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Archive for junho 2013

Um grande risco de treinar jogando

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O jogo pelo jogo, a repetição de más decisões e a função da comissão

reduzidoTreinar situações de jogo apresenta-se como a grande tendência do treinamento em futebol. Seja por autores da corrente pedagógica ou por autores da corrente biológica, a ideia de criar um ambiente que permita aos atletas terem que tomar decisões semelhantes as da competição ganha cada vez mais espaço e adeptos.

Aplicado sob uma perspectiva sistêmica, o objetivo de cada sessão de treino é promover adaptações físico-técnica-tática-mentais positivas, tanto de caráter individual como coletivo. Tais adaptações buscam aperfeiçoar o Modelo de Jogo do treinador, que deve ser construído em função do jogo e de sua lógica.

Como jogar (em espaços reduzidos, espaços formais, com superioridade numérica, inferioridade numérica, igualdade numérica, com pressão de tempo, com redução de toques, com referências espaciais ou quaisquer outras adaptações propostas pela comissão) passa a ser a essência da periodização, o volume total semanal que uma equipe atinge com esta forma de treinamento ultrapassa 300 minutos.

Isto significa que numa “semana cheia”, com apenas um jogo no final de semana, a comissão técnica tem mais de 5 horas de treino (jogo) para efetuar as devidas intervenções (de ordens física-técnica-tática-mentais).

Uma vez que a ação de cada jogador num determinado jogo reflete a interpretação que o mesmo tem das inúmeras situações-problema que o jogo lhe apresenta, toda semana de treino é uma oportunidade de correções e aquisições de comportamentos. Eis a grande solução. E também um grande risco de treinar jogando!

Para exemplificar, imaginemos um zagueiro central que de acordo com os princípios de jogo do futebol moderno apresenta as seguintes dificuldades:

  • Mau posicionamento na grande área para proteger o gol em situações de cruzamento do adversário;
  • Dificuldade para compor a linha de defesa zonalmente, marcando o adversário de forma individual desnecessariamente;
  • Ataque à bola em detrimento ao retardamento, quebrando a linha de defesa e proporcionando uma decisão mais fácil ao adversário;
  • Dificuldade para posicionar o corpo entre a bola e o alvo durante a flutuação;
  • Dificuldade para participar da organização ofensiva, não realizando coberturas ofensivas e apoios;
  • Não participação do bloco ofensivo quando a equipe tem a posse de bola no campo de ataque;
  • Dificuldade de decidir rapidamente sobre a melhor opção de passe.

Todos estes comportamentos tendem a ser reproduzidos nas emergências dos jogos ao longo do microciclo. Numa comissão técnica que resolva treinar com situações de jogo, mas que seja ineficiente nas intervenções, as mais de 5 horas de treinamento semanal serão subaproveitadas e o referido atleta pouco evoluirá.

O subaproveitamento deste tempo de treino gerará a repetição de más decisões que, quanto mais velho for o atleta, mais dificilmente serão modificadas. Ter um atleta formado, habituado a comportamentos de jogo ultrapassados demanda um tempo de treino para correção que o imediatismo do futebol não permite. Além disso, as crenças que o atleta carrega limitam a compreensão de um novo futebol e seu potencial cognitivo já está reduzido.

Multipliquem os “problemas” apresentados de um atleta pelos cerca de 30 jogadores existentes num elenco. Há muito trabalho para uma comissão técnica que, como pré-requisito, deve conhecer quais são os elementos do bom futebol. Ciente destes elementos, inicia-se a constante construção e reconstrução do jogar da unidade complexa/equipe que se adquire na ação.

Que a comissão seja cuidadosa o suficiente para não transformar as mais de 5 horas semanais de treinamento num ambiente que, mesmo jogando, reforce o mau futebol!

Abraços e bom trabalho!

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Enfim, a negociação de Neymar

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Os desdobramentos táticos da venda do ex-atacante santista

NeymarO início de uma nova era! Esta foi a expressão utilizada pelo zagueiro e capitão da equipe do Santos, Edu Dracena, durante uma entrevista, para se referir à confirmação da negociação de Neymar, até então seu companheiro de clube, ao Barcelona-ESP.

Apesar de todos os esforços do clube santista para mantê-lo pelo menos até ao final da Copa de 2014, o fato é que a pressão externa realizada sobre o craque adiantou a esperada (e inevitável) transferência para a Europa.

Tal transferência é a oportunidade de ratificação das expectativas criadas em torno do atacante. Torcedores, imprensa, treinadores e especialistas esperam uma evolução do jogador que deverá solucionar problemas distintos dos que enfrentava no futebol brasileiro.

Com maior ou menor aprofundamento, muitos afirmam que a marcação na Europa é diferente da praticada no Brasil. Se por aqui ele estava acostumado a enfrentar marcações e pressões individuais, no velho continente encontrará linhas do adversário mais próximas, marcações zonais com ou sem pressing, coberturas e direcionamentos para setores de menor risco. Mecanismos defensivos comuns no futebol europeu que exigirão maior inteligência de jogo individual e coletiva de Neymar.

E não é só no momento ofensivo do jogo (para desorganizar o momento defensivo do adversário) que a evolução será necessária. A participação efetiva em todos os momentos, exigida de todos os jogadores, comum ao Barcelona e a todas as equipes taticamente evoluídas, seguramente lhe será exigida.

Nas transições defensivas, o Barcelona rapidamente apressa o adversário em espaço e tempo, enquanto no Brasil, o Neymar comumente perde segundos preciosos reclamando com a arbitragem. Quando reage mais rapidamente, faz uma ou duas pressões no adversário portador da bola sem um maior compromisso coletivo.

Defensivamente, para cumprir o Modelo de Jogo da equipe catalã, o jovem atacante deverá jogar orientado para a recuperação da posse de bola o mais rápido possível. Para isso, comportamentos de jogo habituais como estar à frente da linha da bola e andar enquanto compõe o balanço ofensivo deverão ser substituídos.

Já nas transições ofensivas, a evolução passa, principalmente, por jogar com menos toques na bola no setor tiki-taka da equipe espanhola e também saber ocupar espaço distante da bola, cumprindo a função determinada pelo Modelo e pelas circunstâncias do jogo. Tal evolução é necessária para evitar o excesso de jogadas individuais nas faixas intermediárias do campo de jogo e a demasiada centralização à bola.

A capacidade do jogador é indiscutível e sua adaptação ao futebol europeu seria mais rápida se ele saísse do país com mais competências, que lhe serão exigidas, já adquiridas. No entanto, no Brasil, tanto na formação, como no profissional, ainda estamos distantes de termos o futebol evoluído como realidade.

E como disse Edu Dracena, inicia-se uma nova era! Não para o Neymar, um grande talento que vai para uma das maiores equipes do futebol mundial, mas para o Santos, que segundo o zagueiro, estava acostumado a dar a bola ao atacante e esperar para ver o que acontecia.

Sem o Neymar, vamos precisar mais de Muricy, que trouxe os reforços que queria para a temporada 2013 e ainda assim continuou praticando o que muitos chamaram de “Neymardependência”. O treinador santista, pelas suas conquistas, pelo peso que possui no futebol nacional e pelo seu cargo é um dos responsáveis por acelerar (ou desacelarar) o processo de evolução do nosso futebol. De acordo com a declaração de Edu Dracena e os próximos jogos da equipe santista, agora sem o craque, vamos torcer para que a nova era não comece nos decepcionando.

Obs: Muricy Ramalho foi demitido no início da sexta feira e optei por não alterar o conteúdo da coluna. Que os votos feitos ao Muricy sejam estendidos ao novo treinador da equipe santista.

Written by Eduardo Barros

3 de junho de 2013 at 10:02