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Archive for agosto 2012

Os princípios e a leitura de jogo

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11 jogadores, 1 jogo (ou mais jogos?) e os equívocos que geram desorganização nas equipes brasileiras

Durante o recesso dos campeonatos europeus, os olhares se voltaram para o futebol brasileiro. E tanto nos campeonatos nacionais, como nos estaduais de divisões inferiores, poucos minutos de acompanhamento por jogo são suficientes para a constatação de que muitas de nossas equipes estão aplicando princípios de jogo de maneira incoerente e os jogadores executando (demasiadamente) leituras de jogo equivocadas.

Os estudos do futebol apontam que para uma equipe apresentar/manter um bom desempenho ela deve convergir (e ter coerência) em seus princípios de jogo para cada um dos momentos do jogo. Tais convergências e coerências (que não podem perder a relação com o Todo e com a Lógica do Jogo) fazem com que os comportamentos individuais e coletivos pretendidos sejam mais facilmente aplicados e, dessa forma, o sistema-equipe se mantenha mais organizado.

É comum observar equipes que pretendem jogar em posse, mas não têm os onze jogadores posicionados no campo de ataque para circular a bola enquanto buscam a finalização. Sem os onze jogadores no ataque, as coberturas ofensivas, a superioridade numérica e a formação de triângulos (que dão coerência ao jogar em posse) ficam mais difíceis. Facilitar o comportamento de manutenção da posse implica zagueiros com qualidade de jogo no campo ofensivo, quesito raramente observado em nosso futebol.

Também é comum observar equipes que, dentro de casa, estão operacionalmente orientadas para buscar a recuperação da posse de bola. Com pressões individuais, ausência de referências espaciais ou atitudinais para a pressão e excessiva distância entre linhas, este comportamento se mostra, frequentemente, pouco eficaz.

Já fora de casa, observam-se equipes orientadas para impedir progressão. Para dar coerência a este princípio, a gestão do espaço entre bola e alvo, a recomposição, a boa flutuação e o direcionamento para setores de menor risco são fundamentais. O que se observa, porém, é um acúmulo desordenado de jogadores próximos à bola, a negligência ao espaço e a atenção excessiva ao adversário como referência para marcação.

Quanto à transição ofensiva, para aquelas equipes que buscam a retirada vertical do setor de recuperação, pedem-se leitura e passe de quem recuperou a posse, um balanço ofensivo bem posicionado e jogadores que buscam deslocamento ofensivo para receberem a bola em setores mais próximos do alvo adversário. É mais comum, no entanto, a falta de recurso técnico-tático para a transição, o mau posicionamento dos jogadores responsáveis pelo balanço ofensivo, que ignoram sua função defensiva quando se encontram à frente da linha da bola e a lentidão dos jogadores distantes dos setores de recuperação que dariam sentido à pretendida retirada vertical.

E na transição defensiva, para as equipes que buscam a recuperação imediata, ao invés de serem detectados a pressão coletiva de espaço e tempo na região em que se perdeu a posse de bola e o rápido mecanismo de fazer campo pequeno a defender, a prevalência é de ataques isolados à bola, combinados com perdas preciosas de segundos para mudanças de atitude por parte de alguns jogadores.

Toda esta incoerência na aplicação dos princípios de jogo exemplificados evidenciam os graves problemas de leitura de jogo que acometem o jogador brasileiro. Num olhar direcionado para as individualidades do sistema é certo que para o mesmo problema os jogadores apresentem quatro, cinco ou seis respostas diferentes. A equipe joga apenas um jogo e a diferente leitura expressa pelos jogadores resulta numa unidade coletiva desorganizada. Um grande passo para o insucesso de um treinador.

Enquanto nos nossos treinos não predominarem a resolução de situações-problemas, vinculadas ao Todo e à Lógica do Jogo, o cenário não irá mudar. Enquanto não buscarmos uma leitura de jogo coletiva e maiores previsibilidade e ordem aos imprevisíveis problemas do jogo, nosso desempenho seguirá minimizado. Teremos, por exemplo, que suportar scouters do futebol europeu debocharem do futebol brasileiro ao mencionarem que nosso jogo está taticamente ultrapassado, de seis ou sete copas atrás. Ou então, corroborar com Tostão que aprecia o jogo europeu, pois vê mais jogadores procurando o passe. Chegamos ao triste ponto de, neste ano, uma equipe comemorar um título tendo vibrado durante o jogo ao se desfazer da bola com um chutão.

Percebam que a discussão parou na coerência dos princípios. Imaginem se nas análises forem consideradas suas inter-relações…

O nosso futebol merece mais! Capriche no seu treino!

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Written by Eduardo Barros

27 de agosto de 2012 at 21:58

A vertente emocional e mais um argumento para o treinamento com jogos

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Descobrir e intervir nas respostas de seus atletas que somente são expressas jogando

Antes de iniciar as discussões acerca do tema desta semana, gostaria de parabenizar a iniciativa de alguns profissionais do futebol que têm utilizado as redes sociais para a troca e propagação de conhecimento relativo a uma das tendências metodológicas do treinamento em futebol, mais especificamente da Periodização Tática. Tenho acompanhado muitas das atualizações, porém, não tenho comentado por já possuir um espaço em que posso, de certa forma, colocar minha visão do mundo, ou melhor, do futebol. Além disso, não seria correto opinar e não ter tempo suficiente para avançar em discussões.

O fato é que nota-se, nas leituras que faço cotidianamente, a intenção positiva dos profissionais em propor algo mais ao nosso futebol que, também notoriamente, está clamando por melhorias.

Em certos momentos percebi que alguns assuntos foram tão polêmicos a ponto de gerarem comentários mais ásperos. Penso que a divergência de opiniões é fundamental para o crescimento de todos e não há nada melhor que bons argumentos (teórico-práticos) para enriquecer e contribuir na eterna formação que deve ser nossa existência. Sugiro, apenas, como seres humanos que somos (nunca agindo somente racional ou emocionalmente), que reflitam ao optarem por reações equivocadas (colocações ásperas) que somente limitam a construção de um novo futebol.

E agora, iniciando o tema e buscando constantemente a construção de um novo futebol, lanço a seguinte pergunta: como você treina a vertente emocional de sua equipe?

Quando alguém joga futebol, representa em cada ação seu comportamento tático-técnico-físico-emocional diante dos problemas impostos pelo jogo. Para problemas semelhantes, na grande maioria das vezes, os atletas apresentam respostas também semelhantes. Exemplificando, aquele atleta que se omite do jogo quando a situação está adversa (problema) continuará se omitindo (resposta) na maioria das vezes que tal situação se repetir.

E como sabemos, a omissão não é o único comportamento evidenciado em uma partida. Diferentes situações como, torcida, placar do jogo, decisão do árbitro, cobrança de companheiros, atitudes do rival, local do campo, jogada anterior, peso da competição e tradição do adversário, potencializam o desencadeamento de inúmeras reações emocionais (e não só emocionais) em cada um dos participantes de um determinado jogo. Além de omissão, possivelmente por medo, raiva, confiança, insegurança, euforia, nervosismo, ansiedade, coragem e tranquilidade são exemplos de alguns comportamentos emocionais manifestados pelos seres que jogam.

Para você que é treinador de um clube de categoria de base, quantos jogadores de sua equipe “sentiram o jogo” ao enfrentarem um clube grande?

Outra pergunta, mais especificamente para quem trabalha com algum rebelde, quantas vezes este atleta se desligou do jogo após uma cobrança sua ou dos companheiros de equipe?

E você, que assistiu à final dos jogos olímpicos? Reparou em comportamentos emocionais distintos (com o placar desfavorável) dos evidenciados ao longo da competição?

Então, qual é o método de treino capaz de aproximar os problemas (não só emocionais) do Jogo no treino? O método que utiliza jogos, obviamente.

Como o treinamento com Jogos utiliza fractais do Futebol para preparar a equipe, a essência e os pressupostos do jogo (desequilíbrio, imprevisibilidade, desafio e representação) são mantidos. Dessa forma, os atletas continuamente são expostos (no treino) aos problemas que podem (e vão) se repetir no jogo.

Infelizmente, não conseguimos recriar no ambiente de treino a totalidade das características que envolvem um jogo oficial, mesmo assim, a possibilidade de confrontar a todo o momento erros e acertos da equipe, vantagem e desvantagem no placar, erros e acertos do árbitro (técnico), ou até o comportamento nas transições ofensivas e defensivas, permite uma leitura precisa de cada um dos atletas.

Com a leitura desta vertente da equipe em mãos, a comissão tem mais uma boa ferramenta para periodizar o seu jogar.

Concluindo, não confundam a discussão do tema com a dispensa do psicólogo no grupo de profissionais que integra uma equipe. Acredito que seu papel é de uma assessoria na educação (eterna formação) do indivíduo para além do desporto. É a profissão que nos orienta para o autoconhecimento. Tema (quem sabe) para uma coluna futura.

A várzea forma melhor que os clubes brasileiros?

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Questão polêmica nos permite reflexões e aprendizados. Qual a sua opinião?

Certa vez encerrei uma de minhas colunas com a seguinte pergunta: a várzea forma melhor que os clubes brasileiros?

Na ocasião já deixava em pauta (para reflexão) um tema que tem, com os Jogos Olímpicos de Londres, um momento bem pertinente para abordá-lo.

No futebol masculino, dois atletas brasileiros tem se destacado na campanha que levou a seleção à final dos jogos diante do México.

O primeiro deles é Leandro Damião, que até a final havia marcado seis gols e estava isolado na artilharia da competição. Numa busca da história profissional do atleta, que tem 23 anos, podem ser extraídas algumas informações interessantes.

Reprovado em diversas peneiras de grandes clubes do futebol brasileiro, o atacante conseguiu espaço no futebol catarinense e foi uma das revelações do campeonato estadual de 2009 pelo Atlético de Ibirama-SC.

Havia ingressado no clube aos 18 anos, já em fase final de formação, e em menos de duas temporadas foi negociado junto ao Internacional-RS. Com a manutenção de seu desempenho e dos gols, num curto espaço de tempo chegou à seleção brasileira.

Com seu poder de posicionamento-remate, Leandro Damião integra a reduzida lista dos melhores centroavantes do futebol brasileiro na atualidade (que ultimamente, além de meias, também tem recorrido a atacantes estrangeiros).

Ver que um atleta chegou à seleção brasileira sem ter passado um período de formação em qualquer categoria de base (ao menos assim é a informação divulgada) permite alguns questionamentos e reflexões:

Será que os clubes brasileiros não estão conseguindo formar jogadores de alto nível para compor seu elenco principal e, inclusive, o da seleção?

Quais competências de Leandro Damião foram adquiridas na várzea que permitem que o atacante seja um dos melhores da função no futebol nacional?

É possível sistematizar o ensino de tais competências na base para aumentar o número de jogadores com potencial para servir à seleção brasileira?

Será que os clubes brasileiros, muitas vezes, retiram o Jogo dos nossos atletas e fragmentam o futebol (e os treinamentos) em suas quatro vertentes, distantes da realidade competitiva? Será que este não pode ser um dos grandes motivos da ausência de melhores jogadores no nosso futebol?

Mudando de assunto para o segundo atleta, menciono Neymar e suas atuações nos jogos olímpicos. Após um período de desempenho não excepcional, em que foi bem marcado na Libertadores pelos adversários estrangeiros das fases finais e pelo Corinthians (que tem os melhores princípios de jogo defensivos do futebol brasileiro), mais de um veículo de comunicação elogiou o atleta. Segundo a mídia esportiva, mesmo diante da sua limitação de análise de jogo, mas respaldada pela opinião de Mano Menezes, o jogador está mais coletivo, solidário e evitando o drible (e a consequente perda) quando bem marcado.

O fato é que muitos têm afirmado que o período que Neymar tem passado com a seleção tem feito bem para o seu crescimento profissional.

Sabemos que o tempo em que os atletas ficam com as seleções, seja de base ou principal, são curtos e que muitas vezes o tempo de preparação para as competições são insuficientes. Diante disso, no tempo que está no cargo, Mano Menezes tem tentado desenvolver uma cultura de jogo que seja aplicada do sub-15 à seleção principal. Em médio-longo prazo este trabalho pode trazer resultados (não me refiro somente às vitórias). Enquanto isso, Neymar logo voltará ao seu clube e, se mal orientado, velhos comportamentos de jogo podem vir à tona.

Para facilitar o trabalho de Mano (e ele já afirmou isso em várias oportunidades), é urgente o desenvolvimento nos clubes de uma Filosofia condizente com os princípios de jogo do futebol moderno. Infelizmente, ainda vemos vários exemplos de projetos embrionários, ou então, inexistentes.

Se o cenário dos clubes assim permanecer, logo terei que publicar outra coluna. Desta vez, intitulada:

A seleção forma melhor que os clubes brasileiros?

Seria somente mais uma inversão de valores do nosso, muitas vezes, confuso futebol!

O papel do treinador na dimensão individual – Parte I

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A simplificação do problema no treino não irá resolvê-lo no Jogo

Somos unânimes quanto aos objetivos do treinamento. Na sua operacionalização, porém, aplicamos meios e métodos distintos, baseados em nossas experiências, crenças e conhecimentos teórico-práticos, na constante busca pelo aperfeiçoamento da nossa equipe.

Quem procura atuar a partir de uma perspectiva sistêmica deve respeitar o conceito dos fractais, já discutido em outra coluna, em que toda situação de treino criada deve ser uma parte representativa do Todo. Como o Todo, na essência, é Jogo, é fundamental que os treinos assumam essas características para que o princípio da especificidade seja contemplado.

E numa comissão técnica que assume (ou ao menos tenta assumir) uma periodização que tenha as situações de jogo como norteadoras do planejamento de treinos, dúvidas (naturais) surgem ao longo do desenvolvimento do trabalho.

Dentre essas dúvidas, uma parece ser predominante: a necessidade de realizar exercícios técnicos diversos (finalizações, cruzamentos, cabeceios) para complementar o trabalho. Sob esta ótica, acreditam que os erros individuais das ações técnicas do jogo serão corrigidos simplesmente com a repetição destas “mesmas ações” em situações de treino analíticas.

As justificativas para fazerem este complemento são bem variadas e abrangem além da destacada necessidade do aprimoramento técnico, a necessidade do atleta adquirir confiança na repetição do gesto e até a opinião do próprio treinador que pode não ter visto essas “mesmas ações” ao longo dos treinamentos e, portanto, realiza o complemento.

Influenciados pelo pensamento tecnicista, muitos treinadores simplificam o real problema de suas equipes. Simplificam, pois essas “mesmas ações” reproduzidas em exercícios analíticos, na verdade, estão muito distantes dos problemas impostos pelo jogo.

Quantas vezes você já viu um atleta finalizar seis bolas em sequência, todas aproximadamente na mesma distância do alvo? Acontecem quantas vezes num jogo a ida de um lateral a linha de fundo em que ele ergue a cabeça, vê que na área só tem companheiros de equipe e que ele deve cruzar a bola sem que o goleiro possa interceptar o cruzamento? E o volante que inverte uma bola sem qualquer pressão de espaço e tempo no setor que, no jogo, é o mais ocupado do campo?

Não significa que devemos retirar esses complementos que incidem sobre a dimensão individual da equipe e sim contextualizá-los (e aí eles deixam de ser complementos e fazem parte da periodização) com a realidade do Modelo de Jogo da equipe e, mais do que isso, do próprio Jogo.

Inicialmente, o treinador deve refletir se os erros observados que ele pretende corrigir tem origem exclusivamente técnica. Reitero a afirmação de outras colunas sobre os problemas do jogo (tático-técnico-físico-mentais) que são tantos para cada um dos seus onze jogadores, que é equivocado reduzirmos à somente uma vertente.

Então, uma vez que treinos (jogos) mais complexos, que envolvam maior número de jogadores e grandes princípios de jogo, podem não proporcionar a densidade de ações pretendida para um determinado problema de dimensão individual e diante do que foi abordado, qual pode ser a solução para o treinador corrigir problemas com essa origem?

A solução está nos Jogos Conceituais!

A partir das quatro situações hipotéticas abaixo, indicarei atividades conceituais que incidirão predominantemente sobre o problema.

1º Um centroavante precisa fazer mais penetrações;

2º Um meia não tem buscado a recuperação imediata da posse de bola após sua perda;

3º Um lateral tem errado muito as decisões quando chega à linha de fundo;

4º Um meia tem finalizado pouco.

Como o objetivo da coluna não é de trazer respostas prontas, antes de apresentar minhas sugestões, aguardo sua opinião, caro leitor.

Abraços e bons treinos!

Written by Eduardo Barros

4 de agosto de 2012 at 8:43