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Temas atuais relacionados ao Futebol

Aquecer pra jogar e jogar pra aquecer

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O aquecimento e a preparação de corpo inteiro para sessão de treinamento

Criar um ambiente de treino propício à melhoria de desempenho e às exigências do futebol moderno requer o envolvimento da comissão técnica em todos os elementos relacionados à sessão de treinamento que podem alterar o rendimento individual e/ou coletivo.

Desta forma, atentar-se inclusive aos pormenores pode contribuir sistemicamente no produto final da equipe (nível de jogo apresentado) e na busca constante do todo maior que a soma das partes.

Um dos elementos que compreende a sessão de treino e pode ser facilmente negligenciado é o aquecimento. O tempo para este tipo de procedimento varia de 5 a 20 minutos e costumeiramente é feito de diferentes maneiras/combinações: trotes, coordenativos de corrida, bobinhos, “dois sem coxa”, gestos técnicos, acelerações, campos reduzidos, brincadeiras, core, estafetas, saltos, etc.

Como a preparação para o componente principal do treino é uma atividade cotidiana e, de certa forma, semelhante, muitas vezes os jogadores (talvez entediados por esta necessidade que se repete dia após dia em toda a carreira) não se concentram o suficiente para sua realização. Ao invés de se prepararem fisiológica e mentalmente da maneira mais adequada possível, muitos optam por colocar a “resenha” em dia, com conversas totalmente descontextualizadas ao trabalho e “economizar” energia, poupando ou roubando nos movimentos determinados (ou não) pela comissão.

Uma vez que a parte principal de uma sessão de treino de quem utiliza o jogo como essência da periodização serão os fractais, em maior ou menor escala, do jogar pretendido, uma boa alternativa para aumentar o nível de concentração do aquecimento e, consequentemente, ficar melhor preparado, é estimular as competências essenciais do jogo (Relação com a Bola, Comunicação na Ação e Leitura de Jogo) em pequenos grupos (no máximo até 3 jogadores).

Após uma pré-ativação sem bola, em jogos com ou sem alvos, restrição ou não de toques na bola, utilização obrigatória da perna não dominante, ou quaisquer outras variações/adaptações nas regras do futebol, é possível criar desde o aquecimento um ambiente de “estado de jogo” indispensável para o jogar plenamente, como menciona o Dr. Alcides Scaglia. Em comissões técnicas bem planejadas, as regras do aquecimento servem até para direcionar os atletas aos macro-objetivos do treino.

A composição de uma atividade com poucos elementos e num espaço significativamente menor que o campo de futebol proporciona uma elevada densidade de ações técnicas que, se corretamente orientadas e conduzidas, influenciarão positivamente o desempenho global de cada atleta no jogo formal.

Além disso, por envolver a capacidade de decisão, a velocidade complexa de jogo (termo utilizado pelo treinador Rodrigo Leitão) é estimulada em especificidade.

Nossos atletas continuarão aquecendo seja com as atividades tradicionais, seja com os jogos que estimulem as Competências Essenciais. Porém, nos últimos 15 anos de envolvimento diário com futebol, incontáveis aquecimentos realizados, orientados ou observados e com o óculos que enxergo o futebol atualmente, tendo a afirmar que a segunda opção é mais eficaz. Afinal, se vamos aquecer pra jogar talvez devamos jogar pra aquecer!

Abraços e até a próxima semana.

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Written by Eduardo Barros

15 de setembro de 2013 at 16:19

Entrevista Tática – Niander: Lateral direito do Penapolense-SP

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“O futebol de rua me fez amadurecer mais cedo, aprendendo a malícia e a experiência de jogar com pessoas mais velhas.”

Antes de iniciar a entrevista com o referido atleta, gostaria de deixar uma breve opinião de Tostão, publicada na Folha de São Paulo, que expressa a visão do colunista sobre o desempenho da seleção brasileira na final da Copa das Confederações.

“Por causa de um excepcional jogo não se pode tirar conclusões, mudar conceitos, nem dizer que as críticas anteriores à seleção e ao futebol brasileiro eram incorretas e/ou severas. O que vimos contra a Espanha não tem nada a ver com o que a seleção jogava nem com a qualidade e a maneira de atuar da maioria das equipes brasileiras. Mas o fato mostra que, se o futebol brasileiro, a médio prazo, trabalhar com eficiência e seriedade, dentro e fora de campo, estará, de rotina, e não apenas em um momento, entre os melhores do mundo.”

Parabéns, Tostão, por mais uma valiosa opinião sobre o nosso futebol.

Obrigado, Renato Buscariolli, pelo contato para a entrevista.

1-    Quais os clubes que você jogou a partir dos 12 anos de idade? Além do clube, indique quantos anos tinha quando atuou por ele.

Jockey Clube-SP (12 aos 14 anos); Ituano-SP (15 anos ); Atlético Sorocaba-SP (16 aos 22 anos ); Mineiros-GO (23 anos ); Noroeste (23 anos ); Bragantino-SP (23 e 24 anos ); Operário-MS (24 anos), São Bernardo-SP (24 aos 26 anos) e Penapolense-SP (27 aos 29 ). 

2-    Para você, o que é um atleta inteligente?

Um atleta inteligente tem que valorizar suas características, tentar assimilar o mais rápido possível  o que o treinador pedir e ter uma conduta exemplar fora de campo. 

3-    O quanto o futebol de rua, o futsal ou o futebol de areia contribuiu para a sua formação até chegar ao profissional?

O futebol de rua me fez amadurecer mais cedo, aprendendo a malícia e a experiência de jogar com pessoas mais velhas. 

4-    Em sua opinião, o que é indispensável numa equipe para vencer seu adversário?

Fator indispensável para uma equipe vencer seu adversário é a parte física, pois bem fisicamente o atleta supera suas limitações técnicas e táticas. 

5-    Quais são os treinamentos que um atleta de futebol deve fazer para que alcance um alto nível competitivo?

O atleta necessita de muito trabalho técnico e muita força física. 

6-    Para ser um dos melhores jogadores da sua posição, quais devem ser as características de jogo tanto com bola, como sem bola?

Sou lateral e preciso apoiar muito durante os 90 minutos. Chegar sempre com qualidade na linha de fundo e ter uma ótima recuperação na marcação. 

7-    Quais são seus pontos fortes táticos, técnicos, físicos e psicológicos? Explique e, se possível, tente estabelecer uma relação entre eles.

Sou um atleta muito determinado na formação tática e procuro entender e fazer tudo que o treinador nos orienta durante a semana . Tenho um bom passe e hoje em dia uma boa equipe tem que valorizar ao máximo sua posse de bola. Como tenho muita força física, procuro sempre explorar minha explosão. Procuro também sempre manter o foco nas partidas.

8-    Pense no melhor treinador que você já teve! Por que ele foi o melhor?

Luciano Dias. Pessoa muito inteligente taticamente e tem uma conduta exemplar. 

9-    Você se lembra se algum treinador já lhe pediu para desempenhar alguma função que você nunca havia feito? Explique e comente as dificuldades.

(…) Ele me pediu para atuar na lateral esquerda em um treinamento coletivo. Sou destro e acabei tendo muita dificuldade.

10- Qual a importância da preleção do treinador antes da partida?

Relembrar todo o trabalho feito na semana, pontos fortes do adversário e o principal que é a motivação. 

11- Quais são as diferenças de jogar em 4-4-2, 3-5-2, 4-3-3, ou quaisquer outros esquemas de jogo? Qual você prefere e por quê?

No 4-4-2, os laterais acabam tendo uma função muito importante na marcação, já no 3-5-2, os laterais tem uma liberdade de ataque muito maior. Prefiro o 4-4-2 porque exige do lateral um bom posicionamento tático, fechando na linha dos zagueiros e sabendo apoiar no momento certo. 

12- Comente como joga, atualmente, sua equipe nas seguintes situações:

  • Com a posse de bola;
  • Assim que perde a posse de bola;
  • Sem a posse de bola;
  • Assim que recupera a posse de bola;
  • Bolas paradas ofensivas e defensivas.

Minha equipe valoriza muito a posse de bola, mas sem perder a agressividade. Assim que perdemos a bola o jogador mais próximo já começa a fazer a marcação pressão. Sem a posse, procuramos diminuir o campo em 40m e sempre pressionar o atleta que está com a bola. Quando recuperamos tentamos valorizar a posse da bola e envolver o adversário!

Nas bolas paradas defensivas marcação por setor e nas ofensivas atacar a bola. 

13- O que você conversa dentro de campo com os demais jogadores, quando algo não está dando certo?

Procuramos manter a calma e o posicionamento pedido pelo treinador. Mas nós atletas precisamos ter a iniciativa de fazer algo diferente para se organizar o mais rápido possível. 

14- Como você avalia seu desempenho após os jogos? Faz alguma reflexão para entender melhor os erros que cometeu? Espera a comissão técnica lhe dar um retorno?

Tenho minha autocrítica e sempre procuro analisar o que poderia ter feito de diferente para evitar os erros. A comissão técnica nos apresenta um trabalho de vídeo para observarmos onde foi que erramos e acertamos na partida. 

15- Para você, quais são as principais diferenças entre o futebol brasileiro e o europeu? Por que existem estas diferenças?

A diferença do futebol europeu com o brasileiro é a condição financeira e a obediência tática. Existem estas diferenças porque o Brasil é um país muito corrupto e o atleta brasileiro se destaca na individualidade. 

16- Se você tivesse que dar um recado para qualquer integrante de uma Comissão Técnica, qual seria?

Seja coerente com todos os atletas, independente da situação.

Written by Eduardo Barros

15 de setembro de 2013 at 16:09

A Final que pode mudar o nosso final

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Resultado do confronto Brasil e Espanha pode definir nossos próximos passos

Brasil e Espanha: em 2011, representados por Santos e Barcelona respectivamente, a Final do Mundial de clubes foi vexatória para o futebol brasileiro e ponto de partida para muitos veículos de imprensa, dirigentes, treinadores e outros profissionais do futebol apontarem o abismo entre o jogo brasileiro e o europeu. Menos de dois anos depois, a escola brasileira e espanhola se reencontram, agora representadas pelas suas seleções, na final da Copa das Confederações disputada no Brasil.

Como a grande maioria dos atletas da escola brasileira atua no futebol do Velho Continente e estão habituados aos comportamentos de jogo por lá praticados (no onze inicial, 3 jogam na Inglaterra, 2 na Espanha, 1 na França, 1 na Alemanha e 1 na Rússia),  descarta-se a hipótese de vexame semelhante ao sofrido pela equipe santista. Porém, os princípios de jogo apresentados por cada seleção podem, novamente, expor a distância entre o futebol brasileiro e o europeu.

Uma vez que o placar é a única variável considerada na análise de um trabalho e o futebol é, por característica, imprevisível, a vitória da equipe de Felipão pode mascarar diversos elementos das ideias de jogo do treinador brasileiro que, ocupando o mais alto cargo de técnico de futebol no país, representa como temos pensado a modalidade.

Para a análise do que pode ser a final, além de exercer o papel social de treinador (ainda que num cargo de pequena expressão), exerço também o papel de torcedor.

E enquanto o torcedor quer o título para o nosso país e a confiança para a Copa do Mundo que se aproxima, o treinador quer mais uma aula espanhola, de ideias para um bom e belo futebol.

O torcedor vislumbra que em pouco tempo de comando, Scolari conseguiu transformar uma equipe desacreditada em favorita. Imagina o quanto não poderá ser feito num trabalho em longo prazo? Já o treinador questiona se, mesmo com mais tempo para treinar, os princípios de jogo serão mantidos.

O torcedor vê David Luiz extremamente raçudo e marcador. O treinador o vê muitas vezes mal posicionado num ataque à bola desordenado.

O torcedor vê Luiz Gustavo com uma precisão impecável no passe. O técnico vê um volante que escolhe preferencialmente o passe cadenciado e praticamente não pisa no campo de ataque.

O torcedor vê Neymar decisivo, exímio finalizador. O técnico, lamentavelmente, o vê como “boleirão”, reclamão e pouco coletivo.

O torcedor concorda com a opinião da imprensa, que classifica o Oscar como exausto neste final de temporada. O técnico o vê isolado, com volantes distantes, num setor em que todos os adversários têm conseguido, com boa organização defensiva, neutralizar o Brasil.

O torcedor não se importa com o futuro da modalidade, com a evolução do jogo, do treino e com aquilo que é tendência no futebol mundial. O treinador sonha que o futebol praticado pelos espanhóis sirva de exemplo para nossos treinadores e dirigentes, grandes responsáveis pelo futebol do futuro (e por falar em futuro, lembram-se que nossa seleção não está no mundial sub-20?).

Por fim, o torcedor quer gritar “É CAMPEÃO!” e o treinador bater palmas para a seleção que joga o melhor futebol da atualidade e que precisa vencer para, quem sabe, permanecer acesa a chama que em 2011 se acendeu e que alguns profissionais lutam arduamente para que assim permaneça. Uma vitória do Brasil pode atrasar este processo e apagar a chama!

Até Domingo as 19h00, decido em qual papel assisto ao jogo…

Você já se decidiu? Escreva a sua opinião!

Written by Eduardo Barros

15 de setembro de 2013 at 16:00

Uma pausa nas questões táticas

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Tempo de reflexões esta semana deve ser outro

Assuntos táticos não faltam para serem discutidos, especialmente neste período de Copa das Confederações. Porém, ter um espaço semanal para publicações num portal que tem um olhar transdisciplinar para o futebol e fechar os olhos para as manifestações da população brasileira que ocorreram nos últimos dias não me pareceu coerente.

É difícil falar de seleção brasileira, Neymar, Paulinho, Posse de Bola, Espanha, Momentos do Jogo, Itália, Modelo de Jogo, Periodização ou quaisquer outros temas num momento em que o povo vai à rua e expressa (nem sempre da melhor forma) tamanha indignação.

Como escrever sobre estes atos não compreendem a minha especialidade profissional, procurei em diversos posts, vídeos e reportagens uma visão que representasse parte da minha opinião.

E foi de um e-mail encaminhado pela minha esposa e escrito pela psicóloga Patrícia Gebrim que encontrei alguns parágrafos de imenso significado.

A Avenida Paulista virou um espelho

“Tenho acompanhado, com o coração apertado, as manifestações que vem acontecendo no Brasil. Moradora de São Paulo, não há como não sentir esse nó na garganta ao ver as imagens da Avenida Paulista tomada por fumaça e toda aquela agressividade. Ao mesmo tempo, a sensação incômoda de me sentir manipulada por informações desencontradas, e como muitos brasileiros, de achar muito difícil saber no que acreditar.
Assim, registro internamente tudo o que li, vi e ouvi na última semana, fecho os olhos e busco informações dentro de mim. Penso que é lá, dentro de nós, que encontraremos sempre a opinião mais sábia e sensata, e peço ajuda para ser capaz de escrever algo que faça algum sentido, algo que possa, de alguma maneira, aliviar essa sensação de impotência que anda tão presente em meu íntimo e servir de alguma ajuda neste momento.
Tenho vivido em um país onde os abusos tornaram-se o “pão nosso de cada dia”. Corrupção, péssima educação para nossas crianças, sistema de saúde ineficaz. Respeito e ética tornaram-se palavras que devem morar em algum museu. Os tais vinte centavos são um símbolo. Não estamos aguentando mais. Algo precisa mudar. E após tanto tempo calado, impulsionado por uma energia que vem se espalhando por todo o planeta, amparado pela comunicação facilitada pelas redes sociais, o povo resolveu falar, recuperar sua voz. Nada mais legítimo.
No entanto, quando ocorre um fenômeno de massa como o que está acontecendo, é muito fácil perdermos, na coletividade, aquela fagulha divina que validava o movimento dentro de cada um de nós. Corremos o risco de ter a alma engolida pelo animal que mora em nós, e quando isso acontece, a legitimidade de nossos atos desaparece.
Se, enquanto humanidade, já tivéssemos atingido um nível superior de consciência, os manifestantes iriam pacificamente às ruas, os policiais cuidariam para que a manifestação ocorresse de forma protegida e todos sairiam ganhando. No entanto, enquanto seres humanos, “não importa de que lado estejamos”, somos ainda muito falhos. Levamos ainda, em nosso íntimo, uma imensa sombra. Carregamos medos, raiva, ressentimentos, inveja, ódio. E de repente, no meio da multidão, nossa luz se esvai e essa parte mais densa se sobressai. Talvez isso não aconteça com todos, mas basta uma pequena fagulha para que um fogo se faça. Aqui e ali, de um lado ou de outro, nos tornamos animais, os animais que somos também. O animal que ainda não curamos.
Se existem atos de destrutividade por um lado, e resposta truculenta por outro _ e estou certa de que ambos existem _ isso está refletindo o conflito e a agressividade que ainda existe dentro de cada um de nós.
Deixo as considerações políticas aos políticos. As considerações sociais aos sociólogos. Cabe a mim, como ser humano, dizer que precisamos nos tornar maiores do que o animal que mora em nós.
Seja você um estudante cheio de paixão que caminha pelas ruas clamando por mais justiça social, seja você um policial que deixa um filho dormindo no berço para ir às ruas fazer o seu trabalho, vestindo sua farda com a intenção de preservar a ordem; não perca a sua essência, não perca a sua luz, não se perca na histeria das massas, não seja engolido por essa onda rubra que ensombrece nossa alma e amortece nossos corações.
Todos podemos perder nossa essência, e quando nos perdemos do que de belo existe em nós, todos perdem, e as cenas tristes dos últimos dias se repetem.
Assim, não estou aqui para julgar ninguém. Não estou aqui para dizer quem está certo ou errado, para nomear vítimas ou carrascos. Minha intenção é lembrar a todos do perigo intrínseco às generalizações.
Não se trata de “vândalos” versus “policiais truculentos”.
São pessoas. Seres humanos. De ambos os lados, muitas delas bem intencionadas. E muitas delas também tomadas por um lado animalesco, cheio de inconsciência e separatividade, que simplesmente destrói. E se existe algo que possa ser chamado de mal, esse mal estará incentivando a agressividade desmedida, o ódio generalizado por quem quer que more do outro lado da linha que traçamos.
Tudo é uma ilusão. Não há linhas. Somos todos irmãos.
Apenas peço, do fundo da minha alma, seja você quem for, que busque em si mesmo aquele lugar de sabedoria que lhe dirá que a pessoa que está lá, do outro lado, não é o inimigo.
O inimigo real só pode ser vencido dentro de cada um de nós.
Só teremos paz quando, cada um de nós, criarmos paz em nosso íntimo. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ver na tela da televisão o triste retrato de nossa própria distorção.
A Avenida Paulista é um espelho do que acontece dentro de cada um de nós.”
 

Agradeço a sua compreensão, leitor, por dedicar alguns minutos do seu dia para uma reflexão que não é (será?) relativa ao futebol. Na próxima semana retorno com publicação sobre a Copa das Confederações.

 

Written by Eduardo Barros

15 de setembro de 2013 at 15:56

Um grande risco de treinar jogando

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O jogo pelo jogo, a repetição de más decisões e a função da comissão

reduzidoTreinar situações de jogo apresenta-se como a grande tendência do treinamento em futebol. Seja por autores da corrente pedagógica ou por autores da corrente biológica, a ideia de criar um ambiente que permita aos atletas terem que tomar decisões semelhantes as da competição ganha cada vez mais espaço e adeptos.

Aplicado sob uma perspectiva sistêmica, o objetivo de cada sessão de treino é promover adaptações físico-técnica-tática-mentais positivas, tanto de caráter individual como coletivo. Tais adaptações buscam aperfeiçoar o Modelo de Jogo do treinador, que deve ser construído em função do jogo e de sua lógica.

Como jogar (em espaços reduzidos, espaços formais, com superioridade numérica, inferioridade numérica, igualdade numérica, com pressão de tempo, com redução de toques, com referências espaciais ou quaisquer outras adaptações propostas pela comissão) passa a ser a essência da periodização, o volume total semanal que uma equipe atinge com esta forma de treinamento ultrapassa 300 minutos.

Isto significa que numa “semana cheia”, com apenas um jogo no final de semana, a comissão técnica tem mais de 5 horas de treino (jogo) para efetuar as devidas intervenções (de ordens física-técnica-tática-mentais).

Uma vez que a ação de cada jogador num determinado jogo reflete a interpretação que o mesmo tem das inúmeras situações-problema que o jogo lhe apresenta, toda semana de treino é uma oportunidade de correções e aquisições de comportamentos. Eis a grande solução. E também um grande risco de treinar jogando!

Para exemplificar, imaginemos um zagueiro central que de acordo com os princípios de jogo do futebol moderno apresenta as seguintes dificuldades:

  • Mau posicionamento na grande área para proteger o gol em situações de cruzamento do adversário;
  • Dificuldade para compor a linha de defesa zonalmente, marcando o adversário de forma individual desnecessariamente;
  • Ataque à bola em detrimento ao retardamento, quebrando a linha de defesa e proporcionando uma decisão mais fácil ao adversário;
  • Dificuldade para posicionar o corpo entre a bola e o alvo durante a flutuação;
  • Dificuldade para participar da organização ofensiva, não realizando coberturas ofensivas e apoios;
  • Não participação do bloco ofensivo quando a equipe tem a posse de bola no campo de ataque;
  • Dificuldade de decidir rapidamente sobre a melhor opção de passe.

Todos estes comportamentos tendem a ser reproduzidos nas emergências dos jogos ao longo do microciclo. Numa comissão técnica que resolva treinar com situações de jogo, mas que seja ineficiente nas intervenções, as mais de 5 horas de treinamento semanal serão subaproveitadas e o referido atleta pouco evoluirá.

O subaproveitamento deste tempo de treino gerará a repetição de más decisões que, quanto mais velho for o atleta, mais dificilmente serão modificadas. Ter um atleta formado, habituado a comportamentos de jogo ultrapassados demanda um tempo de treino para correção que o imediatismo do futebol não permite. Além disso, as crenças que o atleta carrega limitam a compreensão de um novo futebol e seu potencial cognitivo já está reduzido.

Multipliquem os “problemas” apresentados de um atleta pelos cerca de 30 jogadores existentes num elenco. Há muito trabalho para uma comissão técnica que, como pré-requisito, deve conhecer quais são os elementos do bom futebol. Ciente destes elementos, inicia-se a constante construção e reconstrução do jogar da unidade complexa/equipe que se adquire na ação.

Que a comissão seja cuidadosa o suficiente para não transformar as mais de 5 horas semanais de treinamento num ambiente que, mesmo jogando, reforce o mau futebol!

Abraços e bom trabalho!

Enfim, a negociação de Neymar

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Os desdobramentos táticos da venda do ex-atacante santista

NeymarO início de uma nova era! Esta foi a expressão utilizada pelo zagueiro e capitão da equipe do Santos, Edu Dracena, durante uma entrevista, para se referir à confirmação da negociação de Neymar, até então seu companheiro de clube, ao Barcelona-ESP.

Apesar de todos os esforços do clube santista para mantê-lo pelo menos até ao final da Copa de 2014, o fato é que a pressão externa realizada sobre o craque adiantou a esperada (e inevitável) transferência para a Europa.

Tal transferência é a oportunidade de ratificação das expectativas criadas em torno do atacante. Torcedores, imprensa, treinadores e especialistas esperam uma evolução do jogador que deverá solucionar problemas distintos dos que enfrentava no futebol brasileiro.

Com maior ou menor aprofundamento, muitos afirmam que a marcação na Europa é diferente da praticada no Brasil. Se por aqui ele estava acostumado a enfrentar marcações e pressões individuais, no velho continente encontrará linhas do adversário mais próximas, marcações zonais com ou sem pressing, coberturas e direcionamentos para setores de menor risco. Mecanismos defensivos comuns no futebol europeu que exigirão maior inteligência de jogo individual e coletiva de Neymar.

E não é só no momento ofensivo do jogo (para desorganizar o momento defensivo do adversário) que a evolução será necessária. A participação efetiva em todos os momentos, exigida de todos os jogadores, comum ao Barcelona e a todas as equipes taticamente evoluídas, seguramente lhe será exigida.

Nas transições defensivas, o Barcelona rapidamente apressa o adversário em espaço e tempo, enquanto no Brasil, o Neymar comumente perde segundos preciosos reclamando com a arbitragem. Quando reage mais rapidamente, faz uma ou duas pressões no adversário portador da bola sem um maior compromisso coletivo.

Defensivamente, para cumprir o Modelo de Jogo da equipe catalã, o jovem atacante deverá jogar orientado para a recuperação da posse de bola o mais rápido possível. Para isso, comportamentos de jogo habituais como estar à frente da linha da bola e andar enquanto compõe o balanço ofensivo deverão ser substituídos.

Já nas transições ofensivas, a evolução passa, principalmente, por jogar com menos toques na bola no setor tiki-taka da equipe espanhola e também saber ocupar espaço distante da bola, cumprindo a função determinada pelo Modelo e pelas circunstâncias do jogo. Tal evolução é necessária para evitar o excesso de jogadas individuais nas faixas intermediárias do campo de jogo e a demasiada centralização à bola.

A capacidade do jogador é indiscutível e sua adaptação ao futebol europeu seria mais rápida se ele saísse do país com mais competências, que lhe serão exigidas, já adquiridas. No entanto, no Brasil, tanto na formação, como no profissional, ainda estamos distantes de termos o futebol evoluído como realidade.

E como disse Edu Dracena, inicia-se uma nova era! Não para o Neymar, um grande talento que vai para uma das maiores equipes do futebol mundial, mas para o Santos, que segundo o zagueiro, estava acostumado a dar a bola ao atacante e esperar para ver o que acontecia.

Sem o Neymar, vamos precisar mais de Muricy, que trouxe os reforços que queria para a temporada 2013 e ainda assim continuou praticando o que muitos chamaram de “Neymardependência”. O treinador santista, pelas suas conquistas, pelo peso que possui no futebol nacional e pelo seu cargo é um dos responsáveis por acelerar (ou desacelarar) o processo de evolução do nosso futebol. De acordo com a declaração de Edu Dracena e os próximos jogos da equipe santista, agora sem o craque, vamos torcer para que a nova era não comece nos decepcionando.

Obs: Muricy Ramalho foi demitido no início da sexta feira e optei por não alterar o conteúdo da coluna. Que os votos feitos ao Muricy sejam estendidos ao novo treinador da equipe santista.

Written by Eduardo Barros

3 de junho de 2013 at 10:02

Banco de Jogos – Jogo 8

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Jogo Conceitual em Ambiente Específico de Transição Ofensiva

Muitos gols ocorrem a partir de jogadas de transição ofensiva. Sendo assim, ter comportamentos de jogo bem definidos após a recuperação da posse de bola, aproveitando a desorganização adversária, pode aproximar a equipe das vitórias. Na atividade desta semana a equipe que melhor gerir sua transição ofensiva, cumprindo a Lógica do Jogo criado, é quem terá maiores possibilidades de êxito.

Jogo Conceitual em Ambiente Específico de Transição Ofensiva 

– Dimensões do campo oficial.  ~ 100m x 70m;

– Campo dividido em 4 corredores laterais,  2 faixas centrais e 1 faixa horizontal,  conforme ilustra a figura:

Jogo8

Regras do Jogo

  1. 3 toques no campo de defesa e passe somente pra frente (para cada jogada é permitido 1 toque pra trás);
  2. Recuperar a posse de bola no corredor lateral e em até 4 passes ultrapassar o meio campo com a bola dominada ou através de passe = 1 bônus;
  3. Recuperar a posse de bola na faixa central defensiva, em frente a grande área e errar o passe = 1 ponto para o adversário;
  4. Recuperar a posse de bola na faixa horizontal intermediária e acertar o passe para o campo de ataque, à frente da faixa = 1 bônus;
  5. 5 bônus = 1 ponto;
  6. Gol = 5 pontos;
  7. Gol de contra-ataque = 8 pontos; 

Assista aos vídeos com os exemplos de algumas regras:

Regra 2 

http://www.youtube.com/watch?v=5egirM3Rtvc 

O jogador número 2 da equipe listrada recupera a posse de bola no corredor lateral e em menos de 4 passes a equipe ultrapassa o meio campo. Esta ação vale 1 bônus para a equipe listrada. 

Regra 3 

http://www.youtube.com/watch?v=LocsMtUoFas 

O jogador número 5 da equipe vermelha recupera a posse de bola na faixa central. Na sequência da jogada erra o passe para o jogador número 9. Esta ação vale 1 ponto para a equipe listrada.

Regra 4 

http://www.youtube.com/watch?v=3qYflOcRWw0 

O jogador número 5 da equipe listrada recupera a posse de bola e na sequencia acerta o passe para o jogador número 7 no corredor lateral. Esta ação vale 1 bônus para a equipe listrada. 

Aguardo dúvidas, críticas e sugestões. Abraços e bons treinos!