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Temas atuais relacionados ao Futebol

Archive for the ‘Análise Individual’ Category

Quando a tática não importa

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O caso Adriano e alguns pensamentos sobre o jogador

A rescisão de contrato do atacante Adriano foi tema de centenas de matérias esportivas na última semana. O custo de R$ 12.000,00 por minuto jogado e o de R$ 2,4 milhões por gol marcado, efetuados com base no salário mensal de aproximadamente R$ 380.000,00 são apenas alguns dos tópicos levantados nas notícias que questionavam o custo x benefício deste exorbitante investimento dos dirigentes corintianos.

Como todo tema que movimenta a semana e possibilita inserções em meu cronograma de colunas, o problema com o referido jogador me levou a inúmeros pensamentos e reflexões, sob diferentes pontos de vista, num exercício de empatia, essencial numa atuação interdisciplinar.

Como torcedor, ficaria a sensação de que, após um longo período de recuperação da lesão sofrida no tendão, o jogador se encontra na fase final de reabilitação e um mês será suficiente para voltar a jogar em alto nível, o Corinthians reabilitou quase que integralmente um jogador que irá balançar as redes por outro grande clube do futebol brasileiro. Uma possível falta de gols na competição mais importante do ano para a equipe alvinegra, a Libertadores, e ela será atribuída à dispensa do, outrora, Imperador. Afinal, como torcedor, é impossível esquecer aquele gol (e muitos outros ao longo de sua carreira) na reta final do campeonato brasileiro do último ano.

Como dirigente corintiano, refletiria sobre os prós e contras da tomada de decisão relacionada à rescisão. Na ocasião da contratação, eu me perguntaria se algum comportamento apresentado pelo jogador era desconhecido. Os problemas com mulheres, má companhias, peso, horários e bebidas seriam alguma surpresa? O dinheiro investido neste atleta poderia ter sido direcionado para alguma outra contratação? Diante dos lamentáveis fatos, será que valeria a pena esperar o término do contrato, tentar amenizar o relacionamento interpessoal entre o atleta e o técnico Tite e se livrar da multa contratual? Será que após o mês que o atleta afirma precisar para estar melhor preparado, ele poderia contribuir na busca pelo inédito (e cobrado) título da Libertadores?

Como (ex)companheiro de elenco, pensaria que abriu-se espaço para uma das dezoito vagas de competição na que, atualmente, é a melhor equipe do futebol brasileiro e que joga o melhor torneio de clubes da América do Sul. Agradeceria pelo final desta novela de privilégio, mimo, excesso de atenção e “vista-grossa” para um atleta que recebe muito mais do que eu. Poderia dizer também que o grupo está unido, que sentimos a perda do Adriano, que ele é um grande jogador e que logo irá superar esta fase ruim e voltar a ter alegria e jogar um bom futebol (clichê típico do ambiente).

Como dirigente de outro clube, eu me questionaria se vale a pena o investimento. Poderá o Adriano jogar e incomodar os adversários como já o fez? Conseguirá recuperar o poder de finalização que o consagrou como um dos grandes atacantes do futebol mundial? “Banco” o investimento ciente que a reincidência é um caminho bem provável? Arrisco alguns milhões num “produto” que, há tempos, não permite retorno?

Pensando como o técnico Tite, recordaria cada entrevista, declaração, preleção e roda de conversa que o atleta foi poupado para dar-lhe tempo e tranquilidade para se recuperar. Será que toda a gestão de conflito de um atleta que nunca esteve em totais condições foi eficiente? Será que declarações mais polêmicas e pressões diretas ao jogador teriam um resultado final mais produtivo a instituição? Com isso, será que prejudicaria o elenco?

Como o próprio jogador, eu me indagaria se todas as respostas que dei alguns dias antes a uma grande emissora de televisão foram, de fato, sinceras. Questionaria se ainda anseio por jogar futebol ou pela fama e repercussão que este papel me proporciona. Pensaria também onde está o problema em ingerir bebidas alcoólicas, curtir a vida noturna e esbanjar o dinheiro que o futebol me proporcionou. Ser atleta e não boleiro, como o Paulo André, não é pra mim!

É claro que diversos outros pensamentos foram elaborados por cada um dos personagens identificados no texto e que podem, ou não, representar a realidade. Representam a minha, ao menos. É certo também que um bom número de conversas de bastidores, que não temos acesso, ocorreu para culminar no encerramento do contrato de Adriano.

O que deixo, futebolisticamente, é um exercício de reflexão para problemas inevitáveis na gestão de uma equipe que não envolvem diretamente os esquemas táticos, os momentos de jogo ou as estratégias, e para os quais nunca haverá um fluxograma com as melhoras respostas. Como você agiria numa situação semelhante a esta? Não se esqueça de considerar todos os envolvidos! Pensar e agir somente sob sua perspectiva poderá limitar os caminhos de uma ponte (perigosa) que você precisará cruzar.

Deixo também, mais humanamente, diante de tudo que pôde ser acompanhado neste período de onze meses, uma simples opinião livre do meu papel de técnico de futebol e também livre de julgamento:

Que o Adriano, que até confinado ficou na insana tentativa de levá-lo ao alto-rendimento esportivo a qualquer custo, independente dos erros ou acertos cometidos em seus últimos passos, encontre seu caminho para os passos seguintes na busca do alto-rendimento humano. Sem a ajuda de alguém acredito que será difícil encontrar tal caminho e, sem ele querer, acredito que é algo impossível.

Tomara que ele saiba que gols, entrevistas, fama e mulheres são passageiros. Já a sua vida…

Written by Eduardo Barros

17 de março de 2012 at 11:21

O futebol “invisível”

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Disponível para todos, porém, visto por poucos

Alguns jogos precisam ser guardados para serem revistos ao longo do tempo. Ver uma partida diversas vezes, podendo pará-la, estudá-la, analisá-la, enfim, ser crítico sobre as inúmeras ações que ocorreram no confronto e que permitiram que uma equipe levasse vantagem sobre a outra, é tarefa necessária para quem pretende aperfeiçoar a sua leitura do jogo de futebol.

E, para aperfeiçoar a sua leitura do jogo, “enxergar” o futebol aparentemente “invisível” será determinante na composição de uma opinião sistêmica da modalidade.

O trecho abaixo, retirado do penúltimo clássico Real Madrid x Barcelona, válido pelo 1º turno do campeonato espanhol e que a equipe catalã venceu por 3 a 1, é parte de um destes jogos que devem ser vistos repetidas vezes. De acordo com o tema da semana, a preocupação da edição das imagens deu-se exclusivamente com o referido futebol “invisível”, mais especificamente com um único jogador: 

http://www.youtube.com/watch?v=jys-UBrhMaw 

Grande parcela da mídia, dos torcedores e até dos próprios treinadores, tende a analisar um jogo e/ou um jogador exageradamente pela “qualidade técnica”. Atributos como passe, cabeceio, finalização, desarme, são as características observadas para a definição do nível do atleta. Porém, quem é leitor assíduo da Universidade do Futebol, seguramente, já observou que ter simplesmente as informações técnicas de determinado jogo ou jogador, desconectadas do Modelo de Jogo da equipe, dirá muito pouco desta equipe e do próprio jogador.

No jogo identificado acima, o atleta analisado realizou 9 passes horizontais, 6 passes verticais no sentido da própria meta, 12 passes verticais no sentido da meta adversária, errou 2 passes, fez 7 interceptações completas, 8 interceptações incompletas, 2 desarmes completos e perdeu a posse de bola 1 vez, totalizando 47 ações.

Esta análise pode ser feita por um software quantitativo de análise de jogo, ou então, manualmente (o meu caso) para quem não dispõe deste recurso tecnológico. Estas 47 ações, facilmente visíveis, são somente uma pequena parte dos 90 minutos do jogo de futebol que, no plano individual, é jogado a maioria do tempo sem a bola. 

(Em tempos de Copa-SP e exacerbação de comentários sobre bons jogadores de futebol, respeito a  importância da análise técnica de um atleta, porém, é incompreensível que uma análise se reduza a esta vertente.) 

Após um parêntese necessário, retornemos ao vídeo e ao futebol invisível que, jogado sem bola durante quase todo o jogo, infelizmente, poucos enxergam.

Para cada lance, o que poucos enxergam: 

1-    A velocidade (de decisão) em abrir linha de passe;

2-    A diagonal para evitar a penetração;

3-    A recomposição para evitar a penetração;

4-    O posicionamento com nítida atenção as referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);

5-    O atraso da ação adversária com nítida atenção as referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);

6-    A cobertura defensiva e a proteção do alvo;

7-    O posicionamento com nítida atenção as referências do jogo (alvo, bola, companheiros adversários);

8-    A ampliação do campo efetivo de jogo com a equipe em posse de bola;

9-    A recomposição e o posicionamento para cortar um possível cruzamento;

10-  O atraso da ação adversária para posicionamento dos companheiros;

11-  A rápida recomposição mesmo quando é ultrapassado;

12-  O atraso da ação adversária para posicionamento dos companheiros;

13-  A velocidade (de decisão) em abrir linha de passe mesmo que não receba a bola;

14-  A rápida diagonal para posicionar-se entre bola e alvo;

15-  A diagonal para evitar a penetração;

16-  O equilíbrio defensivo, a eficiente diagonal e o foco na trajetória da bola, e não no corpo do adversário;

17-  O bom posicionamento defensivo quando distante da bola;

18-  A rápida recomposição mesmo quando é ultrapassado; 

A partida só não foi perfeita para este jogador, pois em duas situações do jogo errou a decisão (e a ação), como pode ser observado no pequeno trecho abaixo: 

http://www.youtube.com/watch?v=dxaDR2DT4YU&feature=youtu.be 

Na primeira imagem, opta pelo combate em detrimento à recomposição e cobertura, permitindo o passe adversário para um setor desprotegido. Na sequência, passa da bola e não prevê o corte para dentro; quando resolve voltar, é tarde demais.

Quanto mais pessoas enxergarem o futebol sem bola, mais rapidamente acontecerão as urgentes transformações do futebol brasileiro. Na perspectiva administrativa, contratações mais assertivas poderão ser realizadas, na perspectiva técnica, principalmente em relação à Metodologia de Treinamento, será compreendido que cada ação de um jogador no jogo, como bem diz o Dr. Alcides Scaglia, é pautada por uma intenção, portanto, carregada de significado. E este significado (indispensavelmente correlacionado ao Futebol) deve ser buscado em cada sessão de treinamento.

Já num plano comercial, se mídia e torcedores brasileiros um dia enxergarem o futebol “invisível”, serão mais críticos na análise do que deveria ser um espetáculo.

Sem dúvida, ganhariam todos! Hoje, quem mais ganha é o futebol europeu! Representado na coluna por Carles Puyol que, ao contrário de muitos defensores brasileiros com mais de 30 anos de idade, sobe o bloco quando sua equipe tem a posse de bola, pressiona constantemente em espaço e tempo seus adversários, sai jogando predominantemente com passes curtos, além dos comportamentos que puderam ser observados no vídeo. Tudo isso com uma altura (1,80m), para muitos, inapropriada para zagueiros.

Uns dizem que os jogadores do Barcelona se entregam ao jogo, outros que treinam muito passe, outros ainda que tudo que aconteceu foi obra do acaso: “você junta os jogadores e as coisas acontecem naturalmente”.

Prefiro dizer que eles dominam o futebol invisível. Visto nesta coluna no plano individual e que deve ser feito no jogo, por todos, no plano coletivo.

Por que ele vai subir de categoria?

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Decisão de final de ano deve ser feita com base em potencial de valor agregado e necessita análise individual completa

Há cerca de um ano, em uma de minhas primeiras publicações na Universidade do Futebol, escrevi sobre resultado nas categorias de base. Com uma série de questionamentos a dirigentes e membros da comissão técnica, o objetivo do artigo era mostrar que uma infinidade de variáveis, além das vitórias dentro das quatro linhas, deveriam ser analisadas para que, de fato, os verdadeiros resultados fossem mensurados.

Um dos questionamentos feitos segue descrito abaixo:

“Existe um relatório individual de desempenho (banco de dados), que acompanha a performance (tática, técnica, física e emocional) de cada atleta ao longo dos anos?”

Como o recesso das categorias de base do futebol brasileiro ocorrerá nos próximos dias, com exceção dos juvenis que terão oportunidade de jogar a Copa São Paulo de Futebol Jr., o momento é extremamente pertinente para a aplicação, ou então, criação do referido relatório.

É sabido que grandes equipes têm a possibilidade de conquistar campeonatos, porém, tais campeonatos não necessariamente significam retorno financeiro (principalmente nas categorias de base), que se dá predominantemente a partir da negociação de um jogador.

Logo, cada jogador, ou melhor, produto, deve ser analisado quantitativa e qualitativamente de modo a ser definido o seu potencial de valor agregado (para futura negociação) até a conclusão do processo de formação.

Definir o potencial de valor agregado é estimar quais serão as características deste jogador que o diferenciará de seus concorrentes (que são muitos), para que tenha maior atratividade comercial.

Posto isso, como analisar um atleta quantitativa e qualitativamente ao longo de um ano?

As informações acerca de determinado jogador que possibilitam a composição de um relatório não são difíceis de serem conseguidas e não precisam de ferramentas inacessíveis para a grande maioria dos clubes de futebol brasileiros, como por exemplo, softwares de gestão integrada. Com boa comunicação interna e recursos básicos do Office é possível estabelecer um banco de dados eficiente para o clube.

Para os dirigentes da base, ter o registro do desempenho obtido e do potencial que pode ser atingido por cada jogador permite um posicionamento coerente perante aos gestores e investidores do clube em relação ao investimento que está sendo feito em cada categoria.

Para os treinadores, ter em mãos um relatório completo dos seus novos atletas no início do ano poupa-lhes tempo ao proporcionar informações importantes como perfil disciplinar, versatilidade e/ou especialidade, liderança, qualidade técnica, etc.

Como informações quantitativas gerais encontram-se o ano de ingresso no clube, a frequencia anual de treinamento, a quantidade de jogos disputados, o tempo total jogado, os cartões recebidos, os gols feitos, as assistências, além das informações de crescimento e desenvolvimento como altura, peso e desempenho nas avaliações físicas.

Já como informações qualitativas, é possível estabelecer o desempenho comparativo do atleta em relação a sua própria categoria, uma análise das competências essenciais do jogo (relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação), e uma análise subjetiva (feita pela comissão técnica) tática-técnica-física-emocional de acordo com o Modelo de Jogo adotado. Para tornar as informações qualitativas ainda mais completas uma produção em vídeo, de pontos fortes e pontos fracos do jogador, pode ser criada, dos quatro momentos do jogo (ataque, defesa e transições).

Após esta análise individual completa é função dos dirigentes de base do clube, reunirem todas as comissões técnicas para, em conjunto, definirem quais são os atletas que têm condições de serem promovidos para a categoria seguinte e quais terão que ser dispensados.

Esta discussão, que envolve a participação de todos e que tem um gestor como mediador, seguramente, diminui os riscos de um erro extremamente comum nos clubes brasileiros: investir por muitos anos em jogadores que não têm potencial de negociação ou atuação no departamento profissional e dispensar os que têm.

Com informações mais precisas, todos os envolvidos (atletas, comissões, dirigentes e investidores) são beneficiados. O atleta dispensado pode ir em busca de seu objetivo em outro clube ao invés de aguardar aquela ligação para se apresentar no início do ano e, após poucos dias de treino e elenco “inchado” ser liberado, pois o seu último treinador não o fez quando deveria; o atleta que subir de categoria é o que o clube realmente vislumbra retorno futuro e que deu mais um importante passo na pirâmide que ano a ano estreita até a profissionalização; a comissão técnica assume a devida responsabilidade profissional de, por estar no dia-a-dia de treinos e, mais do que os dirigentes, ter a obrigação de conhecer profundamente cada um dos seus jogadores, opinar favorável ou contrariamente a promoção de categoria e ser cobrada futuramente por isso; os dirigentes, com o registro de todos os seus produtos e potencial de valor agregado pode se posicionar perante a concorrência e fazer as readequações estratégicas necessárias; e os investidores poderão saber como andam seus investimentos e para quando está previsto o retorno.

É certo que na vida, digo, no futebol, muitos acontecimentos nos distancia das práticas descritas acima. Interesses pessoais, influências políticas, autonomia limitada, entre outros fatores presentes no futebol, digo, na vida, ocorrem e sempre ocorrerão.

Para quem não aguarda o “mundo ideal”, já mencionado em outra ocasião, tem muito com o que contribuir para profissionalizar os procedimentos nas categorias de base. Para isso, é fundamental ampliar as discussões profissionais e não opiniões pessoais sobre cada jogador.

Caso alguém se interesse por uma planilha-modelo simples para fazer um relatório anual de um jogador, escreva-me.

Quantos atletas você irá subir de categoria?

Abraços e até a próxima semana!

Participe da Entrevista Tática!

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Colabore com a Universidade e faça perguntas para jogadores de futebol

A Universidade do Futebol, dia após dia, amplia seu acervo de notícias, entrevistas, colunas, aulas gratuitas e cursos on-line com o objetivo de proporcionar ao leitor uma atualização constante nas diversas áreas do conhecimento inter-relacionadas do futebol. Em relação às entrevistas, em cerca de oito anos, foram publicadas mais de trezentas, com diferentes profissionais direta ou indiretamente ligados à modalidade.

Dentre os entrevistados, estão técnicos, preparadores físicos, auxiliares, preparadores de goleiros, treinadores adjuntos, psicólogos, advogados, profissionais de marketing, nutricionistas, fisiologistas, filósofos, médicos, mestres, doutores, especialistas, enfim, centenas de profissionais que contribuem com cases, opiniões, discussões, reflexões e apontamentos que favorecem a todos os leitores quanto ao desenvolvimento de um olhar transdisciplinar do futebol.

Com o objetivo de contribuir com este espaço, a Universidade do Futebol criou a Entrevista Tática. Idealizada por este colunista, a entrevista será realizada com jogadores brasileiros de diferentes categorias e escalões do futebol nacional e, possivelmente, internacional.

Como a demanda das entrevistas semanais é significativa e, tradicionalmente, é um espaço reservado para outros profissionais do futebol que não os próprios jogadores, a Entrevista Tática será postada periodicamente como tema da minha coluna semanal.

Utilizando a tática como pano de fundo, o portal pretende oferecer um novo material que aproxima o jogador de futebol da Ciência. Sem o intuito de capacitá-lo, a ideia será somente ouvi-lo para que todos os interessados em melhorar sua atuação profissional possam ter noções de como é a interpretação da realidade por cada jogador, principalmente como o mesmo enxerga o futebol.

Na coluna desta semana, serão apresentadas as perguntas-padrão que farão parte da entrevista e será aberto a você, leitor, um espaço para sugestões de novas perguntas (lembrando do viés tático como pano de fundo) que, após análise do portal, poderão ser incorporadas às questões já estabelecidas.

Abaixo, a lista de perguntas-padrão da Entrevista Tática: 

1-    Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? 

2-    Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário? 

3-    Para você, o que é um atleta inteligente? 

4-    Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo? 

5-    Para ser um dos melhores jogadores da sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola? 

6-    Quais são seus pontos fortes táticos,técnicos,físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles. 

7-    Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor? 

8-    Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades. 

9-    Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo? Qual você prefere e por quê?*

*Leia-se 1-4-4-2, 1-3-5-2, 1-4-3-3 e plataformas de jogo 

10-  Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:

  • Com a posse de bola;
  • Assim que perde a posse de bola;
  • Sem a posse de bola;
  • Assim que recupera a posse de bola;
  • Bolas paradas ofensivas e defensivas. 

11-  Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças? 

12-  Qual a importância da preleção do treinador antes da partida? 

13-  Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma Comissão Técnica, qual seria? 

Mais três perguntas serão analisadas e escolhidas para complementar a entrevista. Nas próximas duas semanas, através do meu e-mail (indicado no final da coluna), irei interagir com o leitor para ler e encaminhar as sugestões aos responsáveis pela aprovação. Caso sua pergunta seja escolhida, receberá os devidos créditos na coluna de abertura.

A Universidade do Futebol irá se aproximar daqueles que dão vida ao jogo de futebol e às ideias de jogo dos treinadores. Participe!

eduardo@universidadedofutebol.com.br

Written by Eduardo Barros

8 de outubro de 2011 at 12:23

Treinador, escolha: jogador especialista ou versátil?

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Da base ao profissional, do clube formador ao grande clube, dos atletas que você tem a sua ideia de jogo. Qual a melhor opção?

Diversas opiniões são manifestadas acerca das características de um determinado jogador. É bastante comum se estabelecer um julgamento de valor privilegiando os que são mais versáteis em detrimento dos que exercem somente uma posição.

Como argumentos inegáveis a favor da versatilidade, para muitos, estão a possibilidade de mudar o jogador de posição durante uma partida, ou então, de alterar a distribuição das peças da equipe no campo de jogo sem necessariamente ter que fazer alguma substituição. Danilo, lateral direito, volante e meio campista do Santos e da seleção brasileira principal é um exemplo atual de atleta versátil.

Para outros, ser versátil é sinônimo de saber um pouco de tudo e muito de nada. Já li matérias de cronistas esportivos e pronunciamentos de treinadores respeitados no cenário do futebol que primam pela especialização em uma posição. Em opiniões mais simplificadas, afirmam que só é possível conhecer profundamente os “atalhos” de uma determinada função e se tornar acima da média, caso atue especificamente nela. Já numa sábia opinião mais complexa, a especialidade aliada à multifuncionalidade (dominar várias regras de ação da mesma posição) é o argumento que se opõe aos que preferem os atletas poli-valentes. Sneijder, meio campista da equipe Inter de Milão, é um exemplo atual de um especialista em faixa central ofensiva que não conseguiu bom desempenho como meia aberto no Modelo de Jogo da ex-equipe de Gasperini.

Mas, afinal, o que é melhor para um treinador: Ter um jogador especialista e multifuncional ou um jogador versátil? 

Quer aprimorar sua função como treinador? Matricule-se no Curso Master em Técnica de Campo feito pela Universidade do Futebol em parceria com a Federação Paulista de Futebol. 

O futebol é feito, leia-se administrado, de diversas formas. Existem clubes com filosofias e culturas de jogo muito bem definidas, existem os que estão perdendo a identidade, existem os que perderam a identidade, os clubes de formação com muitos recursos, com poucos recursos, existem clubes que jogam pelo acesso a qualquer custo (a ponto de planejarem somente após subirem), existem os que trocam de treinador a cada instante, os que mantêm o treinador, os que te cobram exclusivamente pelo resultado de campo, existem os que não olham para a base, os que olham para a base, os que dirigentes trazem seus jogadores de confiança, os que dirigentes trazem os jogadores de confiança do treinador, os que dirigentes trazem jogadores de empresário com bom relacionamento com o clube, os que formam equipes às pressas…ufa! Enfim, para cada “tipo” de clube, existem milhares de outros que são combinações entre os mencionados acima e cada treinador de futebol encontra-se em um clube com particularidades que caberá a ele perceber quais são.

Após analisar o que esperam as pessoas que o contrataram, além do ambiente em que ele está inserido, inicia-se a gestão da equipe a partir das suas ideias de jogo.

Se o treinador estiver num clube que privilegia a formação de alto nível, promover a poli-valência deve ser pré-requisito para o exercício da função, pois se aumenta significativamente o valor agregado ao produto no final do processo. Porém, se o treinador assume uma equipe alguns dias antes da estreia ou do próximo jogo (ocorrência comum no futebol), o tempo hábil é muito curto para executar a leitura dos seus jogadores e lhes exigir poli-valência ou até multifuncionalidade.

E, para desenvolver sua ideia de jogo, não é suficiente o conhecimento das características (táticas-técnicas-físicas-emocionais) de cada jogador. É preciso saber que possíveis baixas podem ocorrer ao longo de uma temporada, como lesões, negociações, suspensões ou quedas de rendimento e a eficaz gestão destas baixas é fundamental para sustentar a performance da equipe.

Quanto mais o treinador estiver atento às respostas (e o mais rapidamente possível) que cada um dos seus jogadores lhe oferece em relação ao desempenho de campo, melhor será a sua intervenção com os especialistas (multifuncionais ou não) e com os poli-valentes.

E você, leitor, que chegou a este ponto do texto e exerce qualquer função na Comissão Técnica que não a de treinador, não se isente de suas responsabilidades em conhecer o jogador numa visão holística. Mais do que passes errados e certos, limiar maior ou menor, o jogador de futebol é um ser-humano em movimento que te transmite quem ele é em cada jogo e sessão de treinamento. Ajude seu treinador!

Por que, no final das contas, colocar os jogadores certos, dispostos nos lugares certos e com as dinâmicas que lhes sejam possíveis é um bom caminho para as vitórias.

Mas, afinal, o que é melhor para um treinador: Ter um jogador especialista e multifuncional ou um jogador versátil?

Quando souber, escreva-me a resposta!

Perfil FC Barcelona: protocolo de avaliação de jogadores

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Conheça detalhes da palestra feita por Jordi Busquets no II Seminário de Futebol realizado em Porto Alegre

No dia 29 de Agosto, a Universidade do Futebol publicou uma nota resumindo os temas discutidos no II Seminário de Futebol, realizado no Grêmio e com o apoio da Escola Superior de Educação Física da UFRGS. Como tive a possibilidade de participar deste importante evento que, conforme os próprios organizadores mencionaram, serve para contribuir com a evolução do futebol brasileiro, eu me comprometi em compartilhar dos conhecimentos lá adquiridos, sobretudo os diretamente relacionados com a área de atuação técnica.

Na coluna desta semana serão apresentados detalhes da palestra feita pelo gerente de prospecção do FC Barcelona, Jordi Melero Busquets, que abordou os temas: Protocolo de Avaliação de Jogadores para o plantel profissional e Características Individuais para integrar o clube catalão.

A seguir, o que foi ministrado em relação ao primeiro tema:

Todos os observadores da Secretaria Técnica de Futebol Profissional do clube espanhol têm a missão de captar jogadores para a equipe principal, equipe B e para o Juvenil A. Eles são divididos em seis zonas no território nacional e distribuídos nos demais países do futebol internacional em mercados denominados A, que são compostos por países como Brasil, Itália, França, Alemanha e Argentina. Nestes países, considerados de 1º nível, é feito um controle exaustivo de informação dos jogadores.

Para mercados B (México, Suíça, Bélgica, Uruguai, etc.) e C (Japão, Coreia, Bolívia, Turquia, etc.) as informações são captadas como controle referencial e para possível necessidade de contatos futuros. O deslocamento pessoal para o Mercado C não ocorre em um primeiro momento.

A ferramenta utilizada pelo FC Barcelona para o acompanhamento de todos os jogadores dos mercados A, B e C é o software Scout7 (clubs.scout7.com). Neste software, utilizando é possível acompanhar informações relevantes acerca de cada jogador como competições disputadas, tempo total jogado, histórico de anos anteriores, cartões recebidos, gols, assistências, tempo de contrato e até se o atleta tem passaporte comunitário.

Semanalmente, os observadores se reúnem para discutir quais jogadores chamaram atenção na prospecção. Mensalmente, os jogadores de maior destaque são apresentados à Comissão Desportiva para iniciarem os filtros do processo de contratação (veja a seguir) e, a cada dois meses, os observadores são convocados pelos Coordenadores do Clube para discutirem as Linhas de Sucessão, ou seja, quais são as necessidades em relação aos próximos atletas a integrarem o plantel principal, o da equipe B ou o Juvenil A.

Durante a prospecção dos jogadores, cada análise feita gera a classificação de um dos três tipos de produto (jogador) para o Clube: 

Produto 1 – Barcelona – Atleta preparado para competir na primeira equipe;

Produto 2 – Atleta para o futuro:

  • Incorporar primeira equipe;
  • 1ª Equipe para curto prazo;
  • Barcelona B, Juvenil A ou Empréstimo;

Produto 3 – Atleta com perfil Barcelona para as categorias inferiores. 

O jogador que despertar interesse dos observadores passa pelo Filtro 1, que é o de Detecção e conta somente com informes escritos. Após a tomada de decisão dos gestores da equipe catalã o atleta pode ser descartado, ou então, iniciar o Filtro 2, correspondente ao Seguimento do processo de captação. Neste filtro, além das informações escritas do atleta, é inserido um material visual que contém de 8 a 10 minutos de ações ofensivas e defensivas e que é encaminhado ao treinador da equipe principal, Pep Guardiola.

Abaixo, um pequeno trecho da análise de um jogador captado (mas não contratado) que vai além dos atributos técnicos: 

            “ Jugador sin aparentes alteraciones de comportamiento. Gran nível de atención y concentración debido su  dependencia de lectura de juego para explorar sus cualidades. Trabajador, sin altos y bajos de rendimiento…” 

Para cada ação separada em vídeo, existe um comentário sobre a característica do jogador que está sendo evidenciada.

Uma vez aprovado pelo treinador da equipe principal, o atleta passará para o Filtro 3, que é o de Contratação. Neste filtro, os observadores não têm mais nenhuma influência e a tomada de decisão dos gestores será para oficializar a contratação, adiá-la ou descartá-la em processos que Jordi Melero não aprofundou.

Para finalizar, o palestrante indicou quais foram as necessidades definidas pela gestão de futebol do clube espanhol, indicadas na Linha de Sucessão do mês de Fevereiro do presente ano.

Leitores, esta foi a síntese da apresentação sobre captação de jogadores do FC Barcelona. Na próxima semana, serão apresentadas as características individuais buscadas pelos observadores para cada uma das posições do 1-4-3-3 espanhol (arquero, centrales, laterales, mediocentro, inferiores, extremos y delantero centro).

Desta bela apresentação, alguns questionamentos ficam para os profissionais do futebol brasileiro: Como as equipes brasileiras classificam cada um dos seus “produtos”? Os observadores brasileiros que trabalham para clubes têm/seguem algum protocolo de avaliação? Os clubes brasileiros fazem reuniões periódicas para estabelecer a sua Linha de Sucessão e avaliar necessidades no plantel principal, equipe B, sub-20 e categorias de base?

Mesmo como pentacampeões do mundo temos que reverenciar o Clube que ninguém pode negar que é o maior exemplo de Filosofia, Modelo e Gestão no futebol atual.

Porém, não podemos perder as esperanças que algo semelhante um dia aconteça no Brasil, pois, o FC Barcelona já foi um clube com predomínio dos jogadores de mais de 1,80m e excesso de “força física”.

E aí chegou Johan Cruyff…

 

Written by Eduardo Barros

4 de setembro de 2011 at 12:47

A hora de decidir

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Informações complementares do desempenho de Arouca e conclusões

Na última semana, os vídeos publicados de Arouca mostravam um resumo do seu comportamento defensivo e de transição ofensiva nas duas partidas da final da Copa Libertadores da América. Para finalizar o tema, serão apresentados outros dois vídeos, desta vez, em relação ao comportamento ofensivo e de transição defensiva do volante, completando os quatro momentos do jogo.

É importante mencionar novamente, caso alguém não tenha lido a coluna anterior, que o objetivo dos vídeos e dos demais dados divulgados não é de estabelecer julgamentos de valor e que será responsabilidade do leitor refletir sobre as informações e construir sua opinião a respeito da hipótese de convocação do atleta santista para a seleção brasileira.

Na final da Copa Libertadores, ofensivamente, a atuação de Arouca está resumida no vídeo abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=kcBb3Kk-4v0 

A seguir, o trecho restante correspondente ao comportamento de transição defensiva do jogador nas duas partidas: 

http://www.youtube.com/watch?v=MI7V7r7I-WQ 

Para observar o desempenho ofensivo, é possível analisar sua criação de linhas de passe, sua desmarcação, sua mobilidade em diferentes setores e com isso definir em qual região do campo o atleta pensa melhor o jogo. Com a posse de bola, é possível observar os comportamentos mais utilizados e os recursos técnicos para realizá-los bem como sua qualidade de execução. Além disso, analisar seu desempenho quando se encontra mais próximo ou distante do centro do jogo.

Em relação à transição defensiva, quando o próprio jogador perde a bola, permite-se a compreensão da atitude realizada predominantemente e a classificação quanto a sua eficácia. O mesmo pode ser feito quando um companheiro de equipe perde a bola e Arouca executa um dos seguintes comportamentos: ataque imediato à bola, retardamento da ação ofensiva adversária ou então recomposição para sua área de atuação defensiva. Finalizando, ainda sobre esta questão, é importante interpretar o tempo gasto para a mudança de atitude do atleta em caso de perda da posse.

O treinador da seleção nacional (e sua comissão) deve ter acompanhado lance a lance os 180 minutos da decisão. E se você fosse o treinador da seleção brasileira: convocaria o volante Arouca para sua equipe? É hora de decidir…

Obviamente, os 16 minutos (somatória do tempo das imagens do volante nos quatro momentos do jogo ao longo da final) não são suficientes para uma escolha desta magnitude. Apesar da dimensão do confronto, somente a análise de uma sequência de jogos possibilita um completo relatório de desempenho do jogador.

Como o Modelo de Jogo do técnico da equipe santista é diferente do seu (lembre-se que você é o treinador da seleção brasileira), é sua responsabilidade interpretar se os comportamentos nos quais o atleta está acostumado a cumprir se assemelham ao esperado por você para a função do volante. Se não se assemelham, pode ser importante observar o potencial de transferência de pelo menos alguns princípios de jogo para o seu modelo. Se os comportamentos ofensivos, defensivos e de transição se assemelham ao esperado por você, o próximo passo é compará-lo aos demais jogadores em potencial para o exercício desta posição. Uma boa análise qualitativa e quantitativa, com dados, imagens, percentual de aproveitamento e desempenho perante adversários de alto nível de dificuldade facilitará a escolha.

Após as convocações, sabemos que o tempo para treinamento e aperfeiçoamento do Modelo de Jogo será extremamente reduzido. Logo, convoque quem você julgar que terá condições de colocar em prática sua ideia de jogo.

A reflexão proposta nesta coluna se estende para muito além de uma situação hipotética de convocação para a seleção brasileira. Mais do que observar Arouca no Santos, Jorge Henrique no Corinthians, Fábio no Cruzeiro, Nei no Internacional ou quaisquer outros jogadores e suas possibilidades de vestirem a camisa amarela, cada profissional do futebol deve analisar o maior número possível de jogadores próximos do seu ciclo de ação para realizar variados tipos de intervenção. Por exemplo: dentro de uma mesma equipe, como está o desempenho de cada zagueiro segundo os quatro momentos de jogo e em relação ao seu Modelo? Comparando todos os meio-campistas de uma determinada competição de curta duração, qual apresentou princípios de jogo mais condizentes com o futebol europeu? Para a contratação de um lateral direito, que é carência de uma determinada equipe, quais as características do jogador que se procura? Promover um atacante da categoria de base ou contratar um jogador?

O exercício de analisar um atleta de forma completa e ver as influências que as características (táticas-técnicas-físicas-emocionais) do mesmo podem gerar em sua equipe, sendo um integrante ou um adversário, é apenas mais uma das inúmeras funções de um treinador.

Para finalizar, duas perguntas: você costuma fazer este exercício?

E, como não poderia ser diferente, você convocaria o Arouca para a seleção brasileira? Aguardo sua resposta!

Written by Eduardo Barros

10 de julho de 2011 at 11:25