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Archive for fevereiro 2013

A formação dos goleiros e os momentos do jogo

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Desempenho integral desta posição é fundamental para a manifestação coletiva da inteligência de jogo

goleirosCom a evolução do jogo de futebol e sua compreensão a partir das teorias da complexidade, admite-se que a contribuição de cada jogador (unidade funcional) para o bom desempenho da equipe (sistema complexo) seja dada pela totalidade (ofensiva, defensiva e transições) que compõe o jogo.

Desta forma, tem-se como pré-requisito a participação efetiva de todos em cada um dos momentos do jogo, respeitando, obviamente, as particularidades de cada Modelo, o conceito de que o todo deve ser maior que a soma de suas partes e as regras de ação referentes a cada uma das funções no campo de jogo.

Como no futebol brasileiro, para muitos, a compreensão/intervenção sistêmica está longe de ser atingida, as implicações no jogo resultam num desempenho coletivo aquém do apresentado pelas equipes-referência do futebol mundial.

Se considerarmos as equipes que buscam o controle do jogo com a troca de passes enquanto progridem o mais rápido possível ao gol adversário e que as mudanças do futebol profissional dependem do que é feito hoje nas categorias de base, precisaremos, com urgência, readequar os treinamentos dos goleiros nos centros de formação espalhados pelo país.

Pelo que se tem observado na maioria dos clubes, a preocupação em relação aos goleiros se dá, exacerbadamente (muitas vezes exclusivamente), no momento defensivo. Porém, a mencionada evolução do futebol pede goleiros completos, inteligentes e participativos nos demais momentos do jogo.

Para saber como estão as preocupações da comissão técnica quanto à formação e ao treinamento dos goleiros, abaixo, algumas perguntas:

Em qual local o seu goleiro fica quando sua equipe está em posse no campo de ataque?

O seu goleiro usa bem os pés?

Das reposições que seu goleiro faz no jogo, quantas a equipe se mantém com a posse de bola?

Quantas reposições são feitas no campo de ataque?

Quantas reposições são feitas no campo de defesa?

Quanto tempo o goleiro demora para fazer a reposição?

Quantas coberturas defensivas o goleiro realiza por jogo?

O goleiro escolhe a melhor opção para fazer a reposição?

Quando a equipe está no campo de defesa sem opção de passe ofensivo, o goleiro abre linha de passe adequadamente para ser uma opção na circulação da posse de bola?

Se você é treinador e não está atento a nenhuma destas questões, provavelmente sua equipe irá se desfazer da posse de bola quando a mesma estiver com o seu goleiro ou, no máximo, irá brigar pela “segunda bola”.

Se você é treinador de goleiros e para você estas questões são pouco importantes, provavelmente você faz parte do grupo que se preocupa somente com o momento defensivo do jogo.

Se você é preparador físico ou auxiliar técnico, é evidente que para cada erro a equipe terá que correr mais até recuperar a posse de bola. Tal fato precisa ser registrado.

Se não modificarmos a maneira que interpretamos o jogo, continuaremos formando goleiros com gestual técnico perfeito, potentes, com boa velocidade de reação e com boa tomada de decisão para ações defensivas. No entanto, teremos que estar cientes que ignoraremos a inteireza do jogo.

Com uma visão sistêmica, entenderemos as funções do goleiro sob o viés coletivo, onde o sucesso de sua ação de jogo individual dependerá, por exemplo, da rápida mudança de atitude dos laterais para facilitar a reposição, do bom posicionamento do zagueiro para facilitar circulação ou da pressão de espaço e tempo dos meias e atacantes na região em que se encontra a bola para facilitar a cobertura defensiva no chutão do adversário.

Como você treina o seu goleiro?

Written by Eduardo Barros

28 de fevereiro de 2013 at 20:42

O peso das derrotas

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Algumas reflexões a partir de um difícil momento profissional

Caros leitores,

DerrotaTrabalhar no futebol é conviver diariamente com a instabilidade profissional. Seja por questões políticas, administrativas ou técnicas, motivos (???) não faltam para que ocorram trocas constantes nas milhares de comissões técnicas espalhadas pelo país. Como sabemos, um motivo em particular potencializa tal instabilidade: as derrotas.

E é sobre elas que discorrerei esta semana.

Sentar, refletir e escrever quando os resultados são favoráveis é muito mais simples. As ideias surgem com fluidez, os argumentos não faltam e as vitórias (para muitos, somente elas) respaldam cada parágrafo que vai sendo produzido.

Se na última temporada a equipe em que trabalho foi derrotada somente por três vezes em vinte e oito jogos, no cenário atual, após quatro partidas, os três resultados negativos consecutivos (3×0; 3×4 e 3×2) já se equivalem aos reveses de 2012.

Tais resultados negativos causaram reações diversas em todos (imprensa, diretoria, atletas, comissão técnica, torcida). Da insegurança dos jogadores à revolta da imprensa que já questionou a permanência do treinador, o momento pede que a derrota seja bem gerida. Para uma boa gestão do fracasso temporário, analisar TODO o ambiente e tentar ser preciso nos procedimentos até o jogo seguinte é fundamental.

Durante a análise do ambiente, muitas reflexões vêm à mente sobre o que fazer diante das derrotas. Eis algumas delas:

Será momento de mudar a maneira que o trabalho é conduzido? Será momento de achar culpados e transferir as responsabilidades do resultado negativo? Será momento de rebater as críticas que temos recebido? O momento pede (tentativas de) substituições significativas no Modelo de Jogo? O momento pede mudanças de jogadores? O momento pede cobranças excessivas aos jogadores? O momento pede contratações?

Além destas, inúmeras outras perguntas certamente renderiam horas e horas de discussão. Como no futebol não há muito tempo para conversa, após um bom diálogo com o treinador, iniciamos os trabalhos da semana cientes de nossas funções na tentativa de revertermos o quadro atual.

É uma semana de pressão, que deve ser amenizada pela comissão para que os jogadores não transportem esta carga para o jogo de domingo. É uma semana de muito trabalho, nem mais, nem menos que nas semanas anteriores, “apenas” muito trabalho. Semana de um maior número de intervenções, de reforços positivos, de feedbacks.

Semana em que a crise não pode ser instalada, a cobrança deve incentivar a melhora e que a vontade de vencer potencializada no ambiente de treino não se confunda com desespero ou desorganização.

É também uma semana de ouvir os jogadores, escutar o que estão pensando, como estão se sentindo e como estão lidando com a adversidade. Ouvir sugestões de melhorias para o desenvolvimento do trabalho pode deixá-los confortáveis para desempenharem o seu melhor.

Você que trabalha com futebol profissional provavelmente já deve ter passado por situações, sentimentos e sensações semelhantes. Como você se comportou? Para você que almeja trabalhar, prepare-se, pois lidar com as derrotas, mais cedo ou mais tarde, será inevitável.

A partir do dia 17/02 todos saberão se os primeiros passos para a reabilitação foram dados. Se sim, estejam certos que um grande peso (o das derrotas) terá saído das costas de todos. Se não, vamos erguer a cabeça e continuar buscando soluções cientes de que fizemos o melhor que poderíamos.

Encerro afirmando que o que escrevi referente à maneira de enfrentar/interpretar as derrotas advém de opiniões formadas por experiências profissionais e pessoais diversas. Leituras, relacionamentos, acertos, erros, práticas, vivências, estudos, formam a totalidade que é a minha existência, expressa, neste caso, na minha atuação profissional.

Que as minhas opiniões não sejam consideradas uma verdade absoluta e que as derrotas nos sirvam, no mínimo, de aprendizado.

Até a próxima semana!

Written by Eduardo Barros

18 de fevereiro de 2013 at 13:17

O treinamento da organização defensiva

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Confira algumas possibilidades de treino para este momento do jogo

defA construção dos comportamentos coletivos de organização defensiva pode ser feita de diversas maneiras. Com um treinamento em forma de situações de jogo, os atletas vivenciam um ambiente semelhante ao da competição e, dessa forma, podem estar mais preparados para responderem adequadamente a imprevisibilidade, inerente ao futebol.

Estudiosos da modalidade afirmam que defender organizadamente é pré-requisito para atacar bem, afinal, ao se cumprir com o objetivo da organização defensiva (recuperação da posse de bola) a equipe deve estar distribuída espacialmente de forma a facilitar a transição e organização ofensivas.

Dando continuidade às sugestões de regras para treinamentos que favoreçam um jogar de qualidade, tema abordado em quatro colunas ao longo do ano passado (parte I, parte II, parte III, parte IV), nesta semana as regras propostas pretendem levar ao aperfeiçoamento da fase defensiva.

Para aperfeiçoar o pressing setorial, lembrando da importância da manutenção da plataforma de jogo da equipe durante esta ação coletiva, seguem as sugestões de regras:

  • Marcar o campo com diversos gols-caixote e dar ponto a equipe que conseguir efetuar um passe certo, ou então conseguir passar com a bola dominada, entre o gol caixote. Distribuir pelo menos quatro gols-caixote ao longo da mesma linha horizontal do campo de jogo. Na medida em que a equipe aperfeiçoar o mecanismo de pressão espaço-temporal, deve-se diminuir a distância vertical entre os gols-caixote. Proteger diversos gols caixote além do gol oficial induz os jogadores a subirem a linha de marcação de acordo com o setor em que iniciará as pontuações;
  • Demarcar setores do campo em que, obrigatoriamente, o adversário deverá ter sido pressionado por mais de um jogador antes de efetuar o passe ou sair do setor com a bola dominada. Caso a pressão (espaço-temporal) não aconteça, a equipe que tem a posse de bola pontua;
  • Demarcar setores do campo que, estrategicamente, são regiões em que a equipe tentará a recuperação da posse de bola. Recuperar a posse nestas regiões, ou o adversário errar um passe com ao menos um defensor na região (na tentativa de forçar o erro) no momento do passe, vale ponto para a equipe que defende;
  • Qualquer troca de passe pra frente vale ponto para equipe que ataca. Se houver quatro passes consecutivos, a pontuação é dobrada. Esta regra pode ser realizada em toda a extensão do terreno de jogo, porém, aconselha-se utilizar a regra, inicialmente, em áreas menores;

Muitas vezes, as ações de reposição e bolas paradas relativamente distantes do gol geram surpresas fatais (que terminam em gols) à equipe que está se defendendo, pois a mesma demora a se organizar após a interrupção do jogo, seja pelo apito do árbitro, seja pela saída da bola. A equipe ter um mecanismo coletivo defensivo que aumente a incidência de recuperações da posse neste tipo de situação pode ajudá-la a cumprir a Lógica do Jogo. Sendo assim, nos treinamento, deve-se punir a ineficiência desta ação defensiva, pois, com o jogo interrompido, a equipe tem condições de partir da organização no caótico sistema-jogo. E como defender é mais fácil do que atacar, a referida organização deve recuperar a posse de bola ou, no mínimo, afastar a bola do próprio alvo.

Abaixo, alguns exemplos de regras:

  • Toda reposição no campo de defesa em que a equipe que estiver com a posse de bola conseguir ultrapassar o meio campo com a bola dominada, por condução ou passe é ponto. Esta regra obriga o rápido posicionamento da equipe sem bola próximo ao setor da reposição, neutralizando adversários e regiões perigosos;
  • Toda reposição de lateral cobrada no campo de ataque verticalmente (no sentido da meta adversária) em que a equipe que está com a posse conseguir dominar a bola, vale ponto;
  • Toda cobrança de falta na região intermediária de ataque (entre as linhas 2 e 3) em que a equipe conseguir trocar dois passes verticais, invadindo o último quarto do campo, equivalem a ponto. Esta regra induz à rápida organização defensiva, evitando cobranças curtas que terminem em cruzamentos ou finalizações.
  • Aumentar a pontuação do gol sofrido a partir de situações de reposição e bolas paradas;

Todo treinamento deve promover o enriquecimento do nível de desempenho coletivo apresentado pela equipe. Com isso, pretende-se que todos os atletas consigam interpretar os problemas que acontecem no jogo da mesma forma e que as interpretações coincidam com aquilo que são suas ideias de jogo. Para facilitar a interpretação dos problemas defensivos por parte dos jogadores, dominar as referências como, regiões do campo, adversários, bolas paradas, reposições e própria meta, será indispensável.

Se este processo for respeitado, seguramente, passos importantes para a vitória estarão sendo dados, pois, ratificando, defende-se bem para atacar melhor!

A formação, o futsal e a especificidade

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Período crítico de aprendizagem não pode ser desperdiçado

FotoDia após dia, a discussão sobre a formação de atletas no Brasil vem ganhando força. Do viés administrativo, relacionado à necessidade de investimentos de infraestrutura e aperfeiçoamento gerencial, ao técnico, correspondente à qualificação do corpo técnico e consequente evolução dos métodos de treino, é nítida a movimentação de pessoas, clubes e instituições que buscam e aplicam novos processos no futebol de base.

Diante deste cenário (que não será modificado mesmo com exemplos recentes de incompetência), dentre os inúmeros temas, um sempre gera calorosas discussões: a importância do futsal na formação de atletas.

A corrente de profissionais que defende a prática deste esporte nas idades iniciais da formação, entre 11 e 15 anos, é vasta. Como argumentos a favor da modalidade, referem-se à grande quantidade de ações com bola devido ao menor número de jogadores que o futebol de campo, a necessidade da tomada de decisão mais rápida e o ambiente propício ao surgimento de jogadores habilidosos em função das resoluções de problemas em espaços reduzidos.

Os argumentos utilizados seriam inquestionáveis se não estabelecessem comparativos com o futebol de campo. Ou seja, praticar futsal pode proporcionar um bom número de ações com bola, melhorar a tomada de decisão e favorecer o aparecimento de jogadores habilidosos, porém, comparar o efeito da prática desta modalidade com o futebol significa desconsiderar o princípio básico do treinamento esportivo: a especificidade.

As competências exigidas para jogar bem futsal são distintas das exigidas para jogar bem futebol de campo. Para exemplificar, a frequente pisada na bola para recepcionar um passe e a ausência da regra do impedimento são dois dos elementos que diferenciam, significativamente, um jogo do outro.

Sabemos que um dos objetivos das categorias de base é aumentar o nível de inteligência de jogo dos praticantes de acordo com as tendências do futebol moderno, para que, concluído o período formativo, o atleta esteja apto a jogar em alto nível no futebol profissional. Se, durante o referido período de formação um atleta concorre à aprendizagem do futebol de campo com a prática do futsal, horas preciosas para a expertise serão perdidas.

Então, se o futsal é prejudicial (ou menos benéfico) na formação de atletas, qual é a solução?

A solução consiste em adaptar o futebol formal (alterando regras, número de jogadores, espaço, forma de pontuar, etc) criando jogos que favoreçam a aquisição de competências específicas do futebol. E isso é bem diferente de jogar futsal…

Dos 11 aos 15 anos, os atletas devem aprender sobre o funcionamento da unidade complexa (equipe) progressivamente, se aproximando do 11×11. Sendo assim, quanto melhor a compreensão do jogo coletivo, melhor a manifestação das competências essenciais (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação). E tal manifestação deve compreender elementos incomuns no futsal; eis alguns deles: reposição do goleiro com os pés; sair jogando com goleiro, linha de defesa e volantes; circular a bola com volantes, meias e atacantes; defender e atacar em bolas paradas; variação das plataformas de jogo com três linhas de jogadores, além do goleiro; realização de ações táticas de ultrapassagem, penetração e tabelas; organização ofensiva e defensiva em cruzamentos; cumprimento de uma posição no campo de jogo (que não é fixo, ala ou pivô).

O processo de ensino-aprendizagem-treinamento é maximizado se os atletas são submetidos a estímulos adequados. A aplicação destes estímulos exige um profundo conhecimento teórico-prático de quem assume o compromisso pedagógico de, como afirma João Batista Freire, ensinar bem futebol a todos.

Para os críticos que defendem que o surgimento de inúmeros craques brasileiros advém do futsal, não esqueçam que durante a iniciação esportiva (até os 10 anos de idade), todo e qualquer ambiente que seja possível brincar de bola com os pés é enriquecedor para o aprendizado do futuro esportista e, passada esta faixa etária, na transição da iniciação para a especialização, para formarmos grandes jogadores de futebol, precisamos de praticantes de futebol. Se muitos craques vieram do futsal, imaginem quantos mais não teríamos na atualidade se ensinássemos melhor o próprio futebol de campo?

A mínima fração de tempo que envolve a precisa tomada de decisão do craque aliada à capacidade de resolver problemas imprevisíveis circunstancialmente devem ser muito estimuladas. No futsal, os estímulos são de outro jogo, que exige outras competências e, acima de tudo, tem outra lógica! Que façamos como muitos clubes, pessoas e instituições e não desperdicemos o precioso tempo da formação!