tecnicoeduardobarros

Temas atuais relacionados ao Futebol

Archive for julho 2012

Dirigentes e investidores: aprendam sobre a (boa) formação

leave a comment »

“Coincidências” trazem algumas lições sobre o trabalho de longo prazo

Três notícias futebolísticas dos últimos dias, aparentemente desconexas, têm uma significativa relação. Por terem ocorrido coincidentemente em uma mesma semana motivaram-me a escrever sobre o que elas representam.

A primeira diz respeito à convocação de um atleta para a seleção brasileira sub-15, formada por jogadores nascidos em 1998, que se reuniu na Granja Comary para um período de treinamentos. É o início da preparação da categoria comandada por Emerson Ávila que, em 2013, estará no “ano bom”.

A outra notícia se refere à opinião de Seedorf em relação a um dos seus companheiros no Botafogo-RJ. Após orientá-lo defensivamente quanto à sua tomada de decisão para desarmes, o jogador holandês elogiou-o publicamente quanto ao seu jogo ofensivo: “é muito dinâmico e não enrola com a bola no pé”.

Por último, a contratação de um lateral direito pela equipe do Real Madrid. A princípio a contratação é para a equipe B, porém, como nem todos os atletas iniciaram a pré-temporada, o jogador, que tem sido convocado para os últimos jogos da seleção brasileira sub-20, está treinando com a equipe principal.

O primeiro atleta ainda é um adolescente e fez parte somente de uma convocação. No entanto, ter oportunidade de ser lembrado num momento em que a CBF tem divulgado a importância de um trabalho de base em longo prazo, que reflita positivamente no elenco principal, é considerável.

O segundo, em fase final de formação com apenas 20 anos, busca um espaço na equipe carioca. Neste momento, poder ter como conselheiro o experiente Seedorf pode cortar-lhe bons caminhos na busca pela titularidade.

Já o último, igualmente jovem, viveu em pouco mais de um ano uma ascensão profissional meteórica. Após a Copa São Paulo de 2011, o atleta foi negociado com o Fluminense-RJ, disputou as competições juniores daquele ano, a Copa São Paulo de 2012 e após a disputa do torneio Oito Nações pela seleção, foi transferido para o Rio Ave-POR. Não ficou nem um mês em Portugal antes de ser emprestado por seis temporadas ao clube que tem Mourinho como treinador.

José Marcos, Gabriel e Fabinho. Três atletas em clubes e momentos distintos da carreira, mas com um ponto em comum: tiveram importante passagem pelo mesmo clube formador.

O primeiro por dois anos, durante 2010 e 2011 e os outros dois, por seis anos, de 2005 a 2010.

Frutos de uma boa formação, claro que sem desconsiderar as passagens pelos seus respectivos clubes posteriores, o posicionamento que cada um destes atletas tem atingido em suas carreiras evidencia o que é urgente e sabido por alguns profissionais do futebol, porém, desconsiderado pela grande maioria dos dirigentes e investidores.

Como nos orgulhamos em afirmar, no Brasil, somos cerca de duzentos milhões de treinadores. Entre esses duzentos milhões encontram-se muitos dirigentes e investidores que creem ter a fórmula certa para prosperar no futebol.

A partir dessa visão, contratam, dispensam, gerenciam, gastam, competem e investem sem critérios eficazes, o que em médio-longo prazo leva para a insustentabilidade.

A solução seria buscarem informações do que é tendência na Ciência do treinamento em futebol para formarem equipes de trabalho capazes de agregar valor a cada um dos atletas em formação num determinado clube. Com um trabalho qualificado, invariavelmente, os resultados (promoção de jovens valores, negociações, sustentabilidade, retorno financeiro) apareceriam.

Como a solução praticada não é essa, temos que observar exemplos quase que cotidianos de equívocos técnicos permitidos por deficiências administrativas. Por exemplo, a opinião de Zinho ao mencionar uma das justificativas ao demitir Joel Santana. O dirigente disse que o Flamengo precisa de um treinador com ideias novas. A ideia nova não deve partir do treinador e sim da gestão da instituição. É ela quem deve saber o que é ou não atual.

Quanto àquele clube formador, que os resultados continuem aparecendo e os referidos atletas, além de outros também, se destaquem no mercado do futebol para que sirvam como bons exemplos aos questionamentos feitos por aqueles que são avessos ao conhecimento.

Espero, somente, que esses que são avessos ao conhecimento não digam que foram meras coincidências…

As regras certas e a dinâmica do jogo: treinando a organização ofensiva – parte III

leave a comment »

Veja sugestões de regras para o treinamento dos aspectos ofensivos de sua equipe

O tema desta semana se refere à sequência das colunas publicadas meses atrás relativas ao treinamento e, consequentemente, ao jogar de qualidade. Se você não teve oportunidade de ler a primeira ou a segunda parte, aconselho que retome a leitura a fim de que a coluna de hoje não adquira uma conotação de “receita de bolo”, para ser reproduzida sem a mínima reflexão.

Conforme havia mencionado, as sugestões de regras apontadas nas próximas linhas favorecem o treinamento da organização ofensiva de sua equipe. Para continuar, outro conceito que não pode ser perdido na interpretação das regras e, obviamente, na elaboração e aplicação do treino diz respeito aos fractais, abordado noutra coluna semanas atrás.

Para treinar alguns Meios Táticos Ofensivos como Desmarques, Apoios, Mobilidade com ou sem Trocas de Posição, as seguintes regras podem ser utilizadas para compor o jogo:

  • Dividir o campo de ataque em diversos setores e a equipe pontuar quando receber passes em setores desocupados pelo      adversário. Esta regra força os jogadores da equipe que detém a posse de      bola a buscarem constantemente os espaços vazios no campo de ataque do adversário;
  • Dividir o campo de ataque em diversos setores e o atleta que fizer o passe deve mudar de setor, caso contrário,      pontuação ao adversário. Esta regra faz com que o atleta que realizou o passe internalize o conceito de dar sequência a jogada mesmo após ter realizado uma ação direta com bola;
  • Dividir o campo de ataque em diversos setores      e a cada passe feito no campo de ataque todos os atletas que estão no      campo ofensivo (com exceção do jogador que recebeu o passe), devem mudar de setor. Uma regra que favorece significativamente a mobilidade ofensiva, mas deve ser feita somente quando os atletas dominarem competências      prévias relativas à movimentação da equipe, pois a desordem gerada no jogo devido às constantes mudanças de setores pode dificultar a aplicação do jogo;
  • A equipe pontuar quando houver uma troca de posição entre dois jogadores no campo de ataque, em que um dos jogadores  responsáveis pela troca receba um passe. Regra que implica que a equipe que possui a posse de bola execute trocas de marcação com o objetivo de      dificultar e desorganizar a organização defensiva adversária. Como envolve      somente três jogadores (o que faz o passe, além dos dois que realizam a troca), esta regra possui maior facilidade de aplicabilidade;
  • A equipe pontuar ao trocar um número determinado de passes no campo de ataque sem poder devolver o passe para o      jogador no qual o atleta o recebeu. Espera-se com esta regra que o atleta que fez o passe não seja o próximo a realizar o apoio e que demais atletas aproximem-se do que recebeu a bola, abrindo-lhe linhas de passe;
  • Restrição do número de toques na bola por jogador. Regra bastante utilizada e propagada para acelerar o jogo ofensivo, logo, exigir maior mobilidade coletiva;

Para estimular o Meio Tático Ofensivo de Fintas e Dribles, como sugestões de regras:

  • Delimitar um setor próximo à zona de risco em que um drible realizado precedido por um passe equivale a uma pontuação. Estimula os atletas a tentarem jogadas individuais em setores próximos ao alvo em que a equipe precisa manter a posse de bola;
  • Gol precedido por drible em setores próximos à zona de risco ter pontuação maior que demais gols. Regra que privilegia      o drible que antecede a finalização, ou seja, uma das poucas circunstâncias do jogo em que este recurso precisa ser utilizado;
  • Dividir o campo em setores em que o drible é permitido. Executá-lo em setores não permitidos e a equipe perder a posse      de bola, pontuação para o adversário. Regra que busca o aprendizado coletivo dos setores ideais para a realização do referido Meio Tático;

Lembre-se de dividir corretamente os pontos para o jogo ficar competitivo. Do contrário, a Lógica do Jogo criado pode privilegiar comportamentos coletivos distantes do que idealiza para a equipe.

Aguardo sugestões de como você treinaria cada um destes Meios Táticos. Esta troca de informações é muito enriquecedora.

Para finalizar, lembre-se também que as preocupações técnicas-físicas-mentais para o desenvolvimento do jogo devem acontecer. Por isso, o controle adequado do tempo de estímulo, tamanho do campo, ações técnicas predominantes e até a observação e intervenção diante de comportamentos individuais durante o jogo devem ser estabelecidas para que o seu TODO seja contemplado.

E ainda falam que o futebol (ensinar e jogar) é fácil…

O futebol suplica: parem de rasgar dinheiro!

leave a comment »

Com equívocos administrativos, o investimento (mal planejado) é certeza de retorno não alcançado

Dois mil e quinhentos atletas do estado de São Paulo correm o risco de ficarem sem clube nos próximos dias! A grande maioria, ainda em formação, verá seu sonho de se tornar jogador de futebol profissional ficar mais distante após a dispensa originada pela desclassificação.

O cálculo estimado foi feito com base no término da primeira fase do Campeonato Paulista da Segunda Divisão e do Campeonato Paulista sub-15 e 17, considerando vinte e cinco jogadores por equipe. Foram desclassificadas dezessete equipes profissionais e cerca de 80 equipes (ao considerarmos as duas categorias) de base.

Pergunto, então, a cada um dos gestores dos clubes eliminados: quais serão os procedimentos a serem tomados?

Temo em ouvir a resposta!

A boa gestão, organizada, planejada, com adequada alocação de recursos e ciente de seu posicionamento frente ao mercado do futebol é pré-requisito para o sucesso do negócio. Muitos dirigentes do futebol brasileiro parecem ignorar estes conceitos.

Sei que os clubes aos quais a coluna se refere compreendem uma parcela econômica insignificante do mercado da modalidade. É justamente por esse motivo que os dirigentes e gestores dos clubes pequenos e médios não podem errar!

Os campeonatos que estes clubes disputam devem ser encarados como parte importante da exposição do seu produto; porém, a sua disputa (na busca do acesso ou título) não pode (ou não deve) ser o único indicador considerado para o desenvolvimento do trabalho. Independente da competição, o clube (a empresa) deve continuar em atividade.

É lamentável afirmar, porém, que os equívocos são tremendos. Para exemplificar, treinador vende o carro para pagar salário de jogadores; equipes à beira da desclassificação alimentam mal seus atletas; dirigentes fazem contratações de reforços quando as necessidades não são reais; equipes inteiras são desmontadas sem uma análise detalhada do trabalho. Administrativamente, como podemos classificar estas atitudes? “Planejamento invertido”: em que primeiro os dirigentes e investidores esperam o retorno financeiro para depois realizarem o investimento? Se este é o objetivo, esqueçam!

Não significa que investir por investir, contratar por contratar será sinônimo de bons resultados. Segundo conversas do futebol, uma das folhas salariais mais altas da 2ª Divisão Paulista não conseguiu passar de fase. Aqui cabe a pergunta: com 50% da folha de pagamento utilizada, será que não seria possível formar um elenco competitivo para a divisão que, ao invés de trabalhar durante os seis primeiros meses do ano, independentemente do resultado, trabalhasse o ano todo? Afinal, não será necessária uma nova equipe para o ano seguinte?

Este procedimento estabelecido para o departamento profissional pode ser igualmente aplicado nas categorias de base. Qual deve ter sido o custo operacional mensal de muitas equipes espalhadas pelo estado que alojam mais de 50% (algumas o valor é próximo de 100%) dos seus atletas? Muitas regiões do estado de São Paulo são autossuficientes de potenciais atletas. Os clubes localizados nestas regiões deveriam desenvolver um trabalho preciso de captação e formação para não perderem nenhum jogador e deixarem as vagas do alojamento somente para as moscas brancas (se bem que elas não existem mais!).

Férias permanentes destes milhares de atletas até ao final do ano, se os clubes pretendem se manter em atividade no ano que vem, significará um retrabalho. Retrabalho no ambiente gerencial significa aumento de custo. A contramão do processo produtivo de jogador de futebol.

Claro que uns e outros atletas amadores ou profissionais conseguirão se empregar em outros estados, mais uma vez para uma das competições remanescentes e não para uma sequência de trabalho de médio-longo prazo. Será a vez dos outros clubes, dirigentes e investidores se equivocarem.

A resposta ideal de um gestor para a pergunta do início da coluna “quais serão os procedimentos a serem tomados?” poderia ser:

“O trabalho irá continuar, faremos algumas dispensas em função do estreitamento natural da pirâmide, ou então, devido a não adaptação de determinado atleta a filosofia do clube. Os atletas das categorias de base ainda têm muitos conteúdos a serem aprendidos até chegarem ao profissional e esses seis meses de trabalho são importantes para termos atletas de alto nível no ano seguinte.”

Respeito a opinião de muitos dirigentes que dirão que estou louco. Lembro-os, no entanto, que ao menos não estou rasgando dinheiro!

Written by Eduardo Barros

14 de julho de 2012 at 10:00

Algumas lições táticas da Eurocopa 2012: os centroavantes e os volantes

leave a comment »

As verdades do futebol mudam, as nossas opiniões deveriam fazer o mesmo

A observação e o estudo dos jogos da Euro-2012 são fundamentais para profissionais do futebol que almejam aperfeiçoar algumas das suas competências profissionais. Assistir a diferentes Modelos de Jogo, analisar as distintas intervenções de treinadores e acompanhar a opinião de especialistas são excelentes convites à reflexão do mais alto nível do futebol mundial.

E na recém-encerrada competição, dois temas permitem longos e saudáveis debates: primeiro, em relação à necessidade ou não de um centroavante para ganhar jogos e segundo, sobre o volante central e suas características.

Enquanto, no Brasil, Tite é constantemente questionado pela ausência de um jogador de referência em sua equipe quando não joga Liédson, Del Bosque viveu problema semelhante ao ser questionado quanto à dinâmica do 1x4x3x3 espanhol com a falta de um jogador de área. Após o empate na estreia, inclusive Mourinho comentou que o ataque da Fúria perdia eficácia sem um atacante.

Já na seleção italiana, estruturada em 1x4x4x2 (losango), um território habitado muito tempo por Gattuso, mesmo que em outra estrutura, foi ocupado nesta Euro pelo volante central Pirlo.

Sobre o primeiro tema, felizmente a Espanha conquistou o título, pois, caso outra equipe tivesse sido campeã, a explicação para a derrota seria clara: faltava-lhe um centroavante.

E, de fato, uma equipe precisa de centroavante?

Sabemos que o futebol evoluiu muito nas últimas décadas e que existem milhares de estudos científicos acerca da modalidade. Ao estudar a evolução tática, o jogo, os princípios táticos e sistemas, não é possível afirmar que uma equipe, indispensavelmente, precisa de um jogador de área. O jogo de futebol e seus problemas são muito mais complexos que a presença ou não de uma posição no campo de jogo.

A preocupação com esta reflexão ao analisar uma equipe, seja você treinador, auxiliar, preparador físico, jornalista, comentarista ou torcedor, deve existir. O problema ocorre quando esta é a única reflexão feita.

Será que não existem outros elementos a serem considerados no processo ofensivo de uma equipe? Será que mesmo sem centroavante, algumas adequações/ajustes nos princípios de jogo ofensivos não podem potencializar a ocorrência de gols?

Pedem-se centroavantes por serem os jogadores que, por característica, dão profundidade à equipe e, logo, têm maiores possibilidades de ocuparem a zona de finalização. Mais uma vez simplificam o complexo futebol!

A questão não é ter ou não centroavante e sim como jogar com ou sem centroavante. Mudam-se as estruturas, respeitam-se as características do elenco para a atribuição de funções e buscam-se as inter-relações que possibilitem os gols.

Ocupar o espaço em que Messi aparece “rasgando” os defensores adversários com um homem de área? Abrir mão de Xavi, Iniesta, Fábregas ou Silva pela simples formalidade de ter um centroavante? Jogar com Liédson em má fase pelo mesmo motivo?

Os treinadores de Barcelona, Corinthians e da seleção espanhola encontraram a fórmula de como vencer sem centroavante. Lembrando, claro, que a do treinador brasileiro, por diversos motivos, faz menos gols.

Já a outra questão, do volante, refere-se à função exercida por Pirlo ao longo da competição. Vê-lo construindo as ações ofensivas com sua leitura de jogo e técnica invejáveis, além da clareza com que se posiciona defensivamente, é contrário a muito do que ouvi sobre a posição ao longo dos anos que estou no futebol.

Aprendi com vários dos meus ex-treinadores que volantes precisavam ser exímios em desarmes. Inclusive privilegiavam-se jogadores com esta característica mesmo que não apresentassem qualidade de passe. Consequentemente, jogavam especialistas em desconstrução, tanto das ações ofensivas do adversário como das ações da própria equipe.

Pergunto: será que a realidade do futebol brasileiro está mudando? Se assistirmos aos milhares de jogos das categorias de base ou do futebol profissional espalhados pelo país, quais são os comportamentos individuais predominantes observados nos volantes?

A explicação para a escolha dos volantes “brucutus” resume-se ao fato dos mesmos protegerem bem o corredor central e impedir que o adversário seja criativo, nem que para isso princípios de jogo pouco requeridos no futebol moderno, como a marcação individual, sejam utilizados.

Mais uma vez, a questão não é a obrigatoriedade de jogadores com estas características. Prandelli conseguiu mostrar sua ideia de jogo, combinando comportamentos individuais e coletivos que permitiam Pirlo como volante central sem perder o tradicional poderio defensivo italiano.

Enfim, ter centroavante e/ou volante “brucutus” são apenas algumas das verdades absolutas existentes no futebol. Se, na vida, as verdades (com o avanço da ciência, do conhecimento, das pesquisas, da prática) mudam constantemente, no futebol a realidade não é diferente.

Que nossas cabeças estejam dispostas à mudança! Seria um grande passo para desfazermos outras verdades absolutas do futebol, como a simultaneidade do apoio dos laterais, ou então a altura mínima dos goleiros e dos zagueiros.

Quanto ao Mourinho, prefiro acreditar que ele gostaria de enfraquecer o futebol espanhol ao pedir um centroavante e, dessa forma, dar mais chances ao selecionado português. Lembrem-se que no futebol, e na vida, não existem verdades absolutas!