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Archive for novembro 2012

Treinando a transição defensiva

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Parte quatro da sequencia de colunas auxilia a criação de treinos para este momento do jogo

As melhores equipes do futebol mundial apresentam a grande capacidade de todos os seus atletas lerem o mesmo jogo inclusive em circunstancias potencialmente caóticas. Um meio de aperfeiçoar a inteligência coletiva para estas situações é expor, nos treinamentos, os mais variados problemas em situações de jogo afim de que, em competição, a resposta pretendida pelo treinador seja eficazmente aplicada.

Mais do que abordagens, orientações e cobranças para os comportamentos de transição defensiva, criar jogos que para vencê-los seja necessário um bom nível coletivo de recuperação imediata da posse ou recuperação a partir de determinada(s) referência(s) do jogo (que são as duas referências operacionais possíveis), é indispensável. Com a criação de um ambiente imprevisível, aumentam-se as possibilidades de dar maior ordem à desordem que a perda da posse gera em uma equipe.

Para auxiliá-los na elaboração de treinamentos que enfatizem esse momento do jogo, a coluna desta semana irá apresentar algumas opções de regras que, como já foi abordado nas colunas anteriores sobre este tema, se bem distribuídas nas formas de pontuação do jogo, podem ser uma ótima ferramenta para construir o jogar pretendido.

Então, para treinar a Recuperação Imediata da posse de bola, as seguintes regras podem ser utilizadas para compor o jogo:

  • Após a perda da posse de bola no campo de ataque, estabelecer um tempo entre 5 e 10” para que a equipe que perdeu a bola recupere a posse caso contrário o adversário recebe uma pontuação. Esta regra faz com que a equipe que perdeu a posse busque-a novamente o mais rápido possível, além de proporcionar um ambiente de cobrança mútua uma vez que a não recuperação acarreta em ponto para o oponente. Caso na sequencia da jogada a bola saia para lateral ou linha de fundo antes do término da contagem, zera-se a mesma e o jogo segue sem que ocorra pontuação para esta jogada;
  • Na medida em que este comportamento se aperfeiçoar a regra pode ser estendida para todo o campo com algumas adaptações. Caso a perda da posse ocorra no campo de ataque, inicia-se a contagem, porém, o adversário só irá pontuar se após o tempo pré-determinado tiver ultrapassado o meio campo. Já se a perda ocorrer no campo de defesa inicia-se a contagem, no entanto, só valerá a pontuação caso a posse de bola se mantenha no setor ofensivo. Estes ajustes fazem com que a equipe que recuperou a posse não adote um comportamento de retirada da zona de pressão que fuja à Lógica do Jogo.
  • Outra sugestão é adotar um tempo menor para as perdas de posse de bola ocorridas no campo de defesa em comparação as ocorridas no campo de ataque;
  • Dividir o campo em vários quadrantes e beneficiar com um ponto a equipe que perder a posse de bola no campo de ataque e conseguir recuperá-la no mesmo setor que havia perdido.
  • Com o cumprimento desta regra em um nível ótimo, as regras do jogo podem evoluir para a pontuação somente se houver um grupo de dois ou três jogadores no setor em que se recuperou a posse, direcionando as abordagens para a importância de um mecanismo coletivo e não individual de transição defensiva. Em estágios avançados, com o campo dividido em faixas horizontais e verticais, a pontuação pode ser dada somente se a equipe conseguir fazer o “campo pequeno a defender” simultaneamente a tentativa de recuperação da posse. Para verificar o posicionamento coletivo que vale a pontuação, pode ser definido um número máximo de faixas verticais e horizontais consecutivas que os jogadores devem ocupar. É uma excelente regra para transmitir o conceito de unidade complexa (não precisa utilizar este termo com os jogadores) à equipe. Pressionar a região que se encontra a bola e diminuir os espaços no interior da equipe é muito eficaz desde que todos os jogadores compreendam quais são suas ações de acordo com o posicionamento da bola, adversário, alvo, região do campo e companheiros. Manter todos estes elementos e criar situações de jogo que valem ponto quando realizados os adequados comportamentos coletivos, reforçam as ideias de jogo do treinador.

Percebam a diversidade de jogos com níveis de complexidade diferentes que podem ser elaborados somente para um momento do jogo e, mais especificamente, referentes a um comportamento de transição defensiva. Para a Recuperação a partir de outras Referências do Jogo existem várias possibilidades e que serão sugeridas em outra oportunidade.

Para concluir, muitos podem questionar qual das duas opções é melhor treinar. De acordo com alguns estudiosos do futebol, a princípio, não existe comportamento de transição melhor ou pior. Depende, somente, do jogo que você quer (ou pode) jogar.

Só não vá fazer como alguns treinadores que nas transições defensivas de suas equipes saem aos berros cobrando comportamentos que não treinou. No jogo pode ser tarde demais! Decida-se e treine.

(com as regras certas que favoreçam a dinâmica do seu jogo).

Abraços e até a próxima semana!

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Mais discussões sobre a Periodização Tática: por vezes ela não se distancia do jogo?

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Modelo de Periodização é uma (e não a única) das alternativas para quem objetiva um jogar complexo

Discutir Periodização Tática no atual cenário futebolístico brasileiro é significativamente polêmico. Um grupo de profissionais do futebol tem aversão aos conteúdos científicos ou a quaisquer outros que necessitem muitas horas de estudo e leitura. Então, mencionar essa expressão para este nicho, pode afastá-lo de um networking necessário no mercado. Outro grupo, influenciado pelas literaturas acadêmicas acerca do treinamento desportivo tradicional, não consegue compreender, devido a uma crença limitante, a dimensão física do jogo vista e treinada sob outra perspectiva.

Existe ainda o pequeno grupo que “bebeu da fonte” e pode aprender sobre esse modelo de periodização diretamente com o seu mentor, Vítor Frade, em Portugal e, por último, um grupo de profissionais que mesmo do Brasil tem acesso aos materiais publicados referentes à Periodização Tática e os utilizam para pensar a prática.

Ao compor este último grupo, fica o receio de abordar superficialmente o conteúdo teórico desenvolvido por Frade, que é objeto de estudos de muitos universitários portugueses, e ser duramente criticado por aqueles que são peritos na operacionalização da PT em seus cotidianos de trabalho.

Receio à parte, como estudioso do futebol (e não pesquisador) e treinador que busca a melhor atuação possível, preciso assumir o risco e propor novas discussões que permitam trocas de conhecimento, evolução da intervenção prática de todos e, consequentemente, melhorias futuras no futebol brasileiro (pois, no presente, muitos que estão à frente de grandes equipes do nosso país compõem o grupo dos que são avessos ao conhecimento científico).

Meus estudos aprofundados sobre a PT iniciaram em 2010 e, desde então, procuro correlacioná-los com minha prática, que tem grande influência dos estudos coordenados pelo Dr. Alcides Scaglia e que evoluiu para o desenvolvimento da Metodologia Futebol Arte. Tal metodologia é aplicada nas categorias de base do Paulínia FC-SP e, em 2012, também foi aplicada no profissional do Grêmio Novorizontino-SP.

Para a Periodização Tática, todo exercício de treino deve ser realizado em função do Modelo de Jogo pretendido. Sendo assim, de acordo com o dia da semana referente ao morfociclo padrão, estimulam-se os princípios, ou sub-princípios, ou sub-sub-princípios de jogo que, respeitando os princípios metodológicos, proporcionam o aumento de performance individual e coletiva.

Por tudo que vi e li acerca da PT, é possível afirmar que não são todos os exercícios que são jogos apesar de manterem a devida relação com o Modelo de Jogo.

Deixo, então, uma questão para discutirmos: se o futebol, em essência, é jogo (com todos os elementos que o constitui), quando a PT “abre mão” deste ambiente, criando exercícios analíticos, sem oposição, com pouco estorvo ou previsíveis, não está se distanciando significativamente do jogo de futebol?

Não pretendo com essa discussão privilegiar a Metodologia Futebol Arte em detrimento da PT, uma vez que a primeira ainda dá seus primeiros passos com Alcides Scaglia e Cristian Lizana na Unicamp, campus Limeira e enquanto a segunda possui muito material qualificado publicado. Pretendo, somente, provocar reflexões dos exemplos práticos que podem ser observados nas apresentações, congressos, blogs, livros, monografias e que “perdem força” quando analisados sob o princípio da especificidade.

Quando vejo um exercício analítico de finalização, por mais que mantenha a estrutura posicional dos jogadores e lhes orientem quanto ao posicionamento dentro da área, confronto-o com o jogo de futebol e os constantes desafios que lhe são impostos. Inexistentes num treino de finalização como o mencionado.

Quando leio sobre um treino de um grande princípio de jogo, por exemplo o de circulação da posse, com troca previamente combinada de passes, questiono-me sobre a imprevisibilidade que é inerente ao jogo e também inexiste na atividade em questão.

São apenas dois exemplos de muitos outros que poderiam ser identificados, inclusive sobre os outros pressupostos para o ambiente de jogo: representação e desequilíbrio.

Não tenho dúvidas que o domínio conceitual da Periodização Tática é indispensável para uma boa atuação de qualquer gestor de campo. Sua fundamentação teórica emerge do pensamento complexo, o que justifica a necessidade de compreensão.

Que fique claro, também, que a PT não é o único modelo de periodização sistêmico. Rodrigo Leitão, com a Periodização Complexa de Jogo, a Periodização de Jogo que está sendo desenvolvida por Alcides e Cristian, ou até algum outro modelo de periodização ainda não sistematizado, mas que seja desenvolvido por algum treinador numa perspectiva ecológica, devem ser considerados.

Que as respostas e reflexões de vocês, leitores, sirvam para fomentar novas discussões como a que provocarei em algumas semanas.

Combinação dos métodos de treino: necessidade ou dificuldade para planejar os treinos?

Abraços e até a próxima semana.

A construção de referências coletivas

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Desenvolvimento ideal dos comportamentos de jogo eleva o nível da equipe

Uma das grandes justificativas para a utilização do jogo no processo de treinamento em futebol deve-se à possibilidade de, através dele, induzir os jogadores, por meio de adequadas intervenções, a um nível de aplicação de comportamentos de jogo individuais e coletivos que com outros métodos de treino demorariam muito mais tempo para serem construídos.

Nesse sentido, as ações de cada elemento da equipe respeitam certos princípios e regras que tendem a dar ordem ao sistema e que, se estiverem em direção à Lógica do Jogo criado, irão aproximar a equipe da vitória.

Incontestavelmente, treina-se futebol para aperfeiçoar o nível de desempenho atual. Em contrapartida, o que já não pode ser definido como consenso é o modo que as comissões técnicas do futebol brasileiro desenvolvem suas periodizações e as operacionalizam. A julgar pelo baixo número de referências coletivas comuns apresentadas por nossas equipes na atualidade é possível concluir que os jogos (e a necessária indução) não estão sendo utilizados.

Conforme discussão semelhante de semanas atrás, quando nossas equipes recuperam a posse de bola no setor defensivo, é comum observarmos em muitas delas, dois ou três jogadores se omitirem da ação de transição ofensiva e posterior ação ofensiva. Se, por circunstância do jogo os omissos acabam sendo acionados, restam-lhe os chutões – comportamento que não precisa de jogo qualificado para ser treinado.

Outro grande problema que escancara nossa distância do nível de jogo elaborado é a ação realizada após a perda da posse de bola no campo de ataque. Enquanto dois, três ou até quatro jogadores arriscam uma pressão desordenada no portador da posse de bola (o que pede uma distância não excessiva entre linhas da equipe de modo que a mesma não fique “espaçada”), um outro grupo de jogadores (que já não subiu o bloco) recua ainda mais na ânsia de proteger o gol, ou então, procura adversários distantes da bola para “ir à caça”.

Em organização defensiva a situação é deprimente. Não é difícil observar uma distribuição semelhante a que será identificada a seguir em relação à estratégia defensiva adotada: dos dez jogadores de linha, um não marca ninguém e, quando marca, ataca o portador da bola de qualquer maneira; três ocupam o espaço e marcam individualmente os jogadores que estão na sua área de atuação; dois acompanham até o final a descida dos laterais adversários e outros quatro alternam aleatoriamente combates desordenados, proteção do gol e marcações individuais.

Mas como modificar esses comportamentos de jogo? Qual a solução que pode ser posta em prática afim de que melhore o nível de organização do nosso futebol?

A solução está no elemento central da periodização: o nível de jogo atual da equipe.

Hipoteticamente, uma determinada equipe apresenta um nível de jogo “X” identificado em cada um dos momentos do jogo.

Se, para um determinado momento do jogo o treinador espera algum comportamento coletivo e o mesmo não está acontecendo com a frequência e qualidade de ações pretendidas, fica evidente que no referido problema a equipe (unidade complexa) não está conseguindo interpretá-lo e resolvê-lo. Não consegue, pois os jogadores (elementos da unidade complexa) estão enxergando o problema de forma diferente. Como enxergam o problema de forma diferente, consequentemente responderão a ele também de forma diferente. Em termos sistêmicos, o produto/resposta será o “todo desorganizado”.

Esta equipe de nível de jogo “X” precisa de um treinador que identifique as falhas circunstanciais apresentadas nos momentos do jogo e que elabore as sessões de treino ideais para corrigi-las.

E as correções passam, necessariamente, pela construção de referências coletivas comuns para os onze jogadores.

Se o treinador conseguir fazer com que toda sua equipe, durante o maior tempo possível, jogue o mesmo jogo, o upgrade de organização será notável.

Com bons treinos e intervenções, gradativamente os jogadores passarão a apresentar o mesmo padrão de comportamento nas situações que se repetem no jogo e nos diferentes problemas do jogo. Então, a partir das diferentes referências do jogo (bola, alvo, adversário, espaço, ou qualquer outra que a comissão deseje criar), que serão comuns a todos os jogadores, um novo nível de organização está estabelecido.

Em toda essa construção, não se pode esquecer que os objetivos do treino devem incidir nas partes (fractais) específicas do jogo e que favoreçam o cumprimento da Lógica do Jogo. Somente dessa forma a construção das referências coletivas faz sentido.

Para exemplificar, como exemplos de referências coletivas: linha de marcação, zonas de pressing, perda da posse da bola, adversário chegar à faixa lateral próximo à zona de risco, escanteios à favor, recuperação da posse de bola, zonas de finalização, entre outras.

Quais referências coletivas você já construiu em sua equipe?