acho que deixa o jogo rápido lá atrás e dá liberdade para jogar ofensivamente. 

6-    Para ser um dos melhores jogadores da sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola?

Com a bola, jogar com dribles e velocidade para criar situações de gol, sem a bola, recompor para esperar o adversário de frente. 

7-    Quais são seus pontos fortes táticos, técnicos, físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles.

Como pontos fortes táticos, jogar ofensivamente e fazer recomposição rápida; técnicos, as jogadas individuais; e psicológicos um nível de concentração alto.

Consegue fazer alguma relação entre eles?

Acredito que para render, tem que estar bem com a cabeça. Nunca sofri nada muito contínuo que afetasse minha concentração dentro de campo. 

8-    Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor?

Porque com ele jogava quem estava melhor e passava muita confiança para seus jogadores. 

9-    Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades.

Sim, eu me lembro muito bem. No começo não gostei, mas depois me adaptei e vi que era importante desempenhar duas funções.

Você pode mencionar qual era a função e falar sobre a adaptação:

No Japão, os meias não estavam bem e tive que desempenhar esta função por uma temporada. Eu tinha que acompanhar o lateral quando a jogada estava do meu lado e fechar nas linhas dos volantes quando a bola estava do lado oposto. Não gostei porque exigia muito mais de mim na marcação e porque ficava mais longe do gol. Fisicamente, também exigia muito e me “abafava”. Depois me adaptei e fui bem.

Eram duas linhas de quatro?

Isso. Eu jogava de meia do lado esquerdo.

10- Qual a importância da preleção do treinador antes da partida?

A importância é que o treinador passa as informações do time adversário, relembra o posicionamento da equipe, e aumenta o nível de concentração. 

11- Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo? Qual você prefere e por quê?

Eu acho que o esquema tático depende muito dos jogadores que o treinador tem em seu grupo, mas eu gosto do 4-4-2 porque o time fica mais consistente no meio campo. 

12- Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:

  • Com a posse de bola; Jogar com trocas de passes e atacar pelos lados.
  • Assim que perde a posse de bola; Assim que perde a posse de bola, tenta recuperar, se não conseguir todos voltam atrás da linha da bola.
  • Sem a posse de bola; jogar compacto e todos marcam para roubar a bola sem falta.
  • Assim que recupera a posse de bola; se tiver oportunidade para fazer o contra ataque faz, senão, faz a posse.
  • Bolas paradas ofensivas e defensivas. Nas bolas paradas ofensivas deixar o espaço para atacar a bola e nas defensivas manter a linha e marcar por setor. 

13- O que você conversa dentro de campo com os demais jogadores, quando algo não está dando certo?

Tento motivar meus companheiros, para conseguirmos reverter uma situação difícil. 

14- Como você avalia seu desempenho após os jogos? Faz alguma reflexão para entender melhor os erros que cometeu? Espera a comissão técnica lhe dar um retorno?

Eu fico relembrando os lances que aconteceram e pensando no que eu poderia ter feito naquela hora para que esses erros não venham a se repetir. Poder escutar a comissão técnica para um diálogo é muito importante. 

15- Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças?

A diferença é que o futebol brasileiro é mais cadenciado e o europeu é mais dinâmico.

Fale um pouco do Barça:

São jogadores com muita qualidade e que jogam muito tempo juntos. Todos atacam e todos defendem, inclusive o Messi que é o melhor jogador do mundo. Tem também muita movimentação.

Você jogou entre 2008 e 2011 no futebol Japonês. Compare-o com o brasileiro:

Tecnicamente o futebol brasileiro é superior. Só que futebol japonês é muito dinâmico, tem muita marcação, muita correria, tanto que alguns brasileiros não conseguem se adaptar lá. Quando eu cheguei, dominava a bola e em seguida tinha três ou quatro jogadores em cima. 

16- Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma Comissão Técnica, qual seria?

A comissão tem que ser amiga. Saber o que o grupo quer para tentar tirar o máximo de cada um dos jogadores, porém, sempre tem que ter autoridade.

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Written by Eduardo Barros

24 de março de 2012 at 7:39

Quando a tática não importa

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O caso Adriano e alguns pensamentos sobre o jogador

A rescisão de contrato do atacante Adriano foi tema de centenas de matérias esportivas na última semana. O custo de R$ 12.000,00 por minuto jogado e o de R$ 2,4 milhões por gol marcado, efetuados com base no salário mensal de aproximadamente R$ 380.000,00 são apenas alguns dos tópicos levantados nas notícias que questionavam o custo x benefício deste exorbitante investimento dos dirigentes corintianos.

Como todo tema que movimenta a semana e possibilita inserções em meu cronograma de colunas, o problema com o referido jogador me levou a inúmeros pensamentos e reflexões, sob diferentes pontos de vista, num exercício de empatia, essencial numa atuação interdisciplinar.

Como torcedor, ficaria a sensação de que, após um longo período de recuperação da lesão sofrida no tendão, o jogador se encontra na fase final de reabilitação e um mês será suficiente para voltar a jogar em alto nível, o Corinthians reabilitou quase que integralmente um jogador que irá balançar as redes por outro grande clube do futebol brasileiro. Uma possível falta de gols na competição mais importante do ano para a equipe alvinegra, a Libertadores, e ela será atribuída à dispensa do, outrora, Imperador. Afinal, como torcedor, é impossível esquecer aquele gol (e muitos outros ao longo de sua carreira) na reta final do campeonato brasileiro do último ano.

Como dirigente corintiano, refletiria sobre os prós e contras da tomada de decisão relacionada à rescisão. Na ocasião da contratação, eu me perguntaria se algum comportamento apresentado pelo jogador era desconhecido. Os problemas com mulheres, má companhias, peso, horários e bebidas seriam alguma surpresa? O dinheiro investido neste atleta poderia ter sido direcionado para alguma outra contratação? Diante dos lamentáveis fatos, será que valeria a pena esperar o término do contrato, tentar amenizar o relacionamento interpessoal entre o atleta e o técnico Tite e se livrar da multa contratual? Será que após o mês que o atleta afirma precisar para estar melhor preparado, ele poderia contribuir na busca pelo inédito (e cobrado) título da Libertadores?

Como (ex)companheiro de elenco, pensaria que abriu-se espaço para uma das dezoito vagas de competição na que, atualmente, é a melhor equipe do futebol brasileiro e que joga o melhor torneio de clubes da América do Sul. Agradeceria pelo final desta novela de privilégio, mimo, excesso de atenção e “vista-grossa” para um atleta que recebe muito mais do que eu. Poderia dizer também que o grupo está unido, que sentimos a perda do Adriano, que ele é um grande jogador e que logo irá superar esta fase ruim e voltar a ter alegria e jogar um bom futebol (clichê típico do ambiente).

Como dirigente de outro clube, eu me questionaria se vale a pena o investimento. Poderá o Adriano jogar e incomodar os adversários como já o fez? Conseguirá recuperar o poder de finalização que o consagrou como um dos grandes atacantes do futebol mundial? “Banco” o investimento ciente que a reincidência é um caminho bem provável? Arrisco alguns milhões num “produto” que, há tempos, não permite retorno?

Pensando como o técnico Tite, recordaria cada entrevista, declaração, preleção e roda de conversa que o atleta foi poupado para dar-lhe tempo e tranquilidade para se recuperar. Será que toda a gestão de conflito de um atleta que nunca esteve em totais condições foi eficiente? Será que declarações mais polêmicas e pressões diretas ao jogador teriam um resultado final mais produtivo a instituição? Com isso, será que prejudicaria o elenco?

Como o próprio jogador, eu me indagaria se todas as respostas que dei alguns dias antes a uma grande emissora de televisão foram, de fato, sinceras. Questionaria se ainda anseio por jogar futebol ou pela fama e repercussão que este papel me proporciona. Pensaria também onde está o problema em ingerir bebidas alcoólicas, curtir a vida noturna e esbanjar o dinheiro que o futebol me proporcionou. Ser atleta e não boleiro, como o Paulo André, não é pra mim!

É claro que diversos outros pensamentos foram elaborados por cada um dos personagens identificados no texto e que podem, ou não, representar a realidade. Representam a minha, ao menos. É certo também que um bom número de conversas de bastidores, que não temos acesso, ocorreu para culminar no encerramento do contrato de Adriano.

O que deixo, futebolisticamente, é um exercício de reflexão para problemas inevitáveis na gestão de uma equipe que não envolvem diretamente os esquemas táticos, os momentos de jogo ou as estratégias, e para os quais nunca haverá um fluxograma com as melhoras respostas. Como você agiria numa situação semelhante a esta? Não se esqueça de considerar todos os envolvidos! Pensar e agir somente sob sua perspectiva poderá limitar os caminhos de uma ponte (perigosa) que você precisará cruzar.

Deixo também, mais humanamente, diante de tudo que pôde ser acompanhado neste período de onze meses, uma simples opinião livre do meu papel de técnico de futebol e também livre de julgamento:

Que o Adriano, que até confinado ficou na insana tentativa de levá-lo ao alto-rendimento esportivo a qualquer custo, independente dos erros ou acertos cometidos em seus últimos passos, encontre seu caminho para os passos seguintes na busca do alto-rendimento humano. Sem a ajuda de alguém acredito que será difícil encontrar tal caminho e, sem ele querer, acredito que é algo impossível.

Tomara que ele saiba que gols, entrevistas, fama e mulheres são passageiros. Já a sua vida…

Written by Eduardo Barros

17 de março de 2012 at 11:21

As regras certas e a dinâmica do jogo: favoreça um treinar (jogar) de qualidade! – parte I

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Sequência de colunas propõe discussão de regras que podem potencializar aquisição de comportamentos coletivos em sua equipe

Você tem sido assertivo na elaboração do seu planejamento semanal? As atividades que você e sua comissão técnica pensaram estão colaborando satisfatoriamente para a evolução do nível de jogo de sua equipe? A evolução tem incidido sobre as quatro vertentes do futebol ao mesmo tempo? O jogo que você joga em sua cabeça para cada uma das imprevisíveis situações de um jogo contra qualquer adversário, seus jogadores também o tem jogado?

A resposta afirmativa para estas questões introdutórias, de profissionais do futebol que trabalham a partir de uma perspectiva sistêmica, é difícil inclusive para quem já tem experiência em utilizar o jogo como método de ensino. Se respondeu positivamente, esteja certo de que você, sua comissão e, principalmente, sua equipe estarão à frente das demais.

Caso a resposta não seja afirmativa, mesmo que para somente uma das perguntas (apesar de acreditar que todas estão inter-relacionadas), um dos motivos pode ter origem nas regras das atividades criadas que, com as reflexões proporcionadas nas próximas linhas, terão possibilidades de solução.

Há alguns meses, publiquei sobre a importância do princípio das propensões na elaboração da sessão de treinamento. Na ocasião, mencionei, porém não me aprofundei, a importância da correta elaboração das regras dos jogos criados para o cumprimento deste princípio.

Mais recentemente, elaborei uma atividade de análise de jogo qualitativa para diferentes turmas de um curso de pós-graduação em futebol no qual sou professor. A avaliação consistia em, a partir da cópia digital do jogo em formato de DVD e determinados intervalos de tempo, analisar o comportamento de duas equipes em cada um dos momentos do jogo. Além disso, foram propostas duas questões finais que solicitavam a elaboração de uma síntese de um novo Modelo de Jogo da equipe derrotada e a criação de uma atividade que, pelas suas características, poderia levar a cabo o comportamento pretendido.

Digo “poderia”, pois, como afirmam alguns estudiosos da modalidade, os exercícios de futebol em situações de jogo são somente potencialmente específicos. Transformá-lo em jogo, garantir o estado de jogo por parte dos participantes e intervir didática e corretamente são questões indispensáveis para quem adota este método.

E ao analisar os inúmeros trabalhos, cerca de 40 dos mais de 60 que tenho para corrigir, percebi uma grande dificuldade dos alunos (daqueles que realmente fizeram e não dos que somente copiaram) em transformar determinado objetivo, mais especificamente algum exercício, em jogo. Ou seja, eu esperava mais!

Quem acompanha futebol de alto nível pode observar a manifestação de diversos princípios de jogo e ter o interesse despertado em criá-los em sua própria equipe. Bloco alto, pressing zonal, penetração, amplitude, compactação, flutuação, progressão com passes curtos, mobilidade são apenas alguns dos exemplos de comportamentos coletivos das grandes equipes do futebol mundial que muitos treinadores (dos mais variados segmentos e escalões) tentam reproduzir em seus liderados.

Todavia, na tentativa desta reprodução pode estar o grande equívoco na elaboração dos jogos. Como já abordei na coluna de tempos atrás, uma equipe não irá compactar adequadamente na sessão de treinamento se isto não for uma referência coletiva comum para dada situação-problema do jogo criado. Uma equipe não irá progredir predominantemente com passes curtos se este comportamento não for hábito. Enfim, para cada atividade criada, não basta seu interesse em estimular determinado princípio de jogo. As regras, que formarão um exercício com uma lógica própria devem convergir para aquilo que precisa ser treinado.

Como sabemos, no futebol, as regras e referências do jogo (alvos, terreno, bola) deixam claros que quem fizer mais gols será o vencedor da partida. Já nas sessões de treinamento, as regras e elementos do jogo podem (e devem) ser diferentes. E com o objetivo de auxiliar na elaboração/criação de regras que potencializem a ocorrência de determinados comportamentos coletivos, em colunas futuras sobre este tema, trocaremos discussões e sugestões que acelerem nosso processo de resposta afirmativa para os quatro questionamentos do início do texto.

Acredito que a eficácia na manipulação de todas as regras do jogo de futebol e a adequação para o nível de jogo atual além do pretendido são variáveis determinantes para o sucesso de sua equipe. Aqueles que nunca treinaram com jogos, com o norte de algumas regras como auxílio, poderão acelerar o processo de capacitação a aceitação do método. Aqueles com visão integrada poderão perceber se as regras que criam para atingirem determinados objetivos físicos (ou técnicos, ou táticos) estão em consonância com o Modelo de Jogo da equipe e com a Lógica do Jogo de futebol e, por fim, aqueles que dominam a utilização de jogos na perspectiva da complexidade poderão contribuir significativamente com novas possibilidades e comentários que serão publicados com os devidos créditos na coluna posterior que tratar do tema.

E quando muitos de nós estivermos respondendo afirmativamente para aquelas quatro questões do início do texto, provavelmente, teremos que rever nossos conceitos, pois os estudiosos do futebol (aqueles mesmos que afirmam que os exercícios são somente potencialmente específicos) também afirmam que o Modelo de Jogo deve ser utópico, inatingível e em constante evolução.

Coisas do (complexo) futebol!

Aos preparadores físicos (e aos demais profissionais também) – parte I

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A preparação da vertente física do futebol: reflexões e tópicos para novas discussões

Gestores de campo,

Há algumas semanas, encerrei a coluna semanal com um questionamento sobre a utilização de quaisquer meios de treinamento que privilegiem o desenvolvimento de somente uma vertente do jogo. Em questão estava envolvida a vertente “física” do futebol e os seus treinamentos realizados em “caixas de areia”, com tração, salas de musculação, circuitos, plataformas de salto, pesos livres, etc. Na ocasião, afirmei que desconsiderava a parte física do jogo pensada (e treinada) de forma isolada e que colunas futuras tratariam deste tema.

Chegado o momento e confesso que estou com receio de escrever. Abordar, num portal referência nacional, o aspecto físico da modalidade sem ser especialista no tema implica muita responsabilidade. Como é de praxe nas publicações da Universidade do Futebol, estejam certos que apesar das limitações de conhecimento para a produção desta sequência de colunas, baseei-me em muitos conteúdos científicos que abordam o tema, além de longas horas de discussão com um profissional pós-graduado em bioquímica e fisiologia do exercício que vos apresentarei ao longo do material.

As inquietações e ideias que esta coluna se propõe tiveram início em meados de 2010 quando tive a oportunidade de representar o clube que trabalho num curso de pós-graduação em Futebol, mais precisamente com a disciplina Categorias de Base, na cidade de Porto Alegre. O conteúdo da disciplina era composto pela bem sucedida Metodologia de Treinamento aplicada no Paulínia FC e o Currículo de Formação do mesmo. Durante o fim de semana de aula, tive a oportunidade de conhecer profissionais que dominavam a Periodização Tática, criada pelo português Vítor Frade, modelo este que conhecia apenas superficialmente.

Após a aula, junto com minhas bagagens, trouxe muito material a respeito desta periodização e, imediatamente, aprofundei as leituras.

Leituras que, hoje, permitem-me um significativo posicionamento em relação ao que aplico, identificando as semelhanças (muitas) e diferenças (algumas) com a Periodização Tática e me instigando para novas discussões que não tenho condições de fazê-las sozinho.

É sabido que a evolução da metodologia de treinamento em futebol aponta para a preparação das equipes a partir de uma perspectiva sistêmica. Sob este viés, os treinamentos devem ter um caráter técnico-tático-físico-mental, com grande auto-semelhança com o jogo de futebol, a todo o momento.

Com estes breves argumentos, exemplificando, especialistas desatualizados da vertente técnico-tática da modalidade se assustam ao serem informados que a busca pelo gesto técnico perfeito em treinos de fundamento, ou então, o conhecido tático-sombra, são atividades superadas quando pensadas e aplicadas isoladamente na sessão de treinamento.

Assombramento semelhante ocorre com os preparadores físicos quando lêem materiais, especialmente da Periodização Tática, que prevêem a extinção desta função nas comissões técnicas do futuro.

Porém, quando os preparadores físicos se aprofundam (ao menos um pouco) nas leituras sobre o referido modelo de periodização, fazem a seguinte constatação: o controle de carga da Periodização Tática é demasiado subjetivo.

Para os preparadores físicos, a Alternância Horizontal em Especificidade (um princípio metodológico da PT), que apresenta um morfociclo padrão constituído pelo dia competitivo, dias recuperativos e dias aquisitivos (que em relação à “parte física” do jogo varia, com estímulo e pausa, em regime de tensão, duração e velocidade de contração), é um argumento facilmente questionável pelas Ciências Biológicas dadas às poucas informações quantitativas que podem ser adquiridas.

Pois bem! O objetivo desta coluna não é defender a Periodização Tática (que possui embasamento teórico que em muito fundamenta minha intervenção prática) e tampouco prever a extinção dos preparadores físicos (que sempre enriquecem minhas reflexões sobre o planejamento de treinamento), lembrando que não serão extintos e terão função ressignificada carregada de complexidade. A finalidade é criar um ambiente de discussão que permita a aproximação entre os preparadores físicos e profissionais que aplicam a Periodização Tática (ou então, alguma periodização que tenha fundamentação sistêmica) e nos direcione para a resolução da seguinte questão-problema: Ao longo de um microciclo de treinamento no planejamento de atividades na preparação de uma equipe, o quanto é possível ser realizado em total especificidade, portanto, jogando futebol?

No cenário atual, quem não é adepto da Periodização Tática simplesmente a critica e a nega como possibilidade de evolução do nosso futebol. Negá-la é um comportamento comum inclusive em Portugal, pois, segundo informações de companheiros de profissão que lá estiveram, até nos corredores da Universidade do Porto ela é questionada pela falta de elementos científicos quantitativos.

Já quem aplica a Periodização Tática, muitas vezes, se coloca “acima do bem e do mal” e se prende em argumentos para justificar esta periodização que não seduzem ou convencem os preparadores físicos e demais assistentes e treinadores.

Pergunto: Será que existe algum ponto da “linha” de desenvolvimento da Periodização em Futebol que a Periodização Tática e Periodização Física possam se aproximar? Estou enganado ou o objetivo das duas correntes é elaborar treinos de qualidade e montar grandes equipes? Se os objetivos são comuns, um ambiente sadio de discussão não poderia ser mais frequente? Para elaborar treinos de qualidade e montar grandes equipes, existe um melhor caminho? Por enquanto, faço somente estas perguntas.

Quanto à questão-problema (em negrito), ainda estou buscando a resposta perfeita. Para isso, leio, estudo, acerto, erro, escrevo, apago, pergunto, pratico, sempre com um único objetivo: melhorar o inquestionável estacionado futebol brasileiro! Espero que um dia a resposta com todas as comprovações científicas possíveis seja 100%. Sem considerar, é claro, o papel das assessorias como a de fisioterapia, psicologia, nutrição, saúde, fundamentais numa atuação interdisciplinar.

Não deixe de me escrever sobre suas indagações. Elas fomentarão discussões e reflexões para minhas próximas publicações.

Na sequência, além dos meus questionamentos e também os dos leitores, apresentarei o objetivo da pesquisa de Cristian Lizana (mencionado no início da coluna), treinador adjunto do Paulínia FC, mestrando em Pedagogia do Esporte pela Unicamp e que pode ser um catalisador do processo de aproximação do preparador físico e adeptos de uma periodização sistêmica.

Abraços e até a próxima semana.