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O treino recreativo no planejamento semanal

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Prática comum das equipes de futebol deve ser realizada na véspera do jogo?

recreativoÉ procedimento padrão nos clubes de futebol, em diferentes categorias, encerrar a semana de treinamentos com um jogo recreativo. Nesta atividade, os atletas jogam fora de suas posições de origem e, muitas vezes, até os membros da comissão técnica participam. Com o objetivo de descontrair o grupo e deixar o ambiente “leve” para a partida do dia seguinte, cerca de vinte minutos do tempo de treino semanal são consumidos para dedicar a uma prática sem qualquer relação com o jogar da equipe ou então com o próximo adversário.

E como em nossa atuação profissional devemos buscar a excelência, reflexões e questionamentos sobre os costumes (muitas vezes empíricos) da modalidade devem ser feitos constantemente com o intuito de aperfeiçoá-la.

Sendo assim, surge uma reflexão sobre o tema: será que o treino recreativo é a melhor atividade para encerrar a semana de treinamentos?

Sabemos que durante um microciclo a correta distribuição da carga de treino é fundamental para que a equipe tenha condições de atingir o pico de performance na competição. E esta carga (física, técnica, tática, psicológica), inter-relacionada para alguns, integrada para outros, ou isolada para outros mais, diminui consideravelmente na véspera da partida. Apesar da diminuição da carga, o ideal é que a sessão de treino, mesmo com um menor desgaste complexo, proporcione adaptações positivas no sistema.

Sistema que, rodada a rodada, está sujeito a alterações, seja por lesões, suspensões, ajustes na construção diária do Modelo de Jogo ou até substituições por nível de desempenho.

Com todas estas alterações, os vinte minutos dedicados ao Recreativo podem ser melhor utilizados com repetições de situações de jogo que fortaleçam o sistema e direcione-o para o cumprimento da lógica do Jogo.

Inúmeras ações do jogo podem ser reproduzidas com uma baixa densidade. Basta a comissão técnica estar atenta em relação a quais intervenções são necessárias e controlar os estímulos para preservar o metabolismo de jogo, que será utilizado no dia seguinte. Bolas paradas ofensivas e defensivas, reposições em tiros de meta, primeira e segunda bola, movimentações em arremesso lateral, setor de pressão, distribuição das peças no campo de ataque, saída jogando, ações ofensivas do adversário, ação em setores vulneráveis do adversário, são apenas alguns exemplos do que pode ser treinado na véspera do jogo.

Mas e o Recreativo? Deve ser abolido do futebol?

Se na véspera do jogo a atenção das atividades deve estar voltada para os ajustes necessários da equipe e para o próximo adversário, o início da semana pode ser o dia ideal para esta prática culturamente inserida no futebol brasileiro.

No início da semana, ainda sem maiores preocupações com o próximo jogo e ainda num processo de recuperação da partida anterior, a justificativa para descontrair o grupo parece mais coerente.

Surgirá então, outro problema:

As equipes que perderem na partida anterior também poderão fazer o treino recreativo?

Aguardo sua opinião, caro leitor!

A propósito: quando você realiza o treino recreativo?

Written by Eduardo Barros

15 de setembro de 2013 at 17:19

Aquecer pra jogar e jogar pra aquecer

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O aquecimento e a preparação de corpo inteiro para sessão de treinamento

Criar um ambiente de treino propício à melhoria de desempenho e às exigências do futebol moderno requer o envolvimento da comissão técnica em todos os elementos relacionados à sessão de treinamento que podem alterar o rendimento individual e/ou coletivo.

Desta forma, atentar-se inclusive aos pormenores pode contribuir sistemicamente no produto final da equipe (nível de jogo apresentado) e na busca constante do todo maior que a soma das partes.

Um dos elementos que compreende a sessão de treino e pode ser facilmente negligenciado é o aquecimento. O tempo para este tipo de procedimento varia de 5 a 20 minutos e costumeiramente é feito de diferentes maneiras/combinações: trotes, coordenativos de corrida, bobinhos, “dois sem coxa”, gestos técnicos, acelerações, campos reduzidos, brincadeiras, core, estafetas, saltos, etc.

Como a preparação para o componente principal do treino é uma atividade cotidiana e, de certa forma, semelhante, muitas vezes os jogadores (talvez entediados por esta necessidade que se repete dia após dia em toda a carreira) não se concentram o suficiente para sua realização. Ao invés de se prepararem fisiológica e mentalmente da maneira mais adequada possível, muitos optam por colocar a “resenha” em dia, com conversas totalmente descontextualizadas ao trabalho e “economizar” energia, poupando ou roubando nos movimentos determinados (ou não) pela comissão.

Uma vez que a parte principal de uma sessão de treino de quem utiliza o jogo como essência da periodização serão os fractais, em maior ou menor escala, do jogar pretendido, uma boa alternativa para aumentar o nível de concentração do aquecimento e, consequentemente, ficar melhor preparado, é estimular as competências essenciais do jogo (Relação com a Bola, Comunicação na Ação e Leitura de Jogo) em pequenos grupos (no máximo até 3 jogadores).

Após uma pré-ativação sem bola, em jogos com ou sem alvos, restrição ou não de toques na bola, utilização obrigatória da perna não dominante, ou quaisquer outras variações/adaptações nas regras do futebol, é possível criar desde o aquecimento um ambiente de “estado de jogo” indispensável para o jogar plenamente, como menciona o Dr. Alcides Scaglia. Em comissões técnicas bem planejadas, as regras do aquecimento servem até para direcionar os atletas aos macro-objetivos do treino.

A composição de uma atividade com poucos elementos e num espaço significativamente menor que o campo de futebol proporciona uma elevada densidade de ações técnicas que, se corretamente orientadas e conduzidas, influenciarão positivamente o desempenho global de cada atleta no jogo formal.

Além disso, por envolver a capacidade de decisão, a velocidade complexa de jogo (termo utilizado pelo treinador Rodrigo Leitão) é estimulada em especificidade.

Nossos atletas continuarão aquecendo seja com as atividades tradicionais, seja com os jogos que estimulem as Competências Essenciais. Porém, nos últimos 15 anos de envolvimento diário com futebol, incontáveis aquecimentos realizados, orientados ou observados e com o óculos que enxergo o futebol atualmente, tendo a afirmar que a segunda opção é mais eficaz. Afinal, se vamos aquecer pra jogar talvez devamos jogar pra aquecer!

Abraços e até a próxima semana.

Written by Eduardo Barros

15 de setembro de 2013 at 16:19

Você vai montar o seu treino? Não esqueça (e cuidado com) o princípio das propensões!

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A aplicação deste princípio metodológico e as regras dos jogos nas sessões de treinamento

Pensar a semana de treinamento é tarefa das mais trabalhosas. Das situações hipotéticas para os pós-graduandos da disciplina que ministro às conversas com o treinador com o qual trabalho, as discussões, reflexões, questionamentos e definições de atividades duram, pelo menos, uma hora.

Na situação hipotética, não existe a transferência real para a prática, porém, nas discussões com meu companheiro de trabalho atual (e nas centenas de reuniões de planejamento já realizadas com outros profissionais), diversos pontos são considerados, pois interferem diretamente no jogo seguinte.

O desempenho da equipe na última partida, o nível de aplicação do Modelo de Jogo, o Modelo que se pretende, o desempenho individual, as “baixas”, problemas extra-campo e o próximo adversário, são algumas das questões que norteiam a discussão da próxima semana de treinamento.

Na definição das atividades, o aprendizado teórico-prático adquirido ao longo dos anos é o que fundamenta as opiniões emitidas durante a reunião. O aprendizado teórico, obtido em leituras sobre complexidade, teoria dos jogos, ensino dos JDC, treinamento desportivo, treinamento em futebol, periodização tática, entre outros assuntos (a partir de livros, teses, monografias, artigos, vídeos e até ouvidas em arquivos de áudio conseguidos com um companheiro de profissão), complementa a longa vivência prática como atleta e a ainda curta, mas relevante, experiência como treinador/treinador adjunto.

E, de toda corrente teórica que baliza as opiniões para a discussão de um dia da sessão de treinamento, a coluna desta semana destacará um dos princípios metodológicos da Periodização Tática e sua importância na elaboração de um determinado jogo.

O pressuposto metodológico em questão se refere ao Princípio das Propensões. De acordo com ele, numa determinada atividade de aquisição de princípios, sub-princípios ou sub-princípios dos sub-princípios de jogo, a densidade do que se pretende treinar precisa acontecer em um valor significativo de modo que determinados comportamentos esperados para aplicação do Modelo de Jogo tornem-se hábitos.

Em uma análise rápida do princípio e do seu significado, uma maneira de tornar propensa a finalização em um determinado exercício é elevar a quantidade de alvos. Outro exemplo, agora para tornar propenso o fechamento de linhas de passe, é criar um exercício de troca de passes em que uma equipe em inferioridade numérica a impede. E, para aperfeiçoar a circulação da posse com ampliação de campo efetivo de jogo, um 11×0, respeitando a distribuição espacial da plataforma de jogo, pode ser uma opção.

Posto isso, eis o embate: nem todo exercício criado de acordo com o que preconiza a Periodização Tática é jogo e nem todo jogo, criado por quem o utiliza como método, fundamenta-se no Princípio das Propensões.

O resultado: treinamentos distantes do Jogo que se quer jogar!

Para adeptos da Periodização Tática, alguns exercícios tem coerente relação com o Modelo de Jogo, mas significativa distância do próprio Jogo, ou seja, do futebol. Na elaboração da atividade, elementos básicos que deveriam caracterizá-la como jogo são ignorados. Logo, na repetição sistemática de determinado princípio, sub-princípio ou sub-princípio do sub-princípio do Modelo de Jogo Adotado, é comum a observação de atividades que, na prática, não são desafiadoras, não geram desequilíbrios, não permitem a representação e, acima de tudo, não são imprevisíveis. Este é um grande problema para quem objetiva a especificidade e que precisa proporcionar o “estado de jogo”, já abordado semanas atrás.

Porém, para quem já utiliza o jogo enquanto método de treinamento o problema é outro. É comum que na definição das regras do jogo se esqueça o Princípio das Propensões e sua relevância na evolução do jogar da equipe. Como consequência, a definição de regras que criam uma Lógica do Jogo não condizente com os comportamentos que se pretende treinar. Exemplificando, ao criar um jogo para aperfeiçoar a organização defensiva da equipe no que tange a flutuação, a simples regra “2 toques na bola no campo de ataque”, não irá favorecê-la. Dar um ponto a equipe se ela estiver “flutuando bem”, é igualmente equivocado. Onde estão as regras do jogo que definirão se, de fato, a equipe está flutuando bem?

Para otimizar o desempenho de sua equipe, é indispensável que uma sessão de treinamento seja a todo momento, para todos os jogadores, a resposta tática-técnica-física-emocional para os problemas que você criou. Os problemas criados têm que ser Jogo e o jogo tenderá ser vencido por quem melhor cumprir suas regras.

São estas regras que devem orientar a equipe para o cumprimento da Lógica do Jogo. E, além disso, devem obrigatoriamente, considerar o Princípio das Propensões para que a densidade de problemas que surjam no jogo evidencie a necessidade das respostas coletivas adequadas para vencê-lo.

Sendo assim, é possível tornar propensos: a finalização sem necessariamente aumentar o número de alvos (e assim não se distanciar da Lógica do Jogo de futebol), o fechamento de linhas de passe sem reduzir o número de defensores e a ampliação do campo efetivo num jogo de 11×11.

Pensar a semana de treino é tarefa das mais trabalhosas. Mãos à obra!